Bap anuncia bustos de Arrascaeta e Bruno Henrique, explica Maracanã, Ninho, empresários e contratações no Flamengo

Bap anuncia bustos de Arrascaeta e Bruno Henrique, explica Maracanã, Ninho, empresários e contratações no Flamengo
Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Luiz Eduardo Baptista aproveitou o domingo (26) de Flamengo x São Paulo, no Maracanã, para fazer mais do que anunciar homenagens a Arrascaeta e Bruno Henrique. O presidente rubro-negro usou a ocasião, antes da partida válida pelo Campeonato Brasileiro, para falar sobre memória, estádio, CT, Copa do Mundo Feminina, receitas, empresários, contratações e planejamento financeiro. O pronunciamento, cercado inicialmente por expectativa de notícia sobre reforço ou obra de maior impacto, acabou funcionando como uma prestação de contas pública sobre temas que atravessam o Flamengo de 2026 e ajudam a medir o tamanho da responsabilidade de administrar um clube que já não cabe apenas dentro das quatro linhas.


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O anúncio principal foi simbólico. Arrascaeta e Bruno Henrique terão bustos na Gávea, com previsão de inauguração em 15 de novembro de 2026, aniversário do Flamengo. A homenagem coloca os dois ao lado de nomes eternizados na sede social e amplia um espaço de reverência que, até então, tinha relação direta com os campeões mundiais de 1981. É uma decisão forte, porque reconhece em vida e em atividade dois personagens centrais da geração mais vitoriosa do clube neste século.

Arrascaeta chegou em janeiro de 2019 e construiu uma trajetória que já o coloca como o maior estrangeiro da história rubro-negra. São 377 jogos, 244 vitórias, 78 empates, 55 derrotas, 105 gols e 111 assistências, com aproveitamento de 71,6%. Além disso, é o estrangeiro com mais partidas e gols pelo Flamengo. Bruno Henrique, por sua vez, soma 374 jogos, 230 vitórias, 80 empates, 64 derrotas, 118 gols e 60 assistências. Juntos, os dois dividiram o gramado em 233 partidas, com 144 vitórias, 52 empates e 37 derrotas, participando diretamente de 394 gols, entre 223 bolas na rede e 171 passes decisivos.

Homenagem justa, debate histórico necessário

A escolha dos bustos é defensável. Arrascaeta e Bruno Henrique simbolizam a virada de patamar do Flamengo a partir de 2019. Foram decisivos em Libertadores, Brasileiros, Copas do Brasil, Supercopas e Recopa. O uruguaio, inclusive, viveu em 2025 uma das temporadas mais produtivas de sua carreira, com 25 gols e 20 assistências em 64 jogos, desempenho que lhe rendeu prêmios individuais relevantes, como Rei da América, Bola de Ouro da ESPN e Troféu Mesa Redonda.

Ainda assim, a homenagem não elimina a necessidade de precisão histórica. A divulgação sobre os jogadores mais vitoriosos do Flamengo já havia sido contestada por Roberto Assaf, lembrando nomes como Zico e Júnior. Bap tentou contornar o ponto ao falar do peso das conquistas, mas esse tipo de debate exige cuidado. O Flamengo é grande demais para tratar sua memória com atalhos. Honrar Arrascaeta e Bruno Henrique não precisa diminuir outras eras, nem forçar rankings absolutos que podem gerar distorções. A grandeza dos dois se sustenta por si só.

O Maracanã 360 e o limite imposto pelas autoridades

Depois da homenagem, o presidente tratou de mudanças no Maracanã. Há um novo corredor de acesso exclusivo para atletas do Flamengo, a previsão de um restaurante na parte alta do setor leste, com vista para o campo, e a possibilidade de uma área permanente de fanzone no estádio. Bap também citou investimentos no gramado, com máquinas holandesas para cuidado contínuo da grama, além de biometria facial, cadeiras cativas, patrocinadores nos vomitórios, museu do Maracanã antes da Copa do Mundo de 2027 e maior ativação do complexo com a gestão do Maracanãzinho.

A ideia do “Maracanã 360” é transformar o estádio em algo maior do que um palco usado em dias de jogo. Esse conceito faz sentido comercialmente. O Maracanã não pode ser apenas bilheteria, catraca e noventa minutos. Precisa gerar experiência, permanência, consumo e receita durante mais dias do ano. O Flamengo entendeu que, enquanto seu estádio próprio não sai do papel, precisa explorar melhor o ativo que administra em parceria com o Fluminense.

O ponto frustrante ficou na retirada das cadeiras dos setores Norte e Sul. Segundo Bap, o Flamengo tentou levar o projeto adiante, mas as demandas oficiais das autoridades competentes não justificariam a autorização para a mudança. Hoje, na configuração atual, o limite operacional estaria em torno de 71 mil pessoas, embora a capacidade seja de 78 mil. Na prática, o clube joga fora cerca de 7 mil lugares por jogo. A explicação oficial ajuda, mas ainda deixa espaço para detalhamento. A torcida precisa saber quais órgãos barram a alteração, quais exigências estão na mesa e se existe caminho técnico, jurídico ou político para destravar o tema no futuro.

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Ninho, Fifa e a casa que o Flamengo não quis entregar

Outro ponto importante foi a recusa do Flamengo em ceder o Ninho do Urubu para a Copa do Mundo Feminina de 2027. Bap afirmou que a decisão não tem relação direta com intertemporada ou viagem ao exterior. O argumento central foi outro: o CT está cada vez mais ocupado pelas atividades do clube. As categorias de base foram trazidas para dentro da estrutura, o miniestádio deve ficar pronto até meados de 2027, e a Gávea tem limitação de capacidade, com arquibancada condenada e uso restrito.

A posição faz sentido. Quando a Fifa utiliza uma estrutura para evento internacional, não se trata apenas de emprestar um campo por algumas horas. Há exigências operacionais, exclusividade, adaptação, logística e controle. O Flamengo teria que deslocar parte relevante da própria rotina para atender uma competição episódica. Em um clube que investe no CT como centro de sua operação esportiva, sair da própria casa para acomodar terceiros não parece uma escolha simples, principalmente se o retorno financeiro não compensar o custo institucional.

Bap também criticou a paralisação do futebol masculino durante a Copa do Mundo Feminina. Segundo ele, o clube passou recentemente mais de 70 dias sem receitas relevantes, enquanto continuou pagando salários, direitos de imagem, encargos e obrigações. A fala tem um ponto econômico evidente: calendário parado derruba bilheteria, reduz consumo ligado a jogos e pode afetar até programas de sócio-torcedor. A Fifa busca atenção exclusiva para o torneio feminino, mas os clubes brasileiros pagam parte dessa conta em um calendário já espremido.

Empresários, comissões e a narrativa do calote

A coletiva esquentou quando o assunto virou comissão de empresários. Bap negou que o Flamengo tenha dado calote ou deixado de cumprir acordo. Disse que houve comunicação prévia, que pagamentos de julho e agosto seriam empurrados para frente, que a normalização ocorreria até o fim do ano e que algumas luvas de dezembro poderiam passar para janeiro, conforme o escalonamento de cada caso. Segundo ele, o impacto foi menor do que parte da mídia apresentou.

O trecho mais forte veio ao explicar a origem de uma reclamação específica. O presidente afirmou que o Flamengo decidiu espontaneamente aumentar o salário de um atleta, sem mexer no contrato e sem negociação conduzida pelo agente. Mesmo assim, o empresário teria cobrado comissão sobre o reajuste. Bap resumiu a indignação em uma lógica simples: se não houve trabalho do intermediário, nem alteração contratual, por que o clube deveria pagar comissão sobre um aumento concedido por iniciativa própria?

A resposta desloca o debate. Se houve acordo com empresários para reprogramar pagamentos, a palavra “calote” perde força e precisa ser usada com mais cautela. Se, ao contrário, algum agente não aceitou a repactuação, há caminhos institucionais, como CNRD ou Justiça comum, para cobrança. O que não dá é transformar uma disputa específica em campanha pública para pintar o Flamengo como mau pagador sem detalhar contrato, vencimento, aceite, notificação e obrigação exata. Clube profissional deve pagar o que deve, mas empresário também precisa explicar o que cobrou e qual serviço prestou.

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Paquetá, Almada e o custo real de contratar em alto nível

Bap também usou a questão financeira para responder à contradição que cerca o noticiário do Flamengo. De um lado, há quem diga que o clube estaria sem dinheiro até para pagar comissão. Do outro, surgem informações sobre uma possível investida por Thiago Almada. O presidente ironizou a incoerência: ou o Flamengo está quebrado, ou está discutindo uma operação gigantesca. As duas narrativas, ao mesmo tempo, não fecham.

O dirigente explicou que a chegada de Lucas Paquetá foi antecipada em relação ao planejamento inicial. A ideia era trazer o jogador na janela do meio do ano, mas a oportunidade apareceu antes. A operação, segundo Bap, envolveu valores muito superiores ao número de manchete, porque além do custo em euros há impostos, luvas e outros compromissos. Ele mencionou que, quando se fala em 40 milhões de euros e cerca de 18 milhões em tributos, a conta real fica muito mais pesada, com metade do montante sendo desembolsada de imediato.

Essa explicação é relevante porque o torcedor costuma olhar contratação pelo valor de compra, mas a operação completa inclui salário por anos, encargos, luvas, intermediários e fluxo de caixa. O Flamengo tem faturamento alto e dívida proporcionalmente controlada, mas parte relevante da receita depende de premiações, vendas e desempenho esportivo. Quando o clube toma decisão em julho ou agosto, ainda não sabe o que receberá em novembro e dezembro. A prudência, nesse caso, não é falta de ambição. É gestão de risco.

Bap afirmou que o Flamengo pode fazer “um pouco mais de estripolia”, mas deixou claro que o limite está no pior cenário: se tudo der errado esportivamente, o clube precisa continuar honrando compromissos. Essa frase resume o ponto central da entrevista. O Flamengo pode e deve pensar grande, mas não pode voltar ao tempo em que desejo era tratado como orçamento. A diferença entre potência e irresponsabilidade está justamente nessa linha fina que separa investimento de aventura.

Ao fim da fala, ainda houve um episódio constrangedor nos bastidores, com alguém aparentemente reclamando que Bap teria falado demais. A crítica não se sustenta. O presidente de um clube como o Flamengo precisa falar, explicar, detalhar e prestar contas. Pode ser cobrado pelo que diz, questionado pelo que omite e criticado pelas escolhas que faz, mas silêncio não é virtude administrativa. Em um clube gigante, a comunicação não é enfeite. É parte da governança.

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