A cada rodada do futebol brasileiro, especialmente quando Flamengo e Palmeiras aparecem no centro das disputas esportivas e políticas, parte da imprensa insiste em construir uma narrativa de equivalência que não resiste à observação mais cuidadosa dos fatos. A tentativa de colocar no mesmo patamar as falas institucionais do Fla sobre pautas estruturais do futebol e a pressão recorrente do Palmeiras sobre arbitragem virou um mecanismo quase automático de cobertura, uma espécie de falsa simetria que dilui responsabilidades e transforma comportamentos completamente distintos em uma suposta “guerra de narrativas” equilibrada.
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O problema não está em reconhecer que Flamengo e Palmeiras disputam protagonismo esportivo, político e econômico no futebol brasileiro. Isso é evidente e faz parte do cenário atual. O problema começa quando se tenta vender a ideia de que ambos operam da mesma maneira nos bastidores, especialmente quando o assunto é arbitragem. Não operam. E tratar isso como se fosse igual não é análise, é distorção.
Nos debates recentes do programa De Primeira, do UOL, essa construção voltou a aparecer quando comentaristas relacionaram declarações de Abel Ferreira sobre arbitragem e insinuações em relação a jogos do Flamengo com falas de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente rubro-negro, sobre fair play financeiro, SAF, gramado sintético e organização estrutural do futebol brasileiro . A comparação parece conveniente, mas ignora o essencial: são temas diferentes, com propósitos diferentes e impactos completamente distintos.
Arbitragem não é o mesmo que debate estrutural
É preciso começar pelo ponto mais básico. Quando Abel Ferreira fala de arbitragem, especialmente em coletivas pós-jogo ou antes de partidas decisivas, ele não está promovendo uma discussão institucional sobre o futebol brasileiro. Ele está pressionando o ambiente competitivo imediato. Está falando com árbitros, com STJD, com opinião pública e com o próximo jogo.
Quando o técnico palmeirense ironiza decisões, insinua favorecimentos ou sugere que seria expulso se estivesse em determinada partida envolvendo o Flamengo, ele está praticando um método já consolidado de tensão prévia e posterior sobre a arbitragem .
Isso é completamente diferente de um dirigente como Bap discutir fair play financeiro, o modelo de SAF no Brasil, os efeitos econômicos do gramado sintético ou a necessidade de reformas estruturais no futebol nacional.
Pode haver provocação? Sim, evidentemente pode. Quando Bap fala em “gramado de plástico”, por exemplo, há uma clara alfinetada indireta ao Palmeiras e à defesa pública que Leila Pereira faz desse modelo. Mas ainda assim estamos falando de um debate estrutural, sobre modelo de gestão e impacto esportivo. Não é arbitragem.
Misturar essas duas coisas é misturar alhos com bugalhos.
O método palmeirense não é eventual, é recorrente
Outro ponto central é a recorrência. Um método só pode ser chamado de método quando ele se repete com frequência e intenção clara.
E isso aparece no comportamento do Palmeiras com enorme nitidez.
Não é uma declaração isolada. Não é uma fala eventual após um erro grave de arbitragem. É uma sequência contínua que envolve Abel Ferreira, Leila Pereira, Anderson Barros e, em diferentes momentos, jogadores e dirigentes.
Antes do jogo, durante o jogo e depois do jogo.
Se não é uma coletiva, é uma entrevista. Se não é uma declaração institucional, é uma indireta em zona mista. Se não é um protesto formal, é uma narrativa pública construída para pressionar o ambiente. Esse padrão se tornou parte da estratégia política do clube. Já no Flamengo, essa frequência simplesmente não existe. Há falas pontuais de José Boto, há posicionamentos institucionais de Bap e há episódios específicos de reação, mas não há o mesmo padrão repetitivo e obsessivo em torno da arbitragem jogo após jogo .
Dizer que “os dois fazem igual” ignora justamente o que define a diferença: a constância.
A imprensa transforma tudo em equivalência conveniente
O que chama atenção é como parte da cobertura insiste em emparelhar esses comportamentos.
No debate citado, comentaristas afirmam que Palmeiras e Flamengo “se marcam o tempo todo” e que ambos fazem isso de forma preventiva para controlar narrativas . Em tese, a frase parece equilibrada. Na prática, ela serve para suavizar a diferença entre um clube que pressiona arbitragem sistematicamente e outro que discute pautas institucionais mais amplas.
Essa falsa equivalência cria um conforto analítico: ninguém precisa apontar excessos específicos porque tudo vira “disputa de bastidor”. É um recurso muito comum no jornalismo esportivo brasileiro. Em vez de enfrentar o mérito da crítica, cria-se uma neutralidade artificial onde todos parecem igualmente culpados.
Mas neutralidade fabricada não é imparcialidade. Muitas vezes é apenas covardia editorial.
O caso do Bap e a distorção do contexto
As falas recentes de Bap em eventos como o da Confederação Brasileira de Clubes foram rapidamente encaixadas nessa narrativa de confronto com o Palmeiras. Ali, o presidente do Flamengo falou sobre liga, fair play financeiro, gramados e sustentabilidade do futebol nacional .
Pode-se discordar das posições dele, e isso faz parte do debate. O que não faz sentido é transformar automaticamente esse conteúdo em equivalente direto à pressão pública sobre arbitragem. Quando um dirigente discute fair play financeiro, ele está tratando de um problema sistêmico que afeta todo o ecossistema do futebol brasileiro. Quando um técnico fala sobre expulsões não aplicadas ao adversário, ele está interferindo no ambiente competitivo imediato.
São camadas distintas. A imprensa sabe disso, mas muitas vezes escolhe simplificar porque a narrativa de rivalidade vende mais do que a complexidade institucional.
TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:
Palmeiras fala de arbitragem, Flamengo fala de modelo
Há uma diferença conceitual que precisa ser respeitada.
O Palmeiras, quando entra no debate estrutural, frequentemente o faz para reagir ao Flamengo ou para defender seus próprios interesses de forma pontual. Não há protagonismo consistente em pautas como fair play financeiro, reorganização sistêmica da liga ou padronização nacional de gramados.
Já o Flamengo, goste-se ou não de suas posições, tem atuado nesses debates de forma mais constante. Isso não transforma o clube em santo, nem faz de sua diretoria um exemplo absoluto de virtude. Apenas impede a caricatura de que tudo é a mesma coisa. Não é. E reconhecer isso não é clubismo. É descrição objetiva.
A falsa simetria como blindagem narrativa
Talvez o aspecto mais grave seja justamente esse: ao tratar tudo como equivalente, parte da imprensa ajuda a blindar o método mais agressivo. Se tudo é igual, ninguém precisa responder pelo excesso. Se toda fala é “alfinetada”, desaparece a diferença entre debater fair play financeiro e constranger arbitragem rodada após rodada.
Se toda rivalidade institucional é a mesma coisa, a pressão sistemática vira apenas “estratégia de bastidor”. Essa é a lógica da falsa simetria. Ela não busca esclarecer. Ela busca neutralizar. E quando isso acontece, a análise deixa de servir ao entendimento e passa a servir à manutenção confortável de uma narrativa.
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O futebol brasileiro precisa de mais precisão e menos preguiça analítica
Debater Flamengo e Palmeiras exige mais do que frases prontas sobre rivalidade e disputa de poder. Exige distinguir natureza, frequência e intenção de cada movimento. Não se trata de defender um lado ou demonizar o outro. Trata-se de evitar que a cobertura transforme fatos objetivos em equivalências artificiais.
Abel Ferreira faz pressão recorrente sobre arbitragem. Isso é um fato. Bap fala de temas estruturais com provocações políticas embutidas. Isso também é um fato. Colocar ambas as coisas como se fossem exatamente a mesma estratégia é um erro analítico. E insistir nesse erro, especialmente quando ele já se tornou padrão, deixa de ser apenas desatenção. Passa a ser escolha editorial.
No futebol brasileiro, muitas vezes a falsa simetria não nasce da busca por justiça. Ela nasce do medo de dizer com clareza quem realmente está fazendo o quê. E esse silêncio disfarçado de equilíbrio costuma ser uma das formas mais sofisticadas de tomar partido.
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