A disputa política entre Flamengo e Palmeiras ganhou um novo capítulo nos bastidores de Brasília. Só que, desta vez, o debate não envolve arbitragem, Libra, divisão de receitas ou provocações públicas entre dirigentes. O tema agora é estrutural e pode impactar diretamente o futuro do esporte brasileiro. Em meio à discussão sobre a reforma tributária que entrará em vigor a partir de 2027, o Flamengo assumiu protagonismo na articulação política em defesa dos clubes associativos e Leila Pereira segue em silêncio sobre o tema.
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A nova legislação prevê aumento relevante da carga tributária para clubes associativos, justamente aqueles que mantêm modalidades olímpicas, esportes de base e estruturas poliesportivas históricas. Ao mesmo tempo, as SAFs continuarão operando sob regime tributário significativamente mais vantajoso. A diferença criou alerta imediato dentro de instituições como Flamengo, Minas, Pinheiros, Corinthians e outros clubes que dependem do futebol para subsidiar dezenas de modalidades esportivas.
Foi nesse cenário que o Flamengo passou a ocupar linha de frente das negociações políticas.
O Flamengo entra em campo em Brasília
No dia 28 de abril, dirigentes rubro-negros participaram de audiência pública no Senado ao lado de parlamentares, confederações esportivas e representantes do esporte olímpico nacional. O encontro discutiu mecanismos para evitar que clubes associativos sejam sufocados financeiramente pela nova estrutura tributária.
O movimento ganhou força após o senador Alan Rick protocolar PEC que busca incluir clubes e entidades esportivas sem fins lucrativos em regime específico de tributação. Paralelamente, o deputado Roberto Duarte apresentou projeto de lei complementar para equiparar parcialmente a tributação dos clubes associativos ao modelo aplicado às SAFs.
Bap esteve presente nas articulações e deixou clara a posição do Flamengo. Segundo o presidente rubro-negro, a discussão não se trata de privilégio, mas de sobrevivência do esporte olímpico brasileiro. Ele destacou que clubes associativos investem milhões em modalidades que não se sustentam financeiramente sozinhas e dependem diretamente da força econômica do futebol.
O discurso possui enorme peso político porque toca justamente no principal diferencial entre SAFs e clubes associativos.
Enquanto empresas do futebol operam focadas exclusivamente no profissional masculino, instituições tradicionais sustentam ecossistemas esportivos muito mais amplos. Ginástica, remo, natação, basquete, vôlei, atletismo e esportes paralímpicos sobrevivem graças à receita gerada pelo futebol.
Se o custo tributário aumentar drasticamente, a conta inevitavelmente chegará nessas modalidades.
A pergunta que começou a incomodar: onde está Leila?
Foi exatamente nesse ponto que Mauro Cezar levantou uma questão desconfortável durante programa do UOL. Se o Palmeiras também é clube associativo e será afetado diretamente pela reforma tributária, por que Leila Pereira não lidera essa pauta junto ao Flamengo? A pergunta ganhou enorme repercussão porque contrasta diretamente com o comportamento recente da presidente palmeirense.
Nos últimos anos, Leila assumiu protagonismo público em praticamente toda disputa política envolvendo o Flamengo. Transformou embates institucionais da Libra em confronto direto entre Palmeiras e Rubro-Negro, concedeu entrevistas inflamadas e ocupou espaço constante na mídia esportiva nacional.
Só que, diante de uma pauta capaz de afetar estruturalmente o próprio Palmeiras, o silêncio passou a chamar atenção. Mauro Cezar foi direto ao afirmar que Flamengo e Palmeiras poderiam até se odiar politicamente, mas deveriam estar unidos numa discussão que ameaça diretamente os clubes associativos brasileiros.
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A contradição política do momento
Existe uma ironia importante em toda essa história.
Durante o conflito entre Flamengo e Libra, Leila Pereira assumiu posição pública fortíssima, transformando o embate em espécie de cruzada política contra o clube carioca. O tema ocupou entrevistas, coletivas e manchetes durante meses. Agora, quando surge uma pauta muito maior, com impacto permanente sobre o futebol brasileiro e o esporte olímpico nacional, o protagonismo desaparece.
Mauro Cezar destacou que a discussão tributária é infinitamente mais relevante do que o debate sobre parte das receitas de transmissão que mobilizou tanta energia política recentemente. Afinal, enquanto contratos televisivos possuem prazo determinado, a nova estrutura tributária pode alterar permanentemente a sustentabilidade financeira dos clubes associativos.
A observação atinge diretamente o centro da questão. Por que tanta mobilização política para disputas menores e tão pouca atuação pública numa pauta estrutural?
O risco para o esporte olímpico brasileiro
O debate vai muito além do futebol.
O próprio projeto defendido em Brasília prevê contrapartidas ligadas ao investimento em modalidades olímpicas e paralímpicas. A lógica é simples: reduzir a pressão tributária sobre clubes associativos para preservar justamente o modelo que sustenta grande parte do esporte olímpico nacional.
Clubes como Flamengo, Minas e Pinheiros formam atletas, bancam estruturas de treinamento e carregam enorme parte do desenvolvimento esportivo brasileiro. Se essas instituições perderem capacidade financeira, o impacto não ficará restrito ao futebol. Bap chegou a alertar publicamente que modalidades podem deixar de existir caso o futebol não consiga mais subsidiar suas operações.
O alerta não é exagerado.
A história recente do esporte brasileiro mostra diversos clubes reduzindo investimentos ou encerrando modalidades por dificuldades financeiras. Aumento expressivo da carga tributária tende a acelerar ainda mais esse processo.
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O silêncio da imprensa esportiva
Outro ponto levantado durante o debate foi a postura da própria imprensa esportiva brasileira.
Enquanto a discussão sobre reforma tributária avança silenciosamente em Brasília, grande parte da cobertura segue concentrada em polêmicas episódicas, rivalidades artificiais e narrativas de engajamento rápido. A crítica é pertinente porque o tema possui impacto estrutural gigantesco sobre o esporte brasileiro.
Salários, negociações, direitos econômicos, custos operacionais e sustentabilidade de modalidades olímpicas serão diretamente afetados pela nova tributação. Ainda assim, o espaço dedicado ao assunto continua pequeno se comparado ao volume de cobertura destinado a temas muito menos relevantes.
Talvez porque discussões estruturais exijam aprofundamento técnico, análise legislativa e estudo econômico. Já conflitos políticos superficiais geram cortes rápidos, viralização e engajamento imediato.
O Flamengo amplia protagonismo institucional
Independentemente das divergências que desperta, o Flamengo parece ter entendido algo importante antes de muitos concorrentes: as grandes disputas do futebol brasileiro deixaram de acontecer apenas dentro de campo.
Hoje, o poder institucional passa também por Brasília, pelos tribunais, pelos contratos, pelos modelos tributários e pela capacidade de articulação política. Enquanto parte do futebol brasileiro ainda opera reagindo aos acontecimentos, o Flamengo passou a atuar preventivamente em temas estruturais.
E talvez seja justamente isso que torne o silêncio de Leila Pereira ainda mais estranho. Porque, no fim das contas, a reforma tributária ameaça diretamente o Palmeiras tanto quanto ameaça o Flamengo. A diferença é que, neste momento, apenas um dos dois clubes parece disposto a liderar publicamente essa batalha.
Bap participa de evento sobre reforma tributária, e Flamengo e clubes cobram PEC de imunidade fiscal
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