Dono da Outsider Tours é preso após anos de denúncias, processos e relatos de ameaças a clientes
Fernando Sampaio de Souza e Silva, dono da Outsider Tours, foi preso preventivamente nesta terça (06) em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, após anos de denúncias, processos judiciais e relatos de consumidores lesados em diferentes partes do país. A prisão, cumprida a partir de mandado expedido pela Justiça do Pará, encerra ao menos simbolicamente um ciclo de impunidade que se arrastava desde 2022, período em que a empresa passou a acumular reclamações por pacotes esportivos vendidos e jamais entregues.
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A detenção ocorreu em um prédio de alto padrão no centro da cidade conhecida como “Dubai brasileiro”, onde o empresário passava férias com a família. Aos 36 anos, Fernando Sampaio já responde a mais de 600 processos e registros de ocorrência por estelionato, com investigações em curso em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Pará. Segundo a Polícia Civil, ele era considerado foragido.
A Outsider Tours ganhou projeção no mercado ao oferecer viagens para grandes eventos esportivos, como finais de Libertadores, Champions League, jogos decisivos do Campeonato Brasileiro, além de Fórmula 1 e outros espetáculos internacionais. O problema começou a se tornar público na final da Libertadores de 2022, em Guayaquil, quando clientes relataram ausência de passagens aéreas, ingressos inexistentes e falta total de suporte. Desde então, o padrão se repetiu.
Em 2024, novos relatos surgiram na final da Champions League. Em 2025, a Polícia Civil indiciou Fernando Sampaio duas vezes por estelionato. Ainda assim, a empresa seguiu operando, vendendo pacotes e captando recursos, mesmo diante de uma avalanche de denúncias públicas e ações judiciais. Uma agência de turismo da Bahia, por exemplo, cobra quase R$ 6 milhões na Justiça. Em São Paulo, uma empresa contabilizou prejuízo superior a R$ 1,2 milhão.
O discurso de defesa, reiterado pelo empresário ao longo dos anos, sempre foi o de “casos pontuais”. A realidade documental aponta o contrário. Plataformas como o Reclame Aqui seguem recebendo novas queixas mesmo após a prisão. Há relatos de voos comprados e não emitidos, hotéis não pagos, ingressos inexistentes e estornos jamais realizados. Em alguns casos, consumidores afirmam ter vencido ações judiciais sem conseguir receber qualquer valor, já que não há bens localizados em nome dos sócios.
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Entre os registros mais graves estão denúncias de ameaças. Clientes que passaram a expor suas experiências publicamente relatam o recebimento de mensagens intimidatórias atribuídas ao próprio dono da empresa. Um dos relatos descreve abandono em Lima, sem voo de volta, com duas crianças, além de prejuízos profissionais e escolares. Outro menciona o pagamento de R$ 36 mil por um pacote para a Copa do Mundo de 2026 que nunca existiu. Em comum, a sensação de desamparo e o medo de retaliações.
O modelo de operação da Outsider Tours sempre levantou questionamentos básicos. Sem parcerias oficiais com entidades como Conmebol ou organizadores de grandes eventos, a empresa oferecia pacotes a preços abaixo do mercado para finais altamente disputadas, cuja venda de ingressos costuma ser restrita e centralizada. Financeiramente, a conta nunca fechou. Para especialistas do setor, o padrão se assemelha a um sistema de rolagem: recursos de eventos futuros usados para tentar cobrir compromissos imediatos, até que a engrenagem colapse.
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O mais perturbador, porém, não é apenas o volume de vítimas, mas o tempo de exposição. Mesmo com reputação deteriorada desde 2022, a empresa continuou captando clientes. Bastava uma busca simples no Google para encontrar alertas, processos e reportagens. Ainda assim, novas pessoas eram atraídas, muitas vezes pela promessa de acesso facilitado a eventos esgotados.
A prisão preventiva de Fernando Sampaio não apaga os prejuízos, nem devolve experiências perdidas. Ela escancara falhas de fiscalização, lentidão judicial e a fragilidade do consumidor diante de operações mal-intencionadas travestidas de oportunidade. O caso deixa uma lição dura: em um mercado repleto de intermediários, informação e desconfiança deixaram de ser opcionais. Tornaram-se mecanismo de defesa.
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