O Flamengo voltou ao centro de um debate estrutural do futebol brasileiro ao cobrar da Libra uma correção no contrato de direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. O movimento, que busca evitar prejuízo financeiro para todos os clubes do bloco, acabou gerando uma reação curiosa: uma enxurrada de comentários nas redes sociais direcionando críticas ao próprio Rubro-Negro, como se a iniciativa fosse mais um gesto de interesse exclusivo, e não uma tentativa de correção de um erro coletivo.
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O contrato firmado com a Globo estabelece um valor bruto de R$ 1,170 bilhão, sujeito a descontos tributários, dividido entre os clubes da Libra na Série A. O ponto central do problema é conhecido. O acordo prevê redução automática de receita se um clube do grupo for rebaixado, mas não contempla qualquer reajuste em caso de aumento no número de participantes. Em 2026, com o acesso do Remo, o grupo passa a ter dez clubes na elite. O montante permanece congelado. A divisão aumenta. Todos perdem.
Segundo projeções internas da própria entidade, a perda média pode chegar a cerca de R$ 10 milhões por clube ao ano, variando conforme critérios de audiência e desempenho esportivo. Ainda assim, boa parte dos comentários que circularam após a publicação da cobrança do Flamengo ignorou completamente esse dado. Em vez disso, a narrativa dominante passou a tratar o episódio como uma suposta tentativa rubro-negra de “tirar dinheiro do Remo” ou de “aumentar sua fatia às custas dos menores”.
Esse tipo de reação aparece de forma recorrente. Há quem trate o Flamengo como vilão, independentemente do conteúdo do debate. Outros recorrem a argumentos genéricos sobre desigualdade no futebol brasileiro, como se a correção de um contrato específico fosse equivalente à defesa de privilégios históricos. Em comum, os comentários pouco dialogam com o fato central: manter o contrato como está significa prejuízo objetivo para todos os clubes da Libra, inclusive aqueles cujos torcedores hoje criticam a iniciativa.
O contraste entre o barulho das redes e o silêncio institucional é evidente. Nenhum dos clubes que também perderão receita se manifestou publicamente. Palmeiras, São Paulo, Grêmio, Red Bull Bragantino e outros integrantes da Libra permanecem calados. Não há nota conjunta, não há cobrança pública, não há sequer um gesto simbólico de alinhamento. O Flamengo, mais uma vez, assume sozinho o desgaste de pautar um problema estrutural.
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Parte da imprensa acompanha esse movimento com a mesma lógica distorcida vista nos comentários. Quando o Flamengo questiona critérios de audiência ou divisão variável, surge rapidamente o rótulo de individualismo. Agora, diante de uma cobrança que preserva o interesse coletivo, o enquadramento crítico desaparece. O debate é empurrado para o terreno do clubismo, onde o mérito da discussão perde espaço para a rejeição automática ao emissor da mensagem.
A transcrição dos comentários revela algo ainda mais profundo: a dificuldade de separar antipatia institucional de análise racional. Pouco importa que o reajuste beneficie todos. Pouco importa que o Remo, apontado equivocadamente como prejudicado, também ganharia com a correção do contrato. O simples fato de o Flamengo liderar a cobrança parece suficiente para invalidar o argumento aos olhos de muitos.
Esse ruído não é casual. Ele dialoga com uma cultura esportiva que prefere narrativas simplificadas a debates estruturais. Em vez de discutir governança, contratos e sustentabilidade financeira, opta-se por repetir clichês sobre “clubes grandes contra pequenos”, mesmo quando os números mostram outra realidade. O resultado é um ambiente em que corrigir erros vira afronta e defender o coletivo soa como provocação.
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O episódio escancara uma contradição antiga. O Flamengo, tantas vezes acusado de agir apenas em causa própria, hoje se move para evitar uma perda generalizada. Em resposta, recebe silêncio das diretorias, distorção no debate público e comentários que transformam um problema técnico em disputa emocional. Enquanto isso, o erro contratual segue sem solução, e o prejuízo, silencioso, se aproxima.
No fim, o caso diz menos sobre o Flamengo e mais sobre o futebol brasileiro. Um ambiente em que o debate racional cede espaço ao ruído, a defesa do interesse comum incomoda e a reação imediata vale mais do que os fatos. A conta, como quase sempre, será coletiva mesmo para quem hoje prefere aplaudir o silêncio.
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