Jornalista palmeirense detona GE TV por post zoando o Palmeiras na Copa do Mundo

A GE TV, projeto criado pelo Grupo Globo para disputar audiência no ambiente digital com uma linguagem mais leve, descontraída e próxima do modelo popularizado pela CazéTV, entrou em crise pública depois de uma postagem que brincava com a ausência de título mundial do Palmeiras. O post, feito após a Argentina ficar com o vice mundial, usava a imagem de Flaco López, jogador palmeirense e argentino, para ligar a derrota da seleção ao velho bordão “Palmeiras não tem Mundial”. A publicação foi apagada, mas a repercussão cresceu quando Luana Maluf, jornalista torcedora do clube paulista e integrante da própria GE TV, publicou uma manifestação de repúdio ao conteúdo produzido pela empresa em que trabalha.
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O episódio não se resume a uma brincadeira mal recebida por torcedores. Ele expõe uma contradição mais profunda da comunicação esportiva atual: veículos tradicionais querem a audiência, o ritmo e a informalidade das plataformas de entretenimento, mas ainda tentam preservar a blindagem simbólica do jornalismo convencional quando a piada bate no clube errado. A GE TV foi construída justamente para rivalizar com a CazéTV em eventos ao vivo, redes sociais, YouTube e linguagem mais solta, buscando um formato menos engessado que o Globo Esporte, o SporTV e outros produtos tradicionais da Globo.
A piada que virou crise interna
O post sobre o Palmeiras irritou torcedores, o que era previsível. Nenhum clube gosta de ser alvo de zoeira institucional, ainda mais quando o tema já faz parte de uma provocação histórica. O ponto, no entanto, é que esse tipo de brincadeira faz parte do pacote quando uma empresa decide se posicionar como canal de entretenimento esportivo. CazéTV, TNT Sports, Desimpedidos e outros projetos digitais trabalham nesse território há anos, misturando transmissão, humor, bastidor, meme e opinião. A GE TV entrou nesse jogo sabendo qual era a regra de consumo.
O curioso foi a reação de dentro. Luana Maluf escreveu que, para quem trabalha seriamente com futebol e respeita todos os clubes, a publicação foi uma enorme decepção. Disse ainda que as reclamações foram feitas internamente de forma imediata e categórica, como deveria acontecer em uma grande empresa. Segundo ela, a GE TV não seria uma página de humor, de torcedores ou de “gracinhas de boteco”, mas uma página com rosto, representada por jornalistas, comunicadores e profissionais que se dedicam a uma cobertura séria.
Há uma parte correta nessa defesa. Nenhum jornalista da empresa deve ser atacado pessoalmente por uma publicação feita pelo social media do veículo. Cobrar um repórter por um post institucional que ele não escreveu é estupidez, injustiça e covardia digital. A crítica deve mirar a linha editorial, a direção de conteúdo, a estratégia de comunicação e quem aprovou ou executou aquela peça específica. O problema é que a reação pública da jornalista não apenas repudiou o post: ela expôs a própria empresa, tensionou a equipe interna e colocou no centro do debate a suspeita de que o incômodo nasce mais da paixão clubística do que de um princípio editorial aplicado a todos.
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A régua vale para todos?
A pergunta inevitável é simples: a mesma revolta aconteceria se a brincadeira fosse com outro clube? Se a GE TV fizesse um post sobre “cheirinho” envolvendo o Flamengo, uma piada com o Corinthians, uma provocação ao São Paulo, uma cutucada no Vasco ou uma zoeira com a Argentina, haveria o mesmo grau de indignação pública?
Esse é o ponto central. Ter clube não é crime profissional. Todo mundo tem história, preferência, memória, família, bairro, arquibancada e afeto. O jornalista esportivo não precisa fingir que nasceu em laboratório. O problema começa quando a paixão determina a régua da indignação. Se a zoeira contra adversários é aceitável, mas a brincadeira contra o próprio clube vira ameaça ao jornalismo sério, a discussão deixa de ser ética e passa a ser clubística. E, nesse caso, não se trata de defender seriedade; trata-se de proteger a própria camisa.
A situação fica ainda mais delicada porque profissionais ligados a uma empresa também carregam a marca do veículo, mesmo em seus perfis pessoais. Fred Bruno já fez brincadeiras nas redes e no Globo Esporte após vitória do Palmeiras sobre o Flamengo. O argumento de que “foi ele, não a empresa” tem limite, porque comunicadores públicos representam, em algum grau, o lugar onde trabalham, principalmente quando atuam em projetos construídos justamente na fronteira entre jornalismo e entretenimento.
O conflito entre empresa e profissional
Isso acontece porque, no ambiente digital, é cada vez mais difícil separar completamente o profissional do veículo. O jornalista tem opinião, mas também carrega vínculo, credencial, alcance e responsabilidade.
Por isso, a publicação de Luana Maluf abre outra camada de discussão. Ela tinha direito de se manifestar? Sim. Mas foi profissional transformar uma discordância interna em story público, em meio à pressão da torcida do clube que ela acompanha e pelo qual é identificada? Essa é a dúvida. Ao fazer isso, ela não apenas se afastou da linha editorial que a GE TV parecia buscar, mas também colocou luz sobre o elo mais fraco da cadeia: o social media que, provavelmente, seguiu uma orientação de tom, linguagem e posicionamento da própria empresa.
A GE TV, por sua vez, também precisa decidir o que quer ser. Se é jornalismo esportivo tradicional, não pode brincar de CazéTV quando convém. Se é entretenimento com cobertura esportiva, precisa assumir que humor inclui risco, reclamação e torcedor irritado. O que não funciona é vender informalidade para atrair público jovem, usar meme para gerar engajamento, entrar no território da zoeira e recuar quando a piada atinge um clube com força política, torcida ruidosa ou profissionais influentes dentro do próprio projeto.
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A comparação com a CazéTV não é detalhe. Ela é o centro da história. A GE TV nasceu como resposta a uma mudança no consumo esportivo, em que transmissões menos formais, comunicadores com linguagem de internet e conteúdos de bastidor passaram a disputar espaço com modelos tradicionais. Só que a CazéTV não é apenas jornalismo. É entretenimento, comunidade, improviso, zoeira, bordão, exagero e conversa de arquibancada. Ao tentar replicar parte desse espírito, a Globo se aproxima de um público que não quer uma cobertura engomada, mas também entra em um campo onde piadas com clubes fazem parte do jogo.
Se a GE TV apagou o post e aceitou a lógica de que a brincadeira foi inadequada, criou um precedente para si mesma. A partir daí, qualquer zoeira contra Flamengo, Corinthians, Vasco, Botafogo, São Paulo, Atlético-MG ou qualquer outro clube poderá ser cobrada com a mesma régua. Se o canal agora se apresenta como extremamente sério e jornalístico, não há motivo para fazer graça com ninguém.
A crise mostra que o futebol brasileiro vive um momento confuso na mídia. Jornalistas querem liberdade de torcedor quando opinam, proteção institucional quando são cobrados, audiência de entretenimento quando publicam e autoridade jornalística quando a piada dá errado. Empresas querem viralizar como páginas de humor, mas não querem arcar com o ruído que o humor provoca. No meio disso, a credibilidade sofre não por causa de uma brincadeira sobre Mundial, mas pela incapacidade de manter coerência. A GE TV pode ser séria ou pode ser irreverente. Pode até tentar ser as duas coisas. Mas, se a régua muda conforme o clube atingido, o público percebe que o problema não é a piada. É quem virou alvo dela.
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