Eduardo Bandeira relembra como o Flamengo saiu da crise financeira e virou credor

O ex-presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, relembrou os desafios financeiros e administrativos enfrentados ao assumir o clube, em janeiro de 2013, e o processo que levou o Rubro-Negro a sair de uma situação de endividamento elevado para se tornar credor da Justiça do Trabalho. Em entrevista, ele destacou o diagnóstico inicial das contas, a recuperação da credibilidade, o pagamento de débitos trabalhistas e decisões impopulares que, segundo sua avaliação, foram necessárias para reorganizar a instituição.
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Bandeira afirmou que a realidade encontrada pela nova gestão era ainda mais grave do que se imaginava durante a campanha. A auditoria contratada após a posse identificou uma dívida de aproximadamente R$ 750,7 milhões, valor divulgado oficialmente em abril de 2013. Ao recordar aquele período, o ex-dirigente falou em cerca de R$ 800 milhões, considerando passivos que surgiram durante a apuração. O cenário exigia não apenas um ajuste financeiro, mas uma mudança na forma de administrar o clube.
O diagnóstico e a recuperação da credibilidade
Segundo Bandeira, a situação era tão desorganizada que nem mesmo o primeiro relatório de auditoria oferecia segurança suficiente sobre o tamanho real do passivo. A gestão precisou contratar a Ernst & Young para realizar um levantamento mais detalhado. O resultado confirmou a dimensão do problema e revelou compromissos que não estavam devidamente contabilizados.
O ex-presidente ressaltou que a dívida financeira era apenas parte da crise. Para ele, o Flamengo também precisava recuperar seu “passivo ético e moral”, reconstruindo a confiança de torcedores, funcionários, atletas e credores. Naquele período, atrasos salariais, pendências com fornecedores e problemas judiciais comprometiam a imagem do clube. Bandeira afirmou que a torcida passou a ter motivos para voltar a andar de cabeça erguida quando o Flamengo começou a honrar seus compromissos e deixou de protagonizar episódios de inadimplência.
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Austeridade diante da pressão por resultados
A entrevista também abordou a relação entre responsabilidade financeira e cobrança por reforços. Bandeira citou a devolução de Vágner Love, em 2013, como uma decisão de grande simbolismo na tentativa de ajustar as contas. O episódio voltou ao debate recentemente, após o Corinthians discutir a renovação do contrato de Memphis Depay e dirigentes compararem a situação à escolha feita pelo Flamengo anos antes.
Questionado sobre a disposição da torcida rubro-negra em aceitar sacrifícios esportivos para recuperar o clube, Bandeira evitou estabelecer comparações diretas com outras torcidas. Ele ponderou que dirigentes, conselheiros e torcedores de diferentes equipes podem acabar apostando em gastos elevados na expectativa de conquistar títulos e aumentar receitas. O problema, segundo o ex-presidente, é que o sucesso esportivo não pode ser tratado como garantia de equilíbrio financeiro.
A conversa também recuperou episódios da administração do Flamengo antes de 2013. Um deles foi a contratação do atacante Dimba, em 2004, com pagamento de luvas, enquanto havia salários atrasados no elenco. De acordo com o relato apresentado durante a entrevista, a decisão teria ocorrido sem o conhecimento do então diretor de futebol Júnior, que deixou o cargo. O caso foi lembrado como exemplo de interferência política na estrutura profissional do futebol e de decisões que comprometiam qualquer tentativa de austeridade.
Cortes e decisões impopulares
Entre as medidas adotadas pela gestão Bandeira, o ex-presidente mencionou a necessidade de lidar com problemas estruturais do clube, inclusive a piscina da Gávea. A instalação apresentava rachaduras e gerava preocupação com a segurança dos associados. A decisão de enfrentar o problema, mesmo diante de críticas ou resistência, foi descrita como parte de um conjunto de escolhas difíceis para reorganizar as finanças e preservar o patrimônio.
O saneamento também envolveu dívidas trabalhistas acumuladas ao longo de anos. Bandeira recordou que, ao assumir, o Flamengo enfrentava centenas de ações na Justiça do Trabalho, envolvendo desde funcionários humildes até atletas e treinadores conhecidos, como Romário, Petkovic, Ronaldinho Gaúcho e Joel Santana.
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Do passivo trabalhista ao crédito na Justiça
O Ato Trabalhista permitia centralizar parte das receitas do clube para organizar o pagamento dos credores e reduzir o risco de penhoras. Pelo acordo, uma parcela das receitas era direcionada à Justiça do Trabalho, que administrava a fila de pagamentos. Bandeira explicou que o modelo ajudou a preservar o fluxo de caixa, mas criticou a postura de administrações anteriores que, segundo ele, deixavam outras obrigações trabalhistas se acumularem.
A gestão passou a priorizar o pagamento correto das verbas rescisórias e a negociar diretamente com credores de maior valor. Em alguns casos, foram propostas composições para quitar débitos de forma parcelada, com condições que permitissem ao clube cumprir os acordos. Bandeira afirmou que a mudança de postura foi essencial para recuperar a confiança de quem já havia enfrentado promessas de pagamento não cumpridas.
O resultado apareceu ao longo dos anos. Em novembro de 2017, o Flamengo deixou o Ato Trabalhista após pagar cerca de R$ 130 milhões em mais de 650 ações. A saída encerrou um mecanismo que retinha 15% das receitas rubro-negras para quitar dívidas judiciais. O clube, que antes dependia do sistema para organizar pagamentos, havia reduzido significativamente a fila de credores e já não precisava manter o mesmo comprometimento de receitas.
Bandeira recordou que, com a diminuição do passivo, os valores destinados ao acordo chegaram a superar o montante necessário para quitar os débitos restantes. Na prática, segundo ele, o Flamengo passou de devedor a credor da Justiça do Trabalho. O ex-presidente atribuiu essa virada ao esforço coletivo da gestão e da torcida, que precisou conviver com restrições e escolhas difíceis enquanto o clube reorganizava suas contas.
A reconstrução financeira, na avaliação de Bandeira, não se resumiu à redução de números no balanço. O objetivo era estabelecer uma administração capaz de cumprir compromissos, recuperar a credibilidade e sustentar o crescimento sem repetir práticas que haviam levado o Flamengo à crise. A experiência, afirmou, mostrou que a recuperação exigia disciplina contínua, transparência e disposição para tomar decisões impopulares, mesmo quando a pressão imediata era por resultados dentro de campo.
A luva da Adidas nem esquentou no caixa do Flamengo: Bandeira relembra crise financeira de 2013
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