Bate-papo com Pedro Asbeg, diretor do documentário “Onde estiver, estarei – Uma paixão Rubro-negra”

Bate-papo com Pedro Asbeg, diretor do documentário “Onde estiver, estarei – Uma paixão Rubro-negra”

O lançamento do documentário “Onde Estiver, Estarei – Uma Paixão Rubro-Negra”, exibido nesta quinta-feira (28), às 18h, na TNT e HBO Max, recoloca a torcida do Flamengo no centro de uma narrativa raramente explorada pelo audiovisual esportivo brasileiro. Em entrevista à Brabo TV, conduzida por Rafael Penido, Tulio Rodrigues, Joubert Junior e Lucas Moreira, o diretor Pedro Asbeg revelou bastidores da produção, falou sobre a relação afetiva construída ao redor do clube e explicou por que o filme não nasceu apenas para revisitar os títulos das Libertadores de 1981 e 2019, mas para registrar a dimensão humana do rubro-negrismo.


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Ao longo da conversa, Asbeg deixou claro que o documentário não se sustenta apenas na catarse provocada pelos gols de Gabigol em Lima ou na memória heroica da geração de Zico. Segundo o diretor, a essência da obra está nas pessoas que fizeram do Flamengo uma experiência coletiva espalhada pelo Brasil e pelo mundo. “Esse filme não é sobre essas duas conquistas, mas é sobre a nossa torcida”, afirmou.

A declaração ajuda a entender por que “Onde Estiver, Estarei” rompe com a estrutura convencional de produções esportivas que normalmente priorizam bastidores de vestiário, entrevistas protocolares ou grandes estrelas do elenco. O filme parte de outro ponto. Em vez de transformar jogadores em eixo central, a narrativa escolhe personagens históricos da arquibancada rubro-negra, especialmente Cláudio Cruz e Francisco Moraes, dois nomes fundamentais para compreender a construção cultural do Flamengo moderno.

Cláudio Cruz, Moraes e a história da torcida que aprendeu a seguir o Flamengo pelo continente

Durante a entrevista, Pedro Asbeg dedicou boa parte do tempo para contextualizar quem são os protagonistas da obra. Cláudio Cruz, fundador da Raça Rubro-Negra em 1977, aparece no documentário não apenas como liderança de arquibancada, mas como personagem político, cultural e social do Rio de Janeiro. Já Francisco Moraes surge como símbolo de uma geração de torcedores que transformou o ato de acompanhar o Flamengo em uma espécie de missão de vida.

Segundo o diretor, a amizade entre os dois nasceu justamente ao redor das viagens para acompanhar o clube. Em 1981, durante a campanha da primeira Libertadores, decidiram assistir a todos os jogos do Flamengo independentemente das dificuldades financeiras, logísticas ou estruturais existentes naquela época. Era um período completamente diferente do futebol sul-americano atual, sem voos acessíveis, sem internet e sem qualquer facilidade para deslocamentos internacionais.

Asbeg relembrou que, após os confrontos contra o Cobreloa, no Chile, os torcedores precisaram reorganizar toda a viagem para Montevidéu depois da decisão inesperada de realizar um terceiro jogo em campo neutro. O relato ajuda a construir um dos pilares emocionais do documentário: a obsessão do torcedor rubro-negro em permanecer ao lado do clube em qualquer circunstância.

Essa escolha narrativa não é casual. Ao transformar a arquibancada em personagem principal, o filme aproxima as conquistas continentais da experiência coletiva vivida pela torcida ao longo de décadas. Não se trata apenas de relembrar gols ou taças. A obra tenta explicar o que move milhares de pessoas a reorganizarem a própria vida em torno do Flamengo.

o Flamengo como fenômeno emocional

Ao responder perguntas sobre o significado do clube em sua vida, Pedro Asbeg foi além do discurso tradicional de torcedor apaixonado. O diretor relacionou o Flamengo a experiências emocionais profundas e afirmou que o clube ocupa um espaço central em sua existência.

Durante a conversa, ele relembrou uma fala presente no documentário em que uma torcedora compara a emoção da Libertadores de 2019 ao nascimento da própria filha. A declaração, segundo o cineasta, ajuda a explicar algo difícil de traduzir racionalmente para quem não vive o futebol dessa maneira.

Quem sentiu o que nós rubro-negros sentimos na hora que o Gabigol virou o jogo, tá tudo explicado”, afirmou Asbeg ao comentar os 38 anos de espera entre os títulos continentais de 1981 e 2019.

A frase ajuda a compreender um dos principais méritos do documentário. O filme não tenta apenas registrar acontecimentos históricos. Ele procura capturar sensações, traumas acumulados, frustrações esportivas e explosões emocionais que marcaram diferentes gerações de flamenguistas.

Ao longo da entrevista, essa percepção aparece repetidamente. O Flamengo surge como elemento capaz de atravessar diferenças sociais, geográficas e culturais. Um clube que conecta “o asfalto e o morro”, como o próprio Asbeg destacou ao falar sobre a representatividade rubro-negra.

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Arthur Muhlenberg e a construção afetiva do filme

A entrevista ganhou tom ainda mais emocional quando o assunto passou para Arthur Muhlenberg, roteirista do documentário e um dos maiores nomes da produção independente sobre Flamengo nas últimas décadas. Visivelmente abalado em alguns momentos, Pedro Asbeg revelou detalhes da parceria criativa construída ao longo de anos.

Segundo ele, os dois conversavam diariamente e desenvolveram juntos boa parte da estrutura narrativa da obra. “A gente se falava todos os dias, por anos e anos”, afirmou.

O diretor explicou que o filme mudou diversas vezes ao longo do processo. Inicialmente, a ideia era reconstruir fisicamente a trajetória da campanha de 1981, revisitando cidades como Cochabamba, Santiago e Montevidéu. A pandemia obrigou a reformulação completa do projeto, fazendo com que a narrativa se concentrasse ainda mais nas histórias humanas da torcida.

Foi justamente nesse contexto que Arthur Muhlenberg ajudou a consolidar a identidade definitiva da obra. Pedro Asbeg contou que os dois já haviam trabalhado juntos em produções como “Democracia em Preto e Branco” e “Lei da Selva”, sempre utilizando narrativas costuradas por personagens narradores. Em “Onde Estiver, Estarei”, o escolhido foi Daniel Furlan.

O relato ganha peso ainda maior porque o documentário acabou se tornando o último trabalho desenvolvido pela dupla. Nos últimos anos, Arthur enfrentava sucessivas internações hospitalares, mas permaneceu participando ativamente da construção do filme.

Esse trabalho tá guardado, essa participação dele, esse pensamento dele e as coisas que a gente construiu juntos estão guardadas”, disse Asbeg.

A fala resume parte da dimensão afetiva do documentário. Sem transformar Arthur em tema central da obra, o filme inevitavelmente carrega sua assinatura emocional e estética. A influência do jornalista aparece tanto na maneira como o Flamengo é retratado quanto na valorização da arquibancada como patrimônio cultural do clube.

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Um filme sobre memória, pertencimento e identidade rubro-negra

Ao longo da entrevista na Brabo TV, ficou evidente que “Onde Estiver, Estarei” tenta ocupar um espaço diferente dentro do audiovisual esportivo brasileiro. O documentário utiliza o futebol como ponto de partida, mas não limita sua narrativa aos noventa minutos dentro de campo.

O longa procura entender por que o Flamengo se tornou mais do que um clube para milhões de pessoas espalhadas pelo país. As histórias contadas ao redor de Cláudio Cruz, Francisco Moraes, Arthur Muhlenberg e tantos outros personagens ajudam a explicar como a experiência rubro-negra foi sendo construída entre viagens, caravanas, derrotas traumáticas, títulos históricos e relações de amizade atravessadas pelo futebol.

Talvez por isso Pedro Asbeg tenha insistido tanto, durante a entrevista, que o filme não envelhece mesmo tratando de acontecimentos amplamente conhecidos. O documentário não existe apenas para revisitar a final de Lima ou a geração de Zico. Ele existe para registrar aquilo que permanece vivo independentemente do tempo: a relação quase irracional entre o Flamengo e sua torcida.

No fim, “Onde Estiver, Estarei” parece funcionar menos como um filme sobre títulos e mais como uma tentativa de eternizar pessoas, memórias e sentimentos que ajudaram a transformar o Flamengo em um fenômeno cultural impossível de explicar apenas por estatísticas, taças ou resultados.

Documentário “Onde Estiver, Estarei – Uma Paixão Rubro-Negra”, da HBO, ganha trailer; confira

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