A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) afirmou que uma proibição abrupta das casas de apostas pode provocar uma crise financeira no futebol brasileiro. Em audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), o advogado da entidade, Igor Mauler Santiago, disse que a saída das empresas reduziria receitas de patrocínio, pressionaria os clubes a vender jogadores e afetaria o conjunto do setor. A CBF defendeu que eventual restrição seja acompanhada de um período de adaptação, que poderia se estender até o ciclo da Copa do Mundo de 2030.
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A manifestação ocorreu durante discussão sobre a regulamentação das apostas esportivas. Santiago reconheceu que a entrada das bets aumentou as receitas do futebol, mas argumentou que a retirada repentina desses recursos teria efeitos que ultrapassariam os contratos de patrocínio. A entidade não descartou uma proibição integral, desde que a mudança seja feita de forma gradual e proporcional.
CBF apresenta peso econômico do futebol
Na exposição, Santiago citou dados segundo os quais o futebol brasileiro movimentou R$ 91 bilhões em 2025, valor próximo de 1% do Produto Interno Bruto (PIB). O advogado também mencionou cerca de 630 mil empregos diretos e indiretos ligados à atividade. Os números foram apresentados para sustentar que mudanças no mercado de apostas podem ter consequências econômicas para além dos clubes.
O representante da CBF descreveu um modelo em que receitas de três produtos superavitários ajudam a financiar 26 competições deficitárias organizadas pela confederação. Entre os torneios que geram recursos, citou a seleção masculina, a Copa do Brasil e, em menor medida, o Campeonato Brasileiro da Série A. Já as demais divisões nacionais, competições regionais, torneios de base e futebol feminino dependem de financiamento da entidade.
Santiago afirmou que a CBF ampliou o calendário e a estrutura de competições, com mais partidas e clubes participantes, além de investimentos em profissionalização da arbitragem e na implantação do fair play financeiro. Segundo ele, essas iniciativas representam R$ 192 milhões em investimentos adicionais.
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Patrocínios cresceram com a entrada das bets
Para ilustrar a dimensão dos contratos, o advogado comparou o patrocínio do Fluminense. Segundo os números apresentados na audiência, o último acordo do clube com uma empresa que não era do setor de apostas correspondia a R$ 10 milhões por ano, valor que, atualizado, seria de aproximadamente R$ 15 milhões. O contrato atual citado por Santiago chega a R$ 53 milhões anuais, com validade até 2029.
A CBF afirmou que 27 dos 40 clubes das Séries A e B têm uma casa de apostas como patrocinadora máster. Esses acordos somariam cerca de R$ 1 bilhão, equivalente a 35% do valor total dos patrocínios dos clubes. Mantidas as condições anteriores, a projeção apresentada para esses contratos até 2030 seria de R$ 5,4 bilhões.
O advogado também atribuiu às bets parte da valorização dos direitos de transmissão e de outras propriedades comerciais, como placas de publicidade nos estádios. No caso das divisões inferiores, em que a negociação de patrocínios costuma ser mais difícil, a CBF comercializa propriedades e repassa cotas aos clubes. Uma retração nesse mercado, afirmou, poderia atingir também equipes que não têm contratos diretos com casas de apostas.
Perda de patrocinadores pode pressionar clubes
Santiago disse que a proibição prevista na medida em discussão alcançaria a CBF e as federações durante a renegociação de contratos para o ciclo de 2027 a 2030. Para a confederação, a perda de receita estimada para 2027 seria de R$ 420 milhões, com impacto crescente nos anos seguintes.
Na avaliação apresentada, a saída das empresas criaria uma oferta excessiva de espaços publicitários e, por consequência, reduziria o valor dos patrocínios disponíveis. Com menos receita, os clubes poderiam recorrer à venda de jogadores. O advogado advertiu que a oferta maior de atletas no mercado também pressionaria os preços, produzindo um efeito acumulado sobre o sistema.
A CBF pediu que os Poderes Executivo e Legislativo, sob análise do STF, encontrem uma solução que considere saúde pública, segurança jurídica e desenvolvimento econômico e esportivo. Santiago mencionou diferentes possibilidades, entre elas restringir cassinos e manter apostas esportivas sob regras mais severas, ou até proibir integralmente as bets, desde que exista uma regra de transição.
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CBF sugere adaptação até 2030
Como referência, Santiago citou o modelo adotado pela Premier League, que prevê restrições ao patrocínio máster, mas permite outras formas de publicidade, com três temporadas para adaptação. Segundo ele, no caso brasileiro, o prazo concedido foi de apenas dez dias.
A CBF sugeriu que eventual transição acompanhe o ciclo da Copa do Mundo de 2030. A proposta não representa uma defesa irrestrita da permanência das casas de apostas, mas um pedido para que qualquer mudança evite uma ruptura imediata nos contratos e nas receitas do futebol. A entidade argumenta que a forma e o prazo da decisão serão determinantes para o impacto sobre clubes, federações, competições e empregos ligados ao esporte.
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