A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) iniciou na semana passada uma nova rodada de discussões sobre a criação de uma liga unificada para o futebol nacional, mas o encontro realizado no Rio de Janeiro acabou revelando algo maior do que simples divergências administrativas. Enquanto a entidade apresentou propostas ligadas à infraestrutura, calendário, gramados, segurança, horários de jogos e padronização do campeonato, parte dos dirigentes presentes demonstrou preocupação imediata com a comercialização dos direitos e a futura divisão de receitas do ciclo pós-2029. O contraste entre as pautas ajuda a expor um problema estrutural do futebol brasileiro: a dificuldade de discutir melhoria de produto antes da disputa pelo dinheiro gerado por ele.
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O encontro reuniu representantes de clubes das Séries A e B em um hotel no Rio. Inicialmente, circulou nas redes sociais a informação de que o Flamengo não teria enviado representante à reunião, mas a versão acabou sendo corrigida ao longo do dia. O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, não compareceu pessoalmente, porém o clube foi representado pelo executivo Marcelo Campos Pinto, participando normalmente das discussões.
O detalhe ganhou relevância porque o encontro aconteceu poucos dias após o forte embate público entre Flamengo e a CBF em razão da recusa da entidade em adiar a partida contra o Coritiba, mesmo diante da perda de jogadores convocados para seleções. O ambiente, portanto, já chegava tensionado antes mesmo do início da reunião.
Horários, calendário e o reconhecimento tardio de problemas antigos
Entre os principais pontos apresentados pela CBF, chamou atenção o reconhecimento oficial de problemas que clubes, torcedores, jornalistas e até atletas criticam há anos. A entidade propôs reduzir jogos às 19h no meio de semana, reavaliar partidas noturnas de domingo após as 20h e ampliar faixas de horários diurnos, especialmente aos domingos.
A discussão evidencia um aspecto curioso. O futebol brasileiro convive há décadas com uma grade construída prioritariamente para atender televisão, patrocinadores e grade comercial, enquanto a experiência do torcedor nos estádios ficou em segundo plano. A própria CBF admite nos bastidores que a presença de público não costuma ser prioridade na definição dos horários.
A proposta de reavaliar jogos às 19h no meio de semana surge justamente após estudos internos apontarem queda significativa de público nessa faixa. O mesmo acontece com partidas noturnas aos domingos, criticadas há anos por torcedores que precisam trabalhar na manhã seguinte, especialmente em cidades com problemas de mobilidade urbana.
Por outro lado, a ideia de ampliar jogos às 11h também gera questionamentos. Em regiões mais quentes do país, sobretudo durante primavera e verão, a faixa se aproxima do limite físico aceitável para prática esportiva de alto rendimento. Em cidades como Rio de Janeiro, Cuiabá, Salvador ou Recife, atuar sob sol forte próximo ao meio-dia pode representar desgaste excessivo para atletas e piora técnica do espetáculo.
O futebol brasileiro ainda sem padrão
Outro eixo importante das propostas envolve infraestrutura e gramados. A CBF anunciou intenção de criar um manual obrigatório para estádios, inspirado em modelos já utilizados há mais de uma década pela UEFA e pelas principais ligas europeias.
A medida dialoga diretamente com uma pauta antiga levantada pelo Flamengo, especialmente na discussão sobre padronização dos gramados. O clube já havia apresentado anteriormente estudos defendendo critérios mínimos de qualidade para campos naturais e sintéticos.
O projeto da entidade prevê fiscalização mais rígida de iluminação, arquitetura, topografia e condições dos gramados, além da implementação progressiva de exigências até 2027. O ponto mais simbólico dessa proposta talvez seja o reconhecimento implícito de que o Brasileirão ainda opera sem um padrão estrutural minimamente uniforme.
Hoje, clubes disputam a mesma competição em estádios completamente diferentes entre si em termos de qualidade técnica, gramado, iluminação, acessibilidade e experiência de público. Em alguns casos, a diferença de estrutura entre arenas lembra mais campeonatos distintos do que partidas da mesma liga.
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Violência, biometria e responsabilidade dos clubes
A entidade também apresentou medidas ligadas ao combate à violência. Entre elas, a ampliação do sistema de biometria facial e a criação de mecanismos para responsabilizar clubes pela segurança de jogadores em ambientes de trabalho, incluindo centros de treinamento, aeroportos e deslocamentos.
A proposta surge em meio ao crescimento de episódios de intimidação contra atletas e invasões em CTs nos últimos anos. A lógica utilizada pela CBF se aproxima da legislação trabalhista, entendendo que o clube possui responsabilidade sobre a segurança do profissional durante atividades ligadas ao trabalho.
O problema aparece na operacionalização prática dessa ideia. Em aeroportos e espaços públicos, a segurança depende diretamente do poder público local. Clubes possuem segurança privada, mas não têm autoridade para bloquear vias ou controlar multidões de grande porte.
Ainda assim, há consenso em parte das medidas, especialmente no endurecimento contra torcedores envolvidos em agressões e intimidações. A ampliação da biometria facial também é vista internamente como um mecanismo importante para aumentar presença de mulheres, idosos e crianças nos estádios.
A liga antes do produto
O aspecto mais revelador da reunião, porém, talvez tenha sido outro. Enquanto a CBF discutia calendário, gramados, violência, experiência do público e infraestrutura, parte dos dirigentes pressionava para entrar imediatamente no debate sobre comercialização de direitos e repartição financeira do próximo ciclo.
O movimento expõe uma contradição histórica do futebol brasileiro. Muitos dirigentes querem discutir distribuição de dinheiro antes mesmo de consolidar um produto forte, padronizado e valorizado internacionalmente.
A Premier League se transformou em potência econômica porque primeiro organizou calendário, estádios, transmissão, segurança, experiência do torcedor e identidade visual do campeonato. O dinheiro veio como consequência da valorização do produto. No Brasil, frequentemente o debate começa pelo dinheiro antes mesmo da estrutura básica estar consolidada.
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O futebol brasileiro entre atraso e tentativa de modernização
As propostas apresentadas pela CBF não resolvem automaticamente os problemas do futebol brasileiro. Algumas ainda geram dúvidas legítimas. Outras chegam com atraso de décadas. Mas existe um ponto importante no movimento atual: pela primeira vez em muito tempo, a entidade parece reconhecer oficialmente questões estruturais que antes eram tratadas como normais.
O Brasileirão ainda sofre com gramados ruins, horários incoerentes, estádios sem padronização, excesso de jogos noturnos e baixa previsibilidade organizacional. Admitir esses problemas já representa um passo que historicamente demorou a acontecer.
A dificuldade será transformar diagnóstico em prática. O futebol brasileiro possui longa tradição de projetos anunciados com grande repercussão e pouco efeito concreto ao longo do tempo. O sucesso das medidas dependerá menos do discurso institucional e mais da capacidade de implementação, fiscalização e continuidade.
Enquanto isso, a reunião deixou uma imagem simbólica do momento atual do futebol nacional. De um lado, uma entidade tentando discutir estrutura, ainda que tardiamente. Do outro, dirigentes preocupados prioritariamente com o próximo contrato comercial, mesmo antes da construção definitiva do produto que pretendem vender.
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