Erica Lopes da Silva não nasceu Gazela Negra. Antes de virar nome de samba, personagem de muro na Gávea, referência do atletismo rubro-negro e símbolo de um Flamengo que vai muito além do futebol, ela foi uma corredora gaúcha que precisou vencer a desconfiança, a distância e o silêncio reservado às mulheres negras no esporte brasileiro. Em entrevista a Tulio Rodrigues e Gilson Lima, no Ser Flamengo, a ex-velocista relembrou como o apelido surgiu depois de uma comparação feita pela imprensa com Wilma Rudolph, campeã olímpica dos 100m e 200m em Roma, e como a alcunha se consolidou porque, segundo ela mesma, “ganhava tudo que entrava”. A história do nome, porém, não é apenas uma curiosidade de bastidor. Ela revela o encontro entre desempenho, identidade, imprensa, raça, memória e Flamengo.
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Nascida em Porto Alegre, em 24 de julho de 1936, Erica Lopes construiu sua trajetória nas provas curtas do atletismo. Especialista nos 100m e 200m rasos, ela já havia mostrado força no Rio Grande do Sul antes de chegar ao Flamengo, clube onde atingiria o auge competitivo. Passou por Internacional e Grêmio, venceu os 100m e os 200m no Troféu Brasil de 1958 como atleta gremista, chegou ao rubro-negro carioca no fim de 1960 e, a partir dali, tornou-se uma das maiores atletas da história do clube. No Fla, conquistou o Troféu Brasil de 1962 e 1965 nas duas provas de velocidade, brilhou no Campeonato Sul-Americano de 1963 e entrou para a Calçada da Fama rubro-negra.
A Gazela Negra, como ficou eternizada, foi recordista sul-americana em 1963 nos 100m, nos 200m e no revezamento 4x100m. Também foi medalhista de bronze nos Jogos Pan-Americanos daquele ano. No Campeonato Sul-Americano, venceu os 100m e os 200m, consolidando uma superioridade que transformou o apelido em verdade esportiva. A imprensa podia ter criado a expressão, mas foi Erica quem deu conteúdo a ela na pista.
A referência estrangeira e a resposta brasileira
Na entrevista, Erica contou que só depois entendeu a origem do apelido. Havia uma atleta norte-americana, Wilma Rudolph, que encantara o mundo nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, vencendo os 100m, os 200m e o revezamento 4x100m. Rudolph era chamada de Gazela Negra. A brasileira, que competia nas mesmas provas individuais e começava a dominar o cenário nacional e continental, foi apresentada pela imprensa como uma resposta local à estrela dos Estados Unidos.
“Eu era a Gazela. Eu fui saber depois que houve esse apelido para uma americana que ganhou na Olimpíada de Roma, os 100m e 200m, que era a minha prova. Aí o jornal O Globo botou em cabeçalho: ‘Nós também temos a nossa Gazela Negra’”, relembrou Erica Lopes.
A frase é forte porque mostra como a imprensa brasileira, ainda muito acostumada a olhar para fora em busca de espelhos, encontrou em Erica uma afirmação nacional. O Brasil também tinha sua velocista negra, elegante, potente e vencedora. A comparação com Wilma Rudolph poderia ter ficado apenas como uma tentativa de encaixar uma atleta brasileira em um molde estrangeiro, mas Erica foi além. Ela não virou uma cópia tropical de ninguém. Tornou-se a Gazela Negra do Flamengo porque seus resultados sustentaram o apelido.
A própria Erica, com a naturalidade de quem sabe o que fez, explicou o motivo de a alcunha ter pegado. “Nós também brasileiros temos a nossa Gazela. Eu ganhava tudo que eu entrava”, disse. A frase tem graça, mas também tem precisão histórica. O apelido não nasceu de uma campanha institucional, de uma estratégia de marketing ou de uma fantasia posterior da torcida. Ele nasceu do desempenho. Erica corria, vencia e impunha uma imagem. A imprensa deu o nome. A pista confirmou.
O Flamengo como território da consagração
O apelido Gazela Negra se consolidou no Flamengo porque o clube foi o palco de seu auge. Erica chegou ao Rio depois de construir seus primeiros feitos no Sul, passou por uma aproximação inicial com o Vasco, mas acabou levada ao Flamengo por uma articulação de Oswaldo Aranha Filho. O presidente rubro-negro, também gaúcho, já sabia dos tempos que ela fazia em Porto Alegre e mandou representantes procurá-la. A jovem atleta ainda não tinha fechado com o Vasco e aceitou conhecer a sede da Gávea.
Esse início é importante porque mostra que a Gazela Negra não apareceu pronta no imaginário rubro-negro. Ela precisou ser descoberta, convencida, recebida e testada. Na sede, encontrou Ary Barroso, personagem histórico da cultura brasileira e da paixão flamenguista, que reagiu com desconfiança às exigências da gaúcha recém-chegada. Erica queria saber onde ficaria, preferia casa de família ou pensionato, não aceitava qualquer condição. Ary, segundo ela, provocou: aquela gaúcha estaria “cheia de goma”.
A resposta veio do jeito mais honesto possível para uma corredora: no Maracanã. Erica chamou Ary Barroso para vê-la competir no sábado e prometeu que ele saberia se ela era boa ou não. Ary foi à bancada do Flamengo. Ela correu, venceu com sobra e, nas palavras dela, “deu um capote” nas adversárias. Depois da prova, Ary desceu da arquibancada, abraçou a atleta e decretou que ela já era do Flamengo.
Esse episódio ajuda a entender a formação simbólica da Gazela Negra. Antes de a imprensa consagrar o apelido, antes de o clube eternizá-la em homenagens, antes de o samba carregar seu nome, houve uma cena de afirmação. Uma mulher negra, vinda de Porto Alegre, precisou convencer um ambiente masculino, carioca e desconfiado de que sua velocidade era real. Não pediu licença durante muito tempo. Chamou para a pista e venceu.
O nome que virou identidade
Apelidos no esporte nem sempre são justos. Às vezes diminuem, caricaturam ou simplificam trajetórias complexas. No caso de Erica Lopes, Gazela Negra virou identidade porque uniu duas dimensões da atleta: a leveza visual da corredora e a potência de uma mulher negra que se impunha em provas de explosão. A gazela sugere velocidade, elegância e fluidez. O adjetivo negra, em uma sociedade que tantas vezes tentou apagar ou limitar o protagonismo de mulheres negras, deu ao nome uma força política que talvez nem a manchete original tivesse calculado.
Erica não fala disso em tom teórico. Ela fala como quem viveu. Quando lembra que ganhava tudo, não está fazendo autopromoção tardia. Está explicando por que o apelido sobreviveu. No esporte, a alcunha só atravessa décadas quando encontra resultado. Se a atleta não vence, o nome vira enfeite. Se vence, vira marca histórica.
No Flamengo, essa marca ganhou ainda mais peso porque o clube sempre produziu mitologias populares. O rubro-negro tem uma capacidade rara de transformar personagens em canto, memória, imagem e devoção. Com Erica, essa construção saiu das pistas e chegou ao repertório afetivo da torcida. Ela virou Gazela Negra não apenas porque correu muito, mas porque o clube a incorporou como símbolo de sua grandeza poliesportiva.
A dor por trás da velocidade
Na mesma entrevista em que explicou a origem do apelido, Erica contou uma das histórias mais duras da carreira. Em uma competição em São Paulo, recebeu a notícia da morte da irmã Zoraide durante a viagem. Mesmo tomada pela perda, não pôde deixar de competir. O Flamengo dependia dela para conquistar o resultado necessário no Troféu Brasil. A corrida dos 200m, prova que precisava vencer, aconteceu no momento do enterro da irmã.
“Eu não podia deixar de comparecer à competição porque senão o Flamengo não ganhava. Eles me deixaram isso bem claro, me deram muito carinho lá. No momento em que eu ia correr a corrida de 200m que eu tinha que ganhar, era o enterro da minha irmã. Mas eu competi e ganhei, e dediquei aquela vitória a ela e ao Flamengo”, contou Erica.
A memória é bonita e cruel ao mesmo tempo. Bonita pela força da atleta, pelo carinho recebido e pela dedicação à irmã. Cruel porque revela a exigência imposta a uma mulher que, mesmo em luto, precisou correr para cumprir uma responsabilidade esportiva. A vitória ajudou o Flamengo a ganhar o Troféu Brasil, mas o custo emocional ficou guardado no corpo e na lembrança da velocista.
Esse episódio também ajuda a compreender por que a Gazela Negra não pode ser tratada apenas como apelido encantador. Há uma vida ali. Há perda, sacrifício, deslocamento, solidão, disciplina e uma relação profunda com o Flamengo. O nome que parece leve carrega dores que o público nem sempre vê. A gazela corria sorrindo, como registrou um jornal venezuelano, mas nem todo sorriso em pista significa ausência de sofrimento.
“Agora eu sou a Erica do Flamengo”
A consolidação continental do apelido veio no Campeonato Sul-Americano de 1963, em Cali, na Colômbia. Erica contou que conhecia treinadores argentinos e uruguaios desde os tempos de Porto Alegre, pela convivência esportiva no Sul. Antes da prova, um treinador argentino teria dito que não havia tempo para ela bater o recorde sul-americano, já que uma adversária havia melhorado a marca pouco antes. A resposta de Erica foi uma das frases mais fortes da entrevista: “Não fala isso. Você não me viu correr. Agora eu sou a Erica do Flamengo”.
A frase merece atenção porque mostra a fusão entre atleta e clube. Erica não disse apenas que estava mais forte, mais treinada ou mais preparada. Disse que agora era a Erica do Flamengo. A camisa rubro-negra funcionava como identidade competitiva, como combustível e como afirmação diante de adversárias continentais.
Na semifinal, segundo seu relato, bateu o recorde sul-americano. Na final, melhorou a marca. A imagem celebrizada, aquela em que aparece esperando o resultado no painel ao lado do treinador argentino, virou memória viva. Quando o resultado apareceu, ela pulou, levou a mão ao corpo, foi tomada pela surpresa e pela felicidade. O estádio vibrou, as delegações celebraram e a própria adversária argentina teria reconhecido que não conseguiria fazer o tempo alcançado pela brasileira.
“Foi uma festa grande”, lembrou Erica. Ela contou que a fotografia daquele instante ficou celebrizada porque sua felicidade foi tão intensa quanto sua surpresa. Na semifinal, já havia batido o recorde. Na final, melhorou. A vantagem, segundo a ex-atleta, foi enorme. A Gazela Negra não venceu por detalhe. Venceu com autoridade.
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O apelido que encontrou sua prova definitiva
A partir dali, o apelido deixou de ser comparação e virou propriedade histórica. Wilma Rudolph havia sido a Gazela Negra olímpica de Roma. Erica Lopes se tornou a Gazela Negra brasileira, rubro-negra, sul-americana, uma velocista que carregava no nome a memória de uma geração que viu mulheres negras rompendo limites nas pistas. A diferença é que Erica não ficou presa à sombra da referência estrangeira. Ela criou sua própria mitologia dentro do Flamengo.
O Sul-Americano de 1963 foi decisivo porque deu dimensão continental à sua imagem. Vencer os 100m e os 200m, bater recordes e ser celebrada por adversárias transformou a alcunha em título simbólico. A imprensa podia chamá-la de Gazela Negra, mas agora a América do Sul via por quê. Sua velocidade não era lenda de clube, exagero de torcida ou entusiasmo local. Era fato esportivo.
O Flamengo também cresceu nessa narrativa. Ao dizer “agora eu sou a Erica do Flamengo”, ela levou o clube para o cenário internacional do atletismo. A camisa rubro-negra apareceu associada a recorde, vitória e admiração continental. Em um tempo em que o futebol já ocupava o centro emocional do clube, Erica ajudava a mostrar que o Flamengo também podia ser grande nas pistas.
Essa parte da história precisa ser lembrada com mais força. O Flamengo não é apenas um time de futebol que teve outros esportes como acessórios. É um clube que produziu atletas marcantes em diferentes modalidades. Erica Lopes é prova disso. Quando sua imagem aparece no muro da Gávea ou quando seu nome é citado em homenagens, não se trata de ornamento nostálgico. Trata-se de justiça histórica.
Ary Barroso, o muro da Gávea e a memória que fecha um círculo
A entrevista também trouxe um detalhe simbólico sobre a homenagem no muro da Gávea. Erica contou que a filha recebeu o aviso e a levou ao local sem revelar a surpresa. Ao se ver retratada, percebeu que estava perto de Ary Barroso. A proximidade tinha significado. Ary havia sido, segundo ela, contrário à sua ida para o Flamengo no início, ou ao menos desconfiado daquela gaúcha exigente. Depois da prova no Maracanã, porém, ele se rendeu e decretou que ela era do Flamengo.
“Até na morte ele ficou perto de mim”, brincou Erica, lembrando que Ary gostou muito dela e se tornou amigo. A frase é cheia de humor, mas também fecha um ciclo. O homem que duvidou viu a resposta na pista. A atleta que precisou provar valor virou imagem no muro, próxima justamente a ele. A história encontrou uma forma de se organizar na memória rubro-negra.
Essa cena também mostra como o Flamengo constrói seus símbolos. O clube reúne no mesmo espaço personagens de naturezas diferentes: compositores, dirigentes, atletas, ídolos do futebol, nomes do remo, do atletismo e de outras modalidades. Quando Erica aparece ali, não está apenas sendo lembrada. Está sendo colocada no mapa afetivo do clube, ao lado de figuras que ajudaram a fazer do Flamengo uma força cultural.
O problema é que a homenagem visual, embora importante, não basta. Erica Lopes precisa ser contada. Sua história deve circular em textos, vídeos, escolas, museus, transmissões, programas e conversas de arquibancada. A Gazela Negra não pode ser reduzida a uma imagem bonita para quem passa pela sede. Ela precisa ser reconhecida como atleta completa, mulher pioneira, campeã continental e personagem de um Flamengo poliesportivo que muita gente ainda conhece pouco.
ENTREVISTA COMPLETA:
A felicidade de ser Flamengo
Ao fim do trecho, Erica fala de sua vida com a naturalidade de quem atravessou muitos mundos. Conta que sempre foi comunicativa, que se casou na igreja com um lado de torcedores do Vasco e outro do Flamengo, que conviveu com jogadores, lutadores e amigos dos dois clubes, que viajou a Portugal, criou laços e manteve amizades no esporte. Também diz que não frequenta mais o clube como antes por dificuldade de locomoção, mas segue ligada por afeto.
“Eu sempre fui feliz de ser Flamengo”, afirmou. A frase parece simples, mas resume uma trajetória inteira. Erica chegou ao clube após uma disputa silenciosa com o Vasco, enfrentou desconfiança, venceu provas, virou Gazela Negra, perdeu a irmã em meio a uma competição, bateu recordes no Sul-Americano, foi homenageada em mural, tornou-se memória viva e ainda fala do rubro-negro com encanto.
A felicidade de Erica, porém, não deve ser usada para suavizar a crítica. A história dela é bonita justamente porque também é dura. Ela mostra como o esporte brasileiro dependeu de mulheres que fizeram muito com pouco, de atletas que carregaram o país e os clubes em tempos de menor estrutura, de personagens que só depois de décadas receberam parte do reconhecimento merecido. O Flamengo tem em Erica Lopes uma de suas maiores histórias, mas ainda precisa fazer com que essa memória seja conhecida por novas gerações.
A Gazela Negra nasceu de uma manchete, mas sobreviveu porque Erica correu mais do que o apelido. A imprensa viu nela uma versão brasileira de Wilma Rudolph; o Flamengo viu uma atleta capaz de decidir competições; a América do Sul viu uma campeã que batia recordes; a torcida passou a enxergar uma lenda. O nome ficou porque havia grandeza por trás dele.
No fim, a pergunta não é apenas como Erica Lopes se tornou Gazela Negra. A pergunta mais profunda é por que ainda conhecemos tão pouco as mulheres que fizeram o Flamengo ser Flamengo fora do futebol. Erica respondeu na pista, no Maracanã, em Cali, no Troféu Brasil e na memória. Cabe agora ao clube, à torcida e ao jornalismo responderem com permanência, para que a Gazela Negra não seja lembrada apenas como apelido, mas como uma das maiores atletas que já vestiram o vermelho e preto.
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