Flamengo como marca: como o clube se tornou a maior identidade esportiva do Brasil
O Flamengo deixou de ser apenas um clube esportivo para se consolidar como um dos principais ativos simbólicos do país. Essa constatação não nasce de slogans publicitários nem de discursos internos, mas de análises recentes feitas por especialistas em marketing, branding e comunicação, que passaram a observar o rubro-negro como um fenômeno de marca orgânica, com escala nacional e presença emocional rara no esporte brasileiro. Em um cenário no qual clubes disputam atenção e relevância, o Rubro-Negro opera em outra camada: a do imaginário coletivo.
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A discussão ganhou fôlego a partir de conteúdos produzidos por perfis especializados em estratégia de marca, como a Ether Company, que provocou o mercado ao afirmar que o Flamengo “não é mais só um clube, mas uma identidade nacional”. A afirmação, longe de ser exagero retórico, encontra respaldo em números, história e comportamento social. Segundo dados recorrentes em pesquisas de torcida, cerca de 21% da população brasileira declara torcer pelo Fla, com um dado ainda mais revelador: aproximadamente 63% desses torcedores vivem fora da região Sudeste. Trata-se de uma torcida que não depende da geografia, mas de identificação cultural.
Esse fenômeno não pode ser explicado de forma simplista, como ainda se tenta fazer ao reduzir a popularidade rubro-negra à exposição em televisão aberta. Quando a TV Globo surge, nos anos 1960, o Flamengo já era um clube de massa, impulsionado por décadas de protagonismo esportivo, presença no rádio e uma relação intensa com o público popular. Vasco, Fluminense, Botafogo e outros grandes também tiveram espaço em rádio e televisão. O crescimento flamenguista passa por outro caminho: a construção contínua de símbolos, narrativas e rituais que atravessaram gerações.
A década de 2000 ajuda a entender a solidez desse vínculo. Entre crises políticas, dívidas, vexames esportivos e recorrentes ameaças de rebaixamento, o Flamengo viveu talvez o período mais delicado de sua história recente. Em 2013, o clube acumulava cerca de 750 milhões de reais em dívidas, tinha um elenco pouco competitivo e carregava o estigma de gestão caótica. Ser flamenguista, naquele momento, não era moda, nem tendência. Em muitos casos, era constrangimento público, alimentado por manchetes que extrapolavam o esporte e alcançavam páginas policiais e editoriais econômicos.
A virada começa justamente quando o clube decide pagar a conta. Ao longo da década seguinte, mais de um bilhão de reais em dívidas foi equacionado, enquanto uma política de austeridade abriu caminho para reorganização administrativa, fortalecimento institucional e, posteriormente, investimento esportivo. O sucesso em campo veio depois, não antes. E, quando chegou, encontrou uma base social intacta, pronta para ocupar ruas, avenidas e praças em todo o país, como se viu nas comemorações recentes da Libertadores, protagonizadas espontaneamente por torcedores em dezenas de estados.
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É nesse ponto que a análise de marca se torna relevante. O Flamengo não monetiza apenas produtos ou ingressos, mas pertencimento. O clube transformou paixão em ativo econômico por meio de um ecossistema que envolve licenciamento, sócio-torcedor, presença digital, lojas físicas e experiências. Apenas em licenciamento, a receita anual gira em torno de dezenas de milhões de reais, com parcerias que vão de grandes marcas do vestuário a colaborações com plataformas de streaming, games e produções audiovisuais. Nas redes sociais, o Flamengo ultrapassa 75 milhões de seguidores, número comparável a clubes europeus de elite.
A estrutura física reforça essa lógica. São mais de 180 lojas oficiais espalhadas pelo Brasil e no exterior, levando o escudo rubro-negro para o cotidiano do torcedor. O museu do clube, inaugurado em 2023, recebe cerca de 150 mil visitantes por ano, superando com folga espaços tradicionais de clubes centenários. Não se trata apenas de exposição de troféus, mas de narrativa histórica organizada como experiência, transformando memória em autoridade simbólica.
Especialistas em branding costumam afirmar que marcas fortes não vivem de mídia paga, mas de pontos de contato consistentes. O clube opera exatamente assim. Seu escudo funciona como sistema de reconhecimento imediato, as cores vermelho e preto carregam códigos emocionais claros e a comunicação institucional, especialmente a partir da década passada, passou a reforçar uma ideia central: o Flamengo como marca global. Não por acaso, expressões como “o mais querido do mundo” deixaram de ser bravata e passaram a orientar campanhas, lançamentos e posicionamento internacional, inclusive com conteúdos em outros idiomas e ações fora do país.
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Essa construção se aproxima do conceito que o marketing chama de “culto de marca”. Empresas como Apple, Harley-Davidson e Tesla são frequentemente citadas como exemplos de negócios que não vendem apenas produtos, mas pertencimento. O Flamengo, guardadas as proporções e o contexto esportivo, opera na mesma lógica. O torcedor não apenas consome, ele segue, defende, evangeliza. Há rituais, símbolos, narrativas de superação e uma identidade coletiva que se sobrepõe aos resultados imediatos.
Isso não significa ausência de rivalidade ou impossibilidade de outros clubes construírem projetos sólidos. Corinthians, Palmeiras, Vasco e tantos outros possuem histórias riquíssimas e bases populares relevantes. O que diferencia o Flamengo é a combinação entre escala nacional, continuidade simbólica e capacidade de transformar emoção em estrutura. Não é uma questão de títulos isolados, nem de ciclos esportivos. É um processo de décadas, que atravessou vitórias, derrotas e crises profundas sem romper o elo com sua comunidade.
Ao final, a principal lição não é apenas para o futebol, mas para qualquer marca que aspire relevância duradoura. Audiência pode ser comprada. Comunidade, não. O Flamengo não disputa apenas campeonatos. Disputa sentidos, pertencimento e memória. E é por isso que, quando entra em campo, nunca joga sozinho.
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Por Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)
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