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A luva da Adidas nem esquentou no caixa do Flamengo: Bandeira relembra crise financeira de 2013

A luva da Adidas nem esquentou no caixa do Flamengo: Bandeira relembra crise financeira de 2013

Quando Eduardo Bandeira de Mello assumiu a presidência do Flamengo, em dezembro de 2012, uma das primeiras preocupações da nova administração foi descobrir o tamanho real da crise financeira encontrada na Gávea. Em 27 de dezembro, ainda antes da posse formal, Bandeira e Rodrigo Tostes foram à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para conhecer a situação tributária do clube. Naquele momento, uma receita importante estava prestes a entrar: o pagamento inicial do contrato com a Adidas. Segundo o ex-presidente, porém, o dinheiro que poderia representar um alívio imediato para o caixa já tinha outro destino.


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A situação era mais grave do que a nova diretoria imaginava. Bandeira relatou que o Flamengo tinha receitas penhoradas e uma grande quantidade de débitos vencidos com a Fazenda Nacional. O clube havia aderido anteriormente a um programa de refinanciamento relacionado à Timemania, mas nenhuma parcela havia sido paga. A reunião com os procuradores serviu justamente para dimensionar o passivo e entender quais caminhos poderiam ser utilizados para regularizar a situação.

A Adidas e o dinheiro que já tinha destino

O contrato com a Adidas vinha sendo negociado durante a administração de Patricia Amorim e só foi formalizado depois da eleição. O Conselho Deliberativo aprovou o acordo de dez anos em 19 de dezembro de 2012, com início previsto para maio de 2013. A parceria previa uma luva de R$ 38 milhões, além de outros valores ao longo do vínculo.

Era justamente essa primeira receita que despertava expectativa na nova administração. Bandeira contou que, antes de conhecer em detalhes a dimensão da dívida, havia a possibilidade de utilizar a chamada “luva” para reforçar o futebol. Depois da reunião com a Fazenda, entretanto, a prioridade mudou completamente.

Segundo o ex-presidente, a nova diretoria informou aos procuradores que o Flamengo receberia um pagamento da Adidas na semana seguinte e que o valor seria imediatamente destinado ao passivo tributário. A frase utilizada por Bandeira resume o tamanho do problema encontrado: “Vai chegar aqui, vai bater. Nós vamos fazer um DARF. Toma aqui, o dinheiro é todo de vocês”.

O relato é importante porque mostra uma situação diferente daquela imaginada por parte da torcida: uma receita extraordinária que poderia ser utilizada para contratar jogadores ou reorganizar o departamento de futebol acabou sendo direcionada para uma dívida que ameaçava a própria capacidade do clube de operar.

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A dívida continuava, mas o cenário começou a mudar

O pagamento não resolveu o problema financeiro do Flamengo. O próprio Bandeira reconheceu que a quantia não seria suficiente para reduzir de maneira significativa o passivo. O efeito mais importante, segundo ele, foi outro: demonstrar aos procuradores que a nova administração pretendia cumprir os compromissos e construir uma relação diferente com a Fazenda Nacional.

A mudança de postura era fundamental porque o clube precisava recuperar sua regularidade fiscal para voltar a negociar com empresas públicas. Em março de 2013, o Flamengo já havia conseguido certidões relativas a tributos federais, dívida ativa da União, FGTS e INSS, embora ainda faltassem documentos estaduais, municipais e trabalhistas.

No início de abril, veio a conquista das seis certidões negativas de débito. O próprio clube tratou o episódio como uma das principais metas cumpridas pela nova administração. A regularidade fiscal abriu caminho para negociações com estatais.

Pouco mais de um mês depois, o Flamengo oficializou o acordo com a Caixa Econômica Federal. O contrato previa R$ 25 milhões por um ano, e a negociação só foi possível depois da obtenção das certidões.

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A sequência ajuda a entender por que aquela primeira entrada financeira tinha um significado que ia muito além de seu valor nominal. O Flamengo não estava apenas tentando melhorar suas receitas. Antes disso, precisava recuperar condições mínimas para funcionar dentro de uma normalidade financeira.

O contrato com a Adidas foi aprovado em dezembro; a nova gestão encontrou um passivo fiscal expressivo; a primeira receita extraordinária foi apresentada por Bandeira como dinheiro imediatamente direcionado para a Fazenda; nos meses seguintes, o clube avançou na regularização tributária; e, em abril, conseguiu as certidões necessárias para finalmente negociar com empresas públicas.

A Caixa se tornou um dos símbolos dessa mudança. Em maio de 2013, a estatal passou a ocupar o espaço principal da camisa rubro-negra por R$ 25 milhões anuais, enquanto o contrato da Adidas, somado a outros acordos, ajudava a elevar o valor comercial do uniforme. Naquele momento, a própria diretoria calculava uma arrecadação potencial de R$ 73 milhões com a camisa.

O episódio também ajuda a colocar em perspectiva o discurso de recuperação financeira daquela gestão. Antes de comemorar grandes contratos, o Flamengo precisava lidar com um passivo que consumia receitas e limitava sua capacidade de negociação. A primeira grande parceria comercial da nova administração não significou, portanto, dinheiro livre para gastar. Para Bandeira, significou principalmente a oportunidade de começar a pagar uma conta que já estava vencida.

É essa imagem que permanece como uma das mais emblemáticas daquele início de gestão: enquanto a torcida enxergava na Adidas uma nova fonte de receitas e a possibilidade de um Flamengo mais competitivo, a realidade encontrada na Fazenda Nacional era outra. O dinheiro chegaria ao clube, mas, nas palavras de Bandeira, “não ia nem esquentar no caixa do Flamengo”. Antes de pensar em reforçar o time, era preciso mostrar que o Flamengo conseguiria pagar suas próprias dívidas.

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