Flamengo avança com projeto de R$ 500 milhões na Gávea: o que vai acontecer com a arquibancada?

A licença concedida pela Prefeitura do Rio em setembro colocou o projeto de transformação da Gávea em uma etapa mais concreta, mas ainda há decisões importantes antes do início das obras. O empreendimento, estimado em R$ 500 milhões, prevê dois hotéis de quatro estrelas, um shopping com 82 lojas e ocupa justamente a área onde hoje estão as arquibancadas do Estádio José Bastos Padilha. XP e BTG aparecem como os nomes mais cotados para estruturar o financiamento, enquanto a futura rede hoteleira ainda será definida.
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O avanço, porém, recoloca uma discussão que vai além do investimento. A arquibancada da Gávea é uma estrutura construída em 1938 e já passou por obras de recuperação estrutural. Em 2023, o Flamengo investiu R$ 4,5 milhões para recuperar o concreto e a ferragem, com a previsão de prolongar a vida útil da estrutura por décadas.
É justamente nesse ponto que o novo projeto ganha uma dimensão histórica. Antes de os hotéis de R$ 500 milhões entrarem em cena, o Flamengo já havia apresentado aos conselheiros, em abril de 2023, o projeto Gávea Século XXI. A proposta também previa um hotel e uma reformulação do estádio, mas com uma configuração diferente da atual. Naquele desenho, a arquibancada seria retirada para dar lugar a uma nova estrutura esportiva.
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O projeto de R$ 500 milhões
A proposta atual prevê duas torres de dez andares, com 348 quartos e 536 vagas de estacionamento. O complexo também terá um centro comercial com 82 lojas. A ideia inicial era construir um hotel de cinco estrelas, mas o projeto foi alterado para duas unidades de quatro estrelas, ampliando a capacidade do empreendimento.
A licença municipal representa um passo relevante, mas não significa que as máquinas estejam prontas para entrar na Gávea. A principal definição pendente é financeira. De acordo com as informações divulgadas por Lauro Jardim e reproduzidas sobre o projeto, XP e BTG Pactual analisam a operação e aparecem como favoritos para estruturar o financiamento. Somente depois dessa etapa será escolhida a rede responsável pela operação hoteleira.
O modelo, portanto, ainda precisa percorrer etapas internas no Flamengo. A definição da empresa responsável pela operação e a estruturação financeira deverão passar pelo Conselho Deliberativo, conforme as regras internas do clube e a configuração final do negócio. Também será necessário conhecer com maior precisão o desenho arquitetônico definitivo para entender como cada equipamento será distribuído dentro da sede.
O que acontecerá com a arquibancada?
É aqui que o projeto desperta uma discussão que não pode ser tratada apenas como questão imobiliária. A arquibancada do estádio José Bastos Padilha foi erguida em 4 de setembro de 1938 e faz parte da memória física do Flamengo. Durante décadas, aquele espaço recebeu partidas do futebol rubro-negro e até grandes eventos. Em 2023, quando estava interditada para recuperação, o próprio clube tratava a estrutura como passível de recuperação, não como uma construção condenada.
O projeto apresentado em 2023 ajuda a compreender a dimensão da mudança. O Gávea Século XXI, apresentado durante uma reunião do Conselho Deliberativo, previa investimento de aproximadamente R$ 152 milhões, hotel temático, estacionamento subterrâneo, museu, novas quadras e um miniestádio para cerca de 2 mil pessoas. Naquele desenho, entretanto, a arquibancada histórica seria demolida.
Há, portanto, uma continuidade na intenção de transformar economicamente a sede, mas não necessariamente nos detalhes da solução. O projeto anterior era uma revitalização ampla, com hotel e equipamento esportivo; o atual concentra boa parte da operação em um complexo hoteleiro e comercial de R$ 500 milhões. A diferença de escala também é significativa.
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A Gávea Século XXI como antecedente
O projeto de 2023 nunca chegou à fase de execução. Na ocasião, ainda era uma proposta que precisaria avançar por outras instâncias do clube antes de qualquer obra. A ideia era utilizar a exploração comercial do empreendimento para financiar a transformação da sede sem gerar ônus direto ao Flamengo.
A apresentação daquele plano mostra que a discussão sobre novos usos para a Gávea não começou na gestão atual. O clube já estudava maneiras de transformar um patrimônio histórico em uma fonte permanente de receitas, aproveitando a localização privilegiada da sede e a força da marca Flamengo.
Agora, a questão ganha outro contorno. O projeto recebeu licença da Prefeitura e tem valor estimado muito superior ao apresentado três anos atrás. A decisão sobre a arquibancada, por isso, passa a ser um dos pontos que merecem maior atenção quando o desenho definitivo for submetido aos órgãos internos do clube.
Não basta saber que haverá dois hotéis onde hoje estão as arquibancadas. É preciso entender o projeto arquitetônico completo, a posição das torres, a circulação dentro da sede, o destino do campo e, principalmente, se a estrutura histórica será efetivamente demolida ou se existe alguma solução que permita preservá-la. Sem essa informação, qualquer conclusão sobre o impacto da obra seria precipitada.
A transformação da Gávea, dessa forma, envolve duas questões diferentes, mas inseparáveis. De um lado, existe um empreendimento de R$ 500 milhões que pode criar uma nova fonte de receitas para o Flamengo e modificar profundamente a utilização de uma das áreas mais tradicionais do clube. De outro, está um patrimônio construído há quase nove décadas, cuja preservação ou substituição terá inevitavelmente um peso simbólico para a história rubro-negra. O projeto ainda precisa avançar, e as próximas decisões, especialmente sobre financiamento, operador e desenho definitivo, serão determinantes para saber que Gávea o Flamengo pretende construir para as próximas décadas.
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