Flamengo peita empresários, adia comissões e expõe debate sobre calote, abuso e fair play financeiro

Flamengo peita empresários, adia comissões e expõe debate sobre calote, abuso e fair play financeiro
Imagem: Reprodução / FlamengoTV

O Flamengo voltou ao centro de uma discussão sensível nos bastidores do futebol ao confirmar que busca renegociar pagamentos de comissões a empresários previstos para 2026. A medida, revelada após entrevista de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, ao canal de Venê Casagrande e depois detalhada em reportagem do ge, provocou reação da Associação Brasileira dos Agentes de Futebol, que levou o caso à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a ANRESF, para tentar incluir os agentes no escopo do fair play financeiro da CBF. O episódio expõe uma tensão antiga entre clubes e intermediários, mas ganha peso maior porque envolve o Flamengo, reconhecido como o principal pagador do mercado nacional e, ao mesmo tempo, um clube que tenta revisar contratos considerados excessivos pela atual gestão.


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A primeira camada do debate é contratual. Bap admitiu que o Flamengo tem renegociado pagamentos de comissões a empresários, afirmando que algumas condições aceitas anteriormente não parecem razoáveis para a nova diretoria. Na entrevista, o presidente rubro-negro foi direto ao dizer que “quem não está satisfeito não faz negócio com o Flamengo”, frase dura, mas reveladora da estratégia política e financeira do clube. O argumento central é que o Flamengo paga, tem credibilidade na praça e, por isso, pode disputar não apenas milhões, mas também o “cafezinho”, sempre que entender que há direito ou margem para rediscutir obrigações assumidas.

Calote, pedalada ou renegociação forçada?

A palavra “calote” entrou no debate porque, do ponto de vista mais simples, deixar de pagar uma obrigação contratual no prazo tem esse nome no imaginário popular. O advogado Walter Monteiro, sócio do Flamengo e ex-candidato à presidência do clube, tratou a questão com objetividade: se existe um contrato válido e o pagamento não é feito na data combinada, é possível chamar a conduta de calote ou, em linguagem política recente, de “pedalada”, já que o clube não estaria negando o pagamento, mas adiando a quitação.

Essa leitura, porém, não encerra o assunto. Ela abre a porta para a pergunta mais incômoda: qual é o limite razoável de uma comissão no futebol? Walter compara a atividade dos empresários a outras formas de intermediação, como corretores de imóveis, vendedores de carros usados, corretores de seguros ou leiloeiros, que costumam trabalhar em patamares mais previsíveis, algo entre 4% e 8% de uma operação. No futebol, segundo dados citados do balanço do Flamengo, em 18 negociações entre 2022 e 2024, apenas quatro ficaram abaixo de 10%, com média aritmética de 18,63% e casos acima de 20%, incluindo uma comissão de 26,5% do negócio.

É aí que a discussão deixa de ser apenas jurídica e vira política de futebol. Um clube deve honrar contratos assinados? Sim. Essa é a base mínima de segurança em qualquer relação comercial. Mas também é legítimo perguntar como essas condições foram aceitas, quem validou percentuais tão elevados, qual era o interesse esportivo por trás de cada operação e por que o mercado naturalizou intermediários recebendo fatias que, em alguns casos, se aproximam de um quarto do valor de uma transação. O Flamengo pode estar adotando um método antipático, mas o incômodo provocado pela medida não elimina a necessidade de olhar para o tamanho da conta.

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A reação dos agentes e o caminho escolhido

A Associação Brasileira dos Agentes de Futebol enviou ofício à ANRESF pedindo a inclusão dos empresários no sistema de sustentabilidade financeira da CBF. O documento, assinado por 41 agentes, cita atrasos em pagamentos de comissões e argumenta que a gravidade do episódio aumenta justamente porque o Flamengo é visto como o clube em melhor situação financeira do país. Na visão da entidade, se a agremiação mais solvente suspende unilateralmente obrigações já pactuadas, o risco sistêmico para equipes em condição financeira mais frágil seria ainda maior.

O Flamengo, segundo reportagem, enviou uma série de e-mails a empresários alegando ter identificado a necessidade de renegociar e reprogramar pagamentos relacionados a comissões pactuadas até o fim de 2026. Em outra mensagem, o clube afirmou que valores pendentes de 2026 seriam postergados para 2027, sem apresentar novo cronograma. A diretoria também estabeleceu a prática de pagar 7% da transação como comissão, teto criado pela gestão Bap para novos negócios.

Há, entretanto, uma contradição relevante no movimento dos agentes. Hoje, diante de inadimplência, eles podem recorrer ao CNRD da CBF ou à Justiça comum. Até onde a análise apresentada indica, não foi esse o caminho escolhido. Em vez de executar contratos diretamente contra um clube solvente, os representantes buscaram pressão institucional via fair play financeiro. Essa decisão chama atenção porque, se os contratos são válidos, poderiam gerar cobrança judicial com multa, correção e juros moratórios. A pergunta de Walter Monteiro, citada no debate, é simples e forte: por que não executam, em vez de pressionar por mudança nas regras da CBF?

A resposta mais provável está no próprio mercado. Empresário não quer fechar porta com o Flamengo. Rafael Marques, jornalista da ESPN, resumiu o mecanismo durante conversa no Terraflamistas: nenhum agente inteligente rompe com o principal pagador do futebol brasileiro. O intermediário tende a vazar informação, alimentar bastidor, produzir desgaste, fazer a notícia chegar ao torcedor e pressionar dirigente pela retaguarda, mas evita se expor frontalmente contra quem continuará contratando, vendendo, comprando e movimentando dinheiro.

O caso Gerson e o tamanho das comissões

O exemplo de Gerson ajuda a mostrar por que a diretoria quer rediscutir contratos. A recompra do jogador junto ao Olympique de Marselha foi uma das negociações abaixo de 10% inicialmente porque havia um acordo para pagar parte da comissão em uma venda futura. Esse valor adicional seria de R$ 15,4 milhões. Como o Flamengo já teria pago quase R$ 5 milhões de comissão na operação de retorno, a conta poderia se aproximar de R$ 20 milhões apenas em intermediações relacionadas a um negócio total que giraria em torno de R$ 89 milhões, chegando perto de R$ 105 milhões quando somada a comissão futura.

Mesmo aceitando que contrato assinado deve ser cumprido, é difícil tratar esse tipo de percentual como normal. O futebol brasileiro vive reclamando de falta de dinheiro, calendário apertado, endividamento, gramados ruins, base precarizada e estrutura insuficiente, mas convive com comissões milionárias que, muitas vezes, são tratadas como custo inevitável. A discussão aberta pelo Flamengo incomoda porque toca em um ponto que raramente aparece no debate público com números concretos: quanto do dinheiro de uma contratação ou venda termina fora do campo, longe do atleta, distante do clube e nas mãos de intermediários?

Bap também contextualiza a medida dentro de um momento de cautela financeira. A reportagem lembra que o Flamengo já havia adiado pagamentos de comissões no início do mandato, quando buscava reforçar o fluxo de caixa, e agora volta ao tema em meio a uma janela em que o clube não teria tanto poder de compra para buscar reforços. A própria diretoria reconhece que o autoinvestimento na contratação de Paquetá, com custo total de R$ 315 milhões e cerca de R$ 155 milhões à vista, exige prudência nos próximos movimentos.

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O risco do método e a necessidade do debate

A crítica ao mercado de empresários não pode servir como cheque em branco para o Flamengo descumprir acordos. Se o clube assinou contratos válidos, deve pagar ou negociar de forma clara, documentada e consensual. O argumento de que algumas comissões parecem abusivas não apaga a responsabilidade de quem aceitou aquelas condições em nome da instituição. Também não resolve o problema empurrar valores para 2027 sem cronograma, porque isso cria insegurança, contamina relações futuras e oferece munição para adversários políticos e comerciais.

Ao mesmo tempo, tratar o caso apenas como “Flamengo caloteiro” é reduzir uma discussão estrutural a manchete conveniente. Há indícios de que o clube está tentando forçar um realinhamento do mercado, estabelecer teto de comissão e provocar a CBF a regulamentar uma área que historicamente opera com enorme margem de negociação, baixa transparência e poder concentrado nas mãos de poucos agentes. Quando os empresários procuram o fair play financeiro, talvez acabem abrindo a porta para aquilo que parte deles não deseja: uma regra mais objetiva sobre quanto podem receber em operações envolvendo clubes brasileiros.

A melhor saída para o futebol brasileiro não é fingir que contratos não existem, nem aceitar qualquer percentual em nome da liberdade de mercado. O ponto de equilíbrio precisa passar por governança, transparência, tetos razoáveis, aprovação interna rigorosa e responsabilização de dirigentes que assinam acordos ruins para os clubes. Se a CBF pretende criar um sistema sério de sustentabilidade financeira, agentes também devem fazer parte do debate, mas não apenas como credores protegidos por punições esportivas. Eles precisam ser incluídos como atores regulados, com limites, deveres e fiscalização proporcional ao poder que exercem.

No fim, o Flamengo entrou em uma briga feia, impopular e juridicamente arriscada, mas necessária para expor uma engrenagem que o futebol costuma esconder. O clube pode estar errado no método se simplesmente posterga pagamentos já contratados sem acordo formal. Os empresários também não estão em posição confortável para posar de vítimas quando o próprio debate revela comissões de 18%, 20% ou 26,5% em operações recentes. Entre o calote e o abuso, existe uma zona cinzenta que precisa ser iluminada. E talvez o maior mérito desse episódio seja justamente obrigar o futebol brasileiro a discutir, sem hipocrisia, quem ganha, quanto ganha e por que ganha tanto nas negociações que os clubes dizem não ter dinheiro para bancar.

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