Demissão de Filipe Luís no Flamengo expõe crítica seletiva e hipocrisia da imprensa paulista

A repercussão da demissão de Filipe Luís no Clube de Regatas do Flamengo ganhou um novo capítulo não apenas pelo debate esportivo, mas pelo tom adotado por parte da imprensa ao tratar também das falas do presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap. A discussão, que começou com questionamentos sobre o momento e a forma da saída do treinador, ampliou-se para críticas recorrentes a declarações antigas do dirigente, reavivadas em colunas e programas de análise esportiva. O centro da controvérsia já não é apenas a decisão administrativa, mas a coerência, ou a falta dela, no modo como personagens semelhantes são julgados.
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A demissão e o foco deslocado
É legítimo discutir a saída de Filipe Luís. O timing, a condução interna e o impacto no elenco são pontos que merecem escrutínio público. O que chama atenção é a insistência em resgatar, como elemento central do debate, a declaração em que Bap protagonizou uma ofensa verbal à jornalista Renata Mendonça. O episódio, ocorrido dezembro passado, foi amplamente repercutido à época. Houve críticas duras, editoriais condenando o tom adotado e manifestações públicas em diferentes veículos.
Ainda assim, parte das análises recentes dedicou espaço majoritário à reedição daquele momento, como se ele explicasse, por si só, qualquer movimento posterior da diretoria. A crítica não está na lembrança do fato, mas na proporção. Quando ênfase supera contexto, o debate deixa de ser sobre gestão e passa a orbitar preferências pessoais.
O critério que muda conforme o personagem
O contraste aparece quando se observam outros episódios do futebol brasileiro. O zagueiro Gabriel Paulista, atualmente no Corinthians, relativizou o racismo sofrido por Vinícius Júnior em episódio ocorrido no estádio Mestalla, na Espanha. Parte dos envolvidos naquele caso foi posteriormente condenada pela Justiça espanhola. A fala do defensor gerou reação no momento em que ocorreu. Quando retornou ao Brasil e passou a ser personagem de conquistas esportivas, a lembrança do episódio deixou de frequentar análises frequentes.
O mesmo vale para Abel Ferreira, técnico do Palmeiras. Em diferentes momentos, o treinador português acumulou conflitos com jornalistas, declarações machistas, vistas como desrespeitosas e episódios que renderam editoriais críticos. Em outras ocasiões, foi exaltado pelo carisma ou pela competência tática, sem que as polêmicas reaparecessem com igual intensidade.
A presidente palmeirense Leila Pereira também já protagonizou falas consideradas provocativas em relação a rivais. Em recente postagem, ironizou o ambiente interno do Flamengo ao afirmar que, “na Academia, o trabalho é tranquilo”. A frase foi tratada por parte da mídia como legítima celebração. Se o autor fosse outro, a leitura seria a mesma?
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A torcida como alvo mais fácil
Outro ponto que emergiu no debate foi a tentativa de responsabilizar torcedores pela demissão do treinador. Após manifestações no centro de treinamento e críticas vindas da arquibancada, houve quem atribuísse à pressão popular papel determinante na decisão da diretoria.
A tese ignora o óbvio: dirigente é eleito para decidir sob pressão. Se cada grito de arquibancada determinasse uma exoneração, o calendário de técnicos no Brasil seria semanal. No jogo contra o Madureira, mais de vinte mil pessoas estiveram presentes em partida de pouca relevância competitiva. Houve protestos de uma parcela. Não do estádio inteiro. Generalizar essa manifestação e transformá-la em causa formal da ruptura é simplificar um processo que, por natureza, é político e administrativo.
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Crítica ou militância seletiva?
O cerne da discussão não está em defender Bap ou absolver erros. Está em questionar o método. Se determinada declaração é considerada ofensiva ou arrogante, o padrão precisa valer para todos os personagens em circunstâncias semelhantes. Quando apenas um nome carrega permanentemente o rótulo, enquanto outros transitam entre crítica e exaltação conforme o momento, o público percebe a diferença.
No futebol, paixões existem. Na imprensa, espera-se que o distanciamento seja maior. Quando análises se repetem com foco pessoal reiterado, o debate se estreita. O risco não é apenas a perda de credibilidade individual, mas o empobrecimento da discussão pública.
O Flamengo vive turbulência. Bap cometeu equívocos na forma de se expressar. Filipe Luís saiu em meio a questionamentos. Tudo isso pode e deve ser examinado. O que não pode é a régua mudar conforme a camisa, o cargo ou a simpatia de quem comenta. Sem coerência, crítica vira torcida com microfone.
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