Coletivo de torcedores do Flamengo questiona uso político das torcidas organizadas nas eleições

Coletivo de torcedores do Flamengo questiona uso político das torcidas organizadas nas eleições

Em meio à reta final das Eleições Gerais de 2026, o coletivo Flamengo Antifascistas publicou uma manifestação nas redes sociais para questionar a aproximação entre torcedores organizados do clube e candidatos durante o período eleitoral. A publicação, que leva à discussão sobre memória, representação e autonomia das instituições de arquibancada, sustenta que grupos historicamente associados ao Flamengo não deveriam transformar suas estruturas coletivas em instrumentos de apoio eleitoral. O primeiro turno está marcado para este domingo (4), quando serão escolhidos presidente, governadores, senadores e deputados.


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A discussão não é nova no futebol brasileiro e tampouco começou com o atual processo eleitoral. Torcidas organizadas participam da vida social dos clubes há décadas, desenvolvendo atividades que ultrapassam os dias de jogos e, em diferentes momentos da história, assumindo posições diante de questões políticas e sociais. No caso do Flamengo, há registros de mobilizações de torcedores durante o processo de redemocratização brasileira, especialmente em 1984, quando manifestações pelas Diretas Já chegaram às arquibancadas do Maracanã.

O Flamengo Antifascistas afirma, em sua publicação, que a aproximação entre candidatos e organizadas durante campanhas eleitorais precisa ser analisada à luz da relação que essas mesmas instituições mantêm com autoridades e setores da sociedade durante os demais períodos. O coletivo questiona situações em que torcedores organizados seriam procurados durante a campanha, mas, fora dela, as próprias torcidas seriam tratadas exclusivamente pelo viés da segurança pública. A manifestação é uma posição política do grupo e não representa necessariamente o pensamento de todas as torcidas ou torcedores do Flamengo.

A memória das arquibancadas

Um dos principais argumentos utilizados pelo coletivo é histórico. A publicação recupera episódios da participação de torcedores rubro-negros em movimentos de oposição à ditadura militar e na campanha pelas eleições diretas para presidente da República.

Em 1984, a relação entre futebol e política ficou particularmente evidente no Maracanã. O movimento Fla-Diretas levou para as arquibancadas a campanha pela redemocratização e pelas eleições diretas. Naquele ano, o Fla-Flu de 23 de setembro terminou com vitória do Flamengo por 1 a 0, gol de Adílio, e ficou conhecido como o “Fla-Flu das Diretas”. Durante a partida, manifestações políticas foram exibidas nas arquibancadas, incluindo uma faixa com a mensagem “Maluf não, Tancredo é a solução”.

O episódio é relevante porque mostra que a arquibancada nunca esteve completamente isolada dos acontecimentos do país. Pesquisas acadêmicas sobre torcidas organizadas do Rio de Janeiro também identificam, desde os anos 1980, atuação que ultrapassava o apoio esportivo, incluindo mobilizações sociais, reivindicações relacionadas ao preço dos ingressos e participação no cotidiano político dos clubes.

Isso não significa, entretanto, que exista uma posição política única entre os torcedores do Flamengo. A história das arquibancadas é composta por diferentes grupos, indivíduos e momentos. Uma manifestação de uma torcida ou coletivo não pode ser automaticamente atribuída à totalidade da Nação Rubro-Negra, assim como o apoio de integrantes de uma organizada a determinado candidato não significa necessariamente que todos os seus membros tenham a mesma preferência.

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A questão da autonomia

É justamente nesse ponto que aparece uma segunda camada do debate. A crítica apresentada pelo Flamengo Antifascistas não se limita ao direito individual de cada torcedor escolher seu candidato. A Constituição assegura a liberdade política individual, e cada integrante de uma torcida organizada pode fazer sua escolha eleitoral. A discussão passa a ser outra quando uma instituição coletiva utiliza seu nome, sua identidade ou sua estrutura para apoiar determinada candidatura.

O argumento é que uma organizada que mantém relação institucional com um político pode encontrar dificuldades para exercer posteriormente uma cobrança independente. Se um candidato apoiado pelo grupo for eleito e passar a ocupar um cargo público, por exemplo, a proximidade construída durante a campanha pode criar uma relação que os próprios críticos classificam como conflito de interesses.

Essa preocupação não é uma acusação automática contra qualquer torcida que tenha contato com candidatos. Trata-se de uma questão de independência institucional: até que ponto uma organização consegue cobrar um político depois de ter estabelecido uma relação de apoio, proximidade ou benefício durante uma campanha?

Por outro lado, também é necessário distinguir apoio institucional de manifestações individuais. Um torcedor organizado pode declarar publicamente seu voto sem que isso signifique necessariamente uma decisão oficial da entidade. É justamente essa diferença que torna relevante a transparência sobre quem está falando em nome de uma torcida e quem está se manifestando apenas como indivíduo.

Torcida organizada além do estádio

A discussão também passa pelo papel social desempenhado pelas organizadas. A imagem pública desses grupos costuma estar associada às arquibancadas, aos cânticos, bandeiras e instrumentos. Ao mesmo tempo, diferentes torcidas mantêm sedes, promovem ações sociais e desenvolvem atividades culturais em suas comunidades.

No caso do Flamengo, o debate sobre a atuação das organizadas também convive com medidas de suspensão e retorno aos estádios. Em 2025, a Justiça determinou o afastamento da Torcida Jovem do Flamengo por dois anos, em processo relacionado a episódios de violência e desordem. Antes disso, a organizada já havia sido afastada dos estádios por decisão judicial em 2021.

Em 2026, o Ministério Público do Rio voltou a tratar do assunto com representantes da Jovem do Flamengo após nova suspensão administrativa relacionada a episódios de violência registrados em maio. O GAEDEST/MPRJ informou que a medida estava relacionada ao descumprimento de um Termo de Ajustamento de Conduta firmado em 2025.

Esses episódios mostram por que a relação entre torcidas, clubes, autoridades e poder público é mais complexa do que uma simples fotografia de campanha. Há momentos em que as instituições são chamadas a responder por questões de segurança, outros em que participam de iniciativas sociais e também situações em que suas estruturas ganham visibilidade política.

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Política e futebol continuam se encontrando

A proximidade entre eleições e futebol tende a tornar essa discussão mais visível. O próprio calendário de 2026 colocou o pleito nacional a poucos dias de uma série de acontecimentos esportivos e institucionais. O primeiro turno ocorre em 4 de outubro, e um eventual segundo turno para presidente e governadores será realizado em 25 de outubro.

O debate provocado pelo Flamengo Antifascistas, portanto, não precisa ser reduzido à escolha entre permitir ou proibir manifestações políticas de torcedores. Há uma questão anterior: qual é o limite entre a liberdade individual de cada integrante e a utilização institucional de uma torcida organizada durante uma campanha eleitoral?

A resposta não é necessariamente a mesma para todas as entidades. Algumas podem decidir não apoiar candidatos como instituição; outras podem adotar posições coletivas; integrantes individuais continuam livres para manifestar suas preferências dentro das regras eleitorais. O ponto central é deixar clara essa diferença para que o eleitor saiba quando está diante da opinião de uma pessoa, de um grupo informal ou de uma organização que fala oficialmente em nome de seus associados.

No Flamengo, a história mostra que política e arquibancada já se encontraram em diferentes momentos. O Fla-Flu das Diretas, em 1984, é um dos exemplos mais conhecidos dessa relação. Quatro décadas depois, a discussão reaparece em outro contexto, com redes sociais, campanhas eleitorais mais personalizadas e uma relação ainda mais direta entre candidatos e grupos organizados. A manifestação do Flamengo Antifascistas acrescenta uma pergunta a esse cenário: como preservar a autonomia das torcidas quando o interesse eleitoral aumenta a procura por suas imagens, seus símbolos e sua capacidade de mobilização?

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