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Adidas sobe, Nike cai e Flamengo mostra por que reputação virou ativo decisivo no futebol

Adidas sobe, Nike cai e Flamengo mostra por que reputação virou ativo decisivo no futebol

A Adidas chegou ao segundo lugar do Global RepTrak 100 de 2026 no mesmo momento em que a Nike caiu para a 50ª posição, em um ranking que mede reputação a partir de confiança, admiração, respeito, percepção de conduta, qualidade, inovação e conexão emocional. A mudança entre duas gigantes do material esportivo não pode ser lida apenas como uma briga de mercado. Ela ajuda a explicar uma transformação maior na relação entre marcas, clubes e consumidores, especialmente quando se olha para o Flamengo, que retomou sua parceria com a empresa alemã em 2013 e construiu, desde então, uma trajetória paralela de reconstrução financeira, fortalecimento institucional e reposicionamento comercial.


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O dado é forte porque mexe com uma memória recente do esporte. Durante décadas, a Nike foi vista como a marca que melhor traduzia inovação, agressividade comercial, cultura pop, performance e desejo. A Adidas, em muitos momentos, parecia correr atrás. Em 2026, o ranking de reputação mostra outra fotografia. A empresa alemã aparece logo atrás da LEGO, enquanto a rival americana perde espaço em um índice que não mede simplesmente quem vende mais, quem tem maior faturamento ou quem domina mais prateleiras. O RepTrak trabalha com percepção pública, e percepção, no mercado atual, virou moeda tão valiosa quanto contrato.

É nesse ponto que o tema conversa diretamente com o Flamengo. O clube passou por uma reconstrução profunda a partir de 2013, quando a Adidas voltou ao Manto Sagrado e o rubro-negro iniciou um processo de reorganização financeira, renegociação de dívidas, controle de gastos e profissionalização administrativa. Não foi uma virada instantânea. O Fla levou anos para transformar credibilidade em resultado esportivo, receita recorrente, poder de contratação e valorização de marca. A Adidas, em outro campo, fez movimento semelhante: reposicionou-se, recuperou confiança, reforçou vínculos culturais e voltou a ser percebida como marca relevante não apenas pelo produto, mas pelo que representa.

A coincidência temporal não prova relação direta de causa e efeito, mas revela sintonia de modelo. Flamengo e Adidas cresceram quando entenderam que reputação não se impõe de cima para baixo. Ela se constrói com consistência, presença, linguagem, identificação e entrega.

O ranking que mostra mais do que posição

O Global RepTrak 100 de 2026 não é uma tabela fria de empresas mais ricas. Ele mede reputação corporativa em dimensões que envolvem confiança, admiração, respeito e vínculos emocionais. A Adidas aparece em segundo lugar no ranking global, atrás apenas da LEGO, enquanto a Nike despenca para a 50ª posição. A leitura imediata poderia ser a de uma simples troca de posições entre concorrentes históricas, mas o movimento é mais profundo.

Dois anos antes, a Adidas estava fora do top 10. Em 2024, ocupava a 16ª posição; em 2025, subiu para 9ª; em 2026, chegou ao 2º lugar. A Nike, por sua vez, saiu da 21ª colocação em 2024, passou para 22ª em 2025 e caiu para 50ª em 2026. O contraste mostra que reputação não vive apenas de herança. Uma marca pode ter história, tamanho global, atletas, campanhas famosas e presença mundial, mas ainda assim perder admiração se o público começa a perceber queda de inovação, problemas de qualidade, distanciamento cultural ou ruído em sua conduta.

A Adidas avançou em indicadores ligados a conduta, ambiente de trabalho, cidadania e capacidade de se inserir em comunidades. Esse ponto é decisivo. A marca parece ter entendido melhor o espírito do tempo. Em vez de apenas vender produto, passou a operar com mais proximidade cultural, dialogando com grupos, clubes, movimentos e identidades já existentes. Ela não tenta necessariamente inventar uma narrativa artificial para cada lançamento. Quando acerta, entra em um universo simbólico e potencializa o que já está vivo ali.

A Nike enfrenta outro desafio. Sua queda não significa falência comercial, nem apagamento global. A empresa segue poderosa, presente e reconhecida. Mas há desgaste de imagem. Em um mercado mais fragmentado, com consumidores mais atentos, comunidades mais exigentes e marcas locais mais competitivas, não basta ser gigante. É preciso parecer relevante, próximo e confiável. Quando a reputação perde chão, o produto ainda pode vender, mas a marca começa a perder aura.

Flamengo e Adidas: uma parceria que ganhou outro sentido

A parceria entre Flamengo e Adidas, retomada em 2013, ganha nova leitura quando colocada dentro desse contexto. Naquele momento, o clube não era a potência financeira e esportiva que se consolidaria depois. O Flamengo vinha de anos de dificuldades administrativas, dívidas, receitas comprometidas, elencos irregulares e um mercado que via o rubro-negro mais pelo tamanho da torcida do que pela eficiência de gestão.

A Adidas voltou ao Flamengo no início dessa reconstrução. De 2013 a 2016, o clube reorganizou finanças, ganhou credibilidade e começou a reconstruir sua imagem institucional. De 2017 a 2019, a marca Flamengo se fortaleceu junto com a consolidação esportiva, culminando em títulos relevantes e em uma nova percepção de potência. De 2020 em diante, o rubro-negro ampliou receitas, expandiu presença digital, tornou-se mais global e passou a operar em outro patamar de mercado.

Nesse período, a camisa deixou de ser apenas uniforme. Virou objeto de pertencimento. O torcedor não compra somente tecido, escudo e listras. Compra memória, identidade, campanha, narrativa, momento histórico e sensação de participação. Quando uma coleção acerta, ela conversa com o estádio, com a rua, com a rede social, com a infância, com o orgulho familiar e com a estética do torcedor. A reputação da Adidas se materializa no Flamengo quando o Manto Sagrado deixa de ser um produto genérico e passa a carregar leitura cultural.

A Adidas também se tornou, considerando suas duas passagens, uma das parcerias mais longevas da história rubro-negra no fornecimento esportivo. Esse dado importa porque longevidade cria acervo, memória e comparação. O torcedor lembra da Adidas dos anos 80, da volta em 2013, dos mantos campeões, dos modelos criticados, das terceiras camisas, das coleções de treino, das releituras históricas e dos acertos recentes. A marca já faz parte da biblioteca visual do Flamengo.

A memória incômoda da Nike no Flamengo

A comparação com a Nike, no caso rubro-negro, não precisa ser injusta para ser crítica. A fornecedora americana também teve bons momentos no Flamengo, lançou camisas bonitas e marcou um período da história do clube. O problema é que a passagem deixou lembranças de distribuição ruim, dificuldade para encontrar produtos, preços altos e uma sensação de que o clube nem sempre recebeu tratamento à altura de sua grandeza histórica.

Um episódio emblemático foi um lançamento feito com Obina como modelo, em que parte do material de divulgação teria usado o muro da Gávea em estado ruim. A camisa podia até ser bonita, mas a escolha visual incomodou torcedores porque transmitia descuido. O clube, mesmo em anos de menor força esportiva e financeira, nunca deixou de ser Flamengo. Uma marca global deveria compreender esse tamanho simbólico.

Esse é o ponto mais sensível. Grandes fornecedores não vendem apenas camisa. Elas administram percepção. Quando tratam um clube gigante como peça secundária, o torcedor percebe. Quando não abastecem lojas, não escutam a comunidade, não constroem campanhas à altura e não entendem o afeto que cerca o produto, criam distância. A Nike foi, por muito tempo, referência mundial em marketing esportivo. Mas no Flamengo, em parte da lembrança rubro-negra, ficou a sensação de que faltou cuidado, presença e leitura local.

A Adidas, mesmo com erros e críticas ao longo dos anos, parece ter aprendido melhor a importância desse vínculo. O Flamengo exige escala, mas também exige particularidade. Não adianta aplicar uma campanha global de forma fria em cima do clube. O rubro-negro tem linguagem própria, história própria, torcida própria e uma relação quase religiosa com a camisa. Quem não entende isso vende menos do que poderia e se desgasta mais do que imagina.

Reputação não é só estética, é confiança acumulada

A reputação virou um ativo central porque o consumidor passou a desconfiar mais. Ele não olha apenas preço, design ou performance. Quer saber como a marca se posiciona, com quem se associa, o que entrega, se respeita a comunidade, se tem coerência entre discurso e prática. No esporte, isso ganha ainda mais força porque o produto está ligado a paixão. Ninguém compra uma camisa do Flamengo como compra uma peça qualquer de roupa. O torcedor veste história.

Esse é o erro de muitas empresas. Elas tentam fabricar conexão com campanhas bonitas, mas sem enraizamento real. Usam favela, povo, comunidade, periferia, rua, música e linguagem popular como cenário, mas nem sempre constroem relação verdadeira com esses universos. A Nike faz isso com frequência em campanhas da Seleção Brasileira, buscando símbolos do Brasil popular, da quebrada, da rua, da favela e do futebol de base. Às vezes acerta visualmente. Às vezes fica perto do estereótipo.

A Adidas também usa linguagem emocional, mas o avanço no ranking sugere que, globalmente, conseguiu ser percebida com mais estabilidade. Isso não significa pureza. Multinacional nenhuma opera sem contradições. O que o ranking mostra é percepção pública, não santidade corporativa. Ainda assim, percepção importa porque define confiança. E confiança, hoje, é parte do valor.

No futebol, essa lógica aparece em cada detalhe. O copo personalizado no estádio, a camisa especial, a campanha de lançamento, o vídeo com ídolos, a ação digital, a disponibilidade do produto, o preço, a qualidade do tecido, o respeito ao escudo, o cuidado com a história e a forma de dialogar com a torcida formam uma experiência. O produto deixou de ser apenas objeto. Virou ritual de pertencimento.

O caso BRB mostra o outro lado da reputação

A discussão sobre reputação também ajuda a entender o debate recente em torno do contrato entre Flamengo e BRB. O ponto mais sensível não foi apenas quanto o banco poderia pagar, mas o risco de associação da marca Flamengo a uma instituição pressionada por desgaste público ligado ao caso Banco Master. A prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, no âmbito da Operação Compliance Zero, ampliou o peso dessa discussão e colocou o tema reputacional no centro do debate rubro-negro.

Essa é uma mudança importante dentro do próprio Flamengo. Durante muito tempo, a pergunta principal em contratos de patrocínio era simples: quanto paga? Hoje, a pergunta precisa ser mais ampla: quanto paga, por quanto tempo, com qual risco, em que contexto, com qual reputação e com que impacto sobre a imagem do clube? Uma marca como o Flamengo não pode olhar apenas o dinheiro imediato. Precisa calcular o custo simbólico de cada associação.

O BRB tem relação antiga com o clube, presença em projetos rubro-negros e peso financeiro relevante. Isso não pode ser ignorado. Mas também não se pode fingir que reputação é detalhe. Se o Flamengo cobra profissionalismo de fornecedores, patrocinadores, dirigentes, parceiros e do próprio mercado, precisa aplicar o mesmo critério quando a relação envolve dinheiro alto. Nem todo contrato bom no curto prazo é bom para a marca no longo.

A Adidas aparece em sentido oposto nessa comparação. É uma parceira global, com reputação em alta, presença histórica no clube e conexão direta com o principal símbolo de consumo rubro-negro: o Manto Sagrado. A associação fortalece os dois lados quando há entrega. O Flamengo dá escala, paixão e audiência. A Adidas oferece produto, distribuição, identidade global e leitura cultural. Quando funciona, a parceria vira ativo para ambos.

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Flamengo precisa escolher parceiros pelo futuro, não só pelo cheque

O Flamengo está em um momento em que precisa pensar como potência global. Isso exige uma mudança de mentalidade. O clube não pode aceitar qualquer parceiro apenas porque o valor financeiro parece alto. Também não pode desprezar contratos relevantes por purismo ingênuo. A gestão moderna está justamente no equilíbrio entre receita, reputação, risco e estratégia.

A relação com a Adidas mostra como um parceiro pode ajudar a consolidar identidade quando há alinhamento de longo prazo. A eventual discussão com BRB mostra como um contrato pode gerar desconforto quando a reputação do parceiro entra em crise. A memória da Nike no clube lembra que uma marca gigante pode falhar quando não entende o tamanho simbólico do clube. Esses três exemplos ajudam a formar uma tese: no Flamengo, parceria comercial não é apenas negócio. É narrativa institucional.

Esse ponto é ainda mais relevante porque o Flamengo deixou de depender de uma única fonte de receita. O clube cresceu em bilheteria, sócio-torcedor, patrocínios, licenciamento, premiações, vendas de atletas, ações digitais e potencial de internacionalização. Quanto mais diversificada a receita, mais o Fla pode escolher. E quanto mais pode escolher, maior é sua responsabilidade.

Escolher parceiro ruim por dinheiro imediato é pensamento pequeno. Escolher parceiro forte, coerente e alinhado ao projeto de marca é pensamento de potência.

Adidas e Flamengo entenderam o valor da comunidade

O que une a ascensão da Adidas no ranking de reputação e a reconstrução do Flamengo é a força da comunidade. A Adidas cresceu ao se inserir melhor em contextos culturais, dialogar com públicos diversos e fortalecer vínculos emocionais. O Flamengo se reconstruiu porque transformou uma torcida gigantesca em base de valor mais organizada, mais monetizada e mais respeitada pelo mercado.

Isso não significa que tudo seja perfeito. A Adidas ainda erra em preço, disponibilidade, design e leitura de algumas coleções. O Flamengo ainda tem desafios de atendimento, experiência do torcedor, estádio, comunicação e governança. Mas a direção geral é clara. A marca que ouve, respeita e se aproxima cria reputação. A marca que trata público como massa passiva perde conexão.

No caso rubro-negro, a comunidade é maior do que qualquer campanha. A Nação valida ou rejeita produto em velocidade impressionante. Uma camisa boa viraliza. Uma camisa ruim vira meme. Um lançamento bem feito vira celebração. Um erro de escudo, cor, patch, gola ou distribuição vira cobrança pública. A reputação se forma nesse diálogo permanente, e não apenas no contrato assinado em sala fechada.

É por isso que a posição da Adidas no ranking importa para o Flamengo. Ela mostra que o parceiro principal do Manto está em bom momento de percepção global. Isso ajuda, mas também aumenta a cobrança. Se a Adidas é a marca esportiva mais bem reputada do mundo no ranking de 2026, precisa tratar o Flamengo como um dos seus principais ativos culturais fora da Europa. E se o Flamengo quer ser potência internacional, precisa exigir esse tratamento.

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A lição para o Flamengo

O ranking da RepTrak não deve ser lido como troféu para a Adidas nem como sentença definitiva contra a Nike. Ele é uma fotografia de reputação em um mundo no qual valor passou a depender de confiança, coerência e pertencimento. A Nike segue gigante, mas enfrenta desgaste. A Adidas cresce porque parece ter recuperado conexão. O Flamengo entra nessa história porque sua própria reconstrução mostra que reputação não nasce de discurso. Nasce de consistência.

A crítica mais importante, portanto, não é contra uma marca específica. É contra a visão antiga de que contrato esportivo se resume a dinheiro e camisa. No futebol de hoje, fornecedor é parceiro de identidade. Patrocinador é extensão da marca. Campanha é posicionamento público. Produto é experiência. E reputação, quando perdida, custa mais caro do que qualquer reajuste contratual.

O Flamengo aprendeu isso pela dor. Reorganizou finanças, reconstruiu credibilidade, voltou a vencer, ampliou receitas e se tornou mais exigente. Agora precisa manter o mesmo padrão na escolha de quem caminha ao seu lado. Adidas, BRB, Betano ou qualquer outro parceiro precisam ser analisados não apenas pelo que pagam, mas pelo que agregam ou comprometem na imagem do clube.

O futuro do Flamengo será disputado também nesse campo. Não basta ser grande. É preciso parecer confiável, moderno, coerente e desejável. A Adidas, no ranking global, mostrou que reputação pode virar vantagem competitiva. A Nike, ao cair, lembrou que nenhuma marca é intocável. O Fla, no meio dessa leitura, precisa entender que seu maior patrimônio não está apenas na camisa que vende, mas na confiança que a Nação deposita no escudo que veste.

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