A prestação de contas do primeiro semestre realizada na sede da Gávea não ficou restrita aos números do futebol profissional. Em uma das apresentações mais longas da noite, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, dedicou parte significativa de sua exposição aos esportes olímpicos, ao futebol feminino e aos impactos que as mudanças tributárias discutidas em Brasília podem provocar no futuro do Flamengo. O dirigente apresentou projeções financeiras, detalhou déficits por modalidade e explicou a mobilização nacional liderada pelo clube para evitar um aumento expressivo da carga tributária dos clubes associativos.
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Segundo Bap, a discussão ultrapassa os limites da contabilidade. Na avaliação do presidente, trata-se de uma disputa que envolve o modelo esportivo brasileiro, a sobrevivência das modalidades olímpicas e a capacidade dos grandes clubes formadores continuarem investindo na base e na formação de atletas.
Ao longo da apresentação, o dirigente procurou demonstrar que o Flamengo não atua apenas como uma potência do futebol. Ele destacou que o clube mantém uma das maiores estruturas poliesportivas do país e que boa parte desse investimento é sustentada diretamente pelos recursos gerados pelo futebol profissional.
A batalha tributária que mobilizou o Flamengo
O ponto de partida da exposição foi uma alteração tributária ocorrida no final de 2025.
Segundo Bap, durante a discussão da reforma tributária, o Governo Federal promoveu mudanças que acabaram atingindo os clubes associativos sem fins lucrativos. Enquanto as SAFs mantiveram uma tributação reduzida próxima de 5%, os clubes sociais poderiam passar a enfrentar uma carga tributária significativamente superior.
Na avaliação do presidente rubro-negro, o problema não estava apenas na elevação dos impostos, mas na diferença de tratamento entre modelos que possuem responsabilidades distintas dentro do esporte brasileiro.
Bap argumentou que clubes associativos mantêm investimentos permanentes em modalidades olímpicas, categorias de base, programas de formação e projetos esportivos que não geram retorno financeiro direto. Já uma SAF pode concentrar seus recursos exclusivamente no futebol profissional, sem a obrigação de sustentar outras modalidades. Diante desse cenário, o Flamengo decidiu assumir protagonismo nas articulações políticas e institucionais para tentar reverter a situação.
O impacto de R$ 746 milhões
Durante a apresentação, um dos números que mais chamou atenção foi a projeção financeira elaborada pelo clube. Segundo os estudos apresentados, caso nenhuma alteração legislativa fosse realizada, o Flamengo poderia sofrer um impacto tributário acumulado de aproximadamente R$ 746 milhões entre 2026 e 2033.
A projeção exibida durante a reunião mostrou que, no cenário associativo, o volume de tributos poderia alcançar R$ 746 milhões até o fim do período analisado. No modelo SAF, por outro lado, a estimativa apresentada foi de aproximadamente R$ 225 milhões.
A diferença superior a meio bilhão de reais foi utilizada por Bap para defender a necessidade de uma correção legislativa que preserve a competitividade dos clubes associativos. Segundo ele, essa distorção poderia gerar incentivos econômicos para que instituições tradicionais abandonassem seus modelos históricos em busca de regimes tributários mais vantajosos.
O dirigente afirmou que o Flamengo não pretende seguir esse caminho, mas ressaltou que o clube precisa se proteger para evitar perdas que comprometam investimentos esportivos realizados há décadas.
Flamengo lidera movimento nacional
A reação do clube ocorreu em diversas frentes. Bap explicou que o Flamengo passou a atuar em conjunto com a Confederação Brasileira de Clubes (CBC) e com a Federação Nacional dos Clubes (Fenaclubes), buscando apoio político para corrigir a legislação.
Segundo o presidente, a mobilização já produziu resultados relevantes. O Congresso Nacional aprovou uma emenda corretiva restabelecendo a alíquota de 5% para os clubes associativos. Ainda assim, o processo legislativo não está concluído e depende de novas etapas no Senado e da análise dos vetos presidenciais.
O dirigente também anunciou um avanço considerado estratégico pelo clube. De acordo com ele, o movimento conseguiu reunir as 171 assinaturas necessárias para protocolar uma Proposta de Emenda à Constituição voltada à criação de imunidade tributária para clubes sociais sem fins lucrativos.
A diferença entre os conceitos foi explicada durante a apresentação. Enquanto a isenção pode ser revogada por decisão governamental, a imunidade tributária possui proteção constitucional, oferecendo maior segurança jurídica para instituições esportivas formadoras.
O peso dos esportes olímpicos
Ao defender a necessidade dessa proteção fiscal, Bap apresentou números que ajudam a dimensionar o investimento realizado pelo Flamengo fora do futebol profissional. Segundo os dados exibidos na reunião, o clube destina mais de R$ 50 milhões anuais de recursos próprios para complementar o financiamento dos esportes olímpicos.
Além dos recursos próprios, o Flamengo também utiliza verbas incentivadas e programas de parceria para sustentar suas atividades. Um dos exemplos citados foi o Programa Fla-Anjo, que atualmente responde por aproximadamente R$ 13 milhões em recursos destinados às modalidades olímpicas, sendo cerca de 80% provenientes de não sócios. Também foram destacados aproximadamente R$ 10 milhões oriundos de mecanismos governamentais de incentivo.
Para Bap, esses números demonstram que o clube exerce um papel que vai além da disputa por títulos. Na visão da diretoria, o Flamengo funciona como um dos principais centros de formação esportiva do país e ajuda a sustentar modalidades que dificilmente sobreviveriam apenas com receitas próprias.
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Os déficits das modalidades
A apresentação também revelou um retrato detalhado das contas dos esportes olímpicos. Segundo os dados divulgados, o conjunto das modalidades apresenta atualmente um déficit operacional próximo de R$ 20 milhões por ano.
Entre os esportes com maior necessidade de aporte financeiro aparecem o futebol feminino e o basquete. O futebol feminino registrou receita líquida de aproximadamente R$ 16 milhões e despesas próximas de R$ 20 milhões, produzindo EBITDA negativo de cerca de R$ 4 milhões.
Situação semelhante foi observada no basquete, que apresentou receita líquida de R$ 16 milhões, despesas de aproximadamente R$ 19 milhões e resultado operacional negativo de R$ 3 milhões. Também aparecem na relação modalidades como remo, vôlei de base, esportes aquáticos, judô e ginástica, que igualmente dependem de complementação financeira para manter suas operações.
Bap destacou que o objetivo não é reduzir investimentos esportivos, mas encontrar modelos mais eficientes de financiamento.
Futebol feminino e basquete viram prioridades para novas parcerias
Ao comentar os números, o presidente apontou dois setores específicos como prioridades para a busca de novos parceiros comerciais. Segundo ele, o futebol feminino e o basquete concentram alguns dos maiores déficits operacionais entre as modalidades e possuem potencial para atrair investimentos externos capazes de reduzir a dependência dos recursos do clube.
A inspiração apresentada foi o modelo adotado pelo vôlei feminino, desenvolvido em parceria com o Sesc, considerado internamente um exemplo de cooperação bem-sucedida. Na avaliação da diretoria, a entrada de patrocinadores estratégicos poderia permitir a montagem de equipes mais competitivas ao mesmo tempo em que diminuiria a necessidade de aportes diretos do orçamento rubro-negro.
Bap chegou a ilustrar esse cenário afirmando que, se os déficits do futebol feminino e do basquete fossem reduzidos pela metade, o clube poderia redirecionar aproximadamente R$ 19 milhões para outras modalidades esportivas.
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Uma discussão que vai além do Flamengo
Embora a apresentação tenha sido feita sob a ótica rubro-negra, o discurso adotado por Bap procurou ampliar o alcance do debate.
Ao longo da exposição, o presidente sustentou que a discussão tributária não afeta apenas o Flamengo, mas todo o sistema esportivo nacional. Para ele, a diferença de tratamento entre clubes associativos e SAFs pode comprometer justamente as instituições que historicamente investem na formação de atletas olímpicos e no desenvolvimento de modalidades que não possuem grande capacidade de geração de receita.
A argumentação apresentada durante a reunião reforçou uma linha que vem sendo adotada pela atual gestão desde o início do ano: a defesa do modelo associativo não apenas como estrutura administrativa, mas também como ferramenta de sustentação do esporte olímpico brasileiro.
Por isso, o clube decidiu transformar a pauta tributária em uma das suas principais frentes institucionais em Brasília. A avaliação da diretoria é que a preservação da capacidade de investimento dos clubes formadores será determinante para o futuro de diversas modalidades esportivas. Mais do que uma questão financeira, o tema passou a ser tratado como um debate sobre desenvolvimento esportivo, formação de atletas e competitividade nacional. Nesse contexto, o Flamengo busca posicionar-se não apenas como beneficiário das mudanças pretendidas, mas como protagonista de uma discussão que pode influenciar o esporte brasileiro pelos próximos anos.
Flamengo inicia campanha por imunidade tributária e leva debate dos clubes associativos ao Congresso
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