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Flamengo deve R$ 614,5 milhões por atletas, mas tem R$ 310,5 milhões a receber

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Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

O Flamengo encerrou o segundo trimestre de 2026 com R$ 614,5 milhões em obrigações relacionadas à aquisição de jogadores e R$ 310,5 milhões a receber por negociações realizadas nos últimos anos. A diferença entre os dois lados do balanço produz uma dívida líquida de R$ 304 milhões com atletas, valor que representa os compromissos futuros do clube depois de descontados os créditos originados pelas vendas. Os números retratam o impacto do investimento recorde feito no elenco, mas não correspondem a um empréstimo bancário vencido nem indicam que todo o montante precise ser pago imediatamente.


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As demonstrações financeiras referentes a 30 de junho mostram um clube que ocupa simultaneamente os papéis de comprador e vendedor. O Flamengo parcela as contratações feitas com outras equipes, agentes e jogadores, enquanto também recebe em etapas os valores negociados nas transferências de seus atletas. A leitura correta exige observar quanto existe de cada lado, quais parcelas vencem no curto prazo e quais compromissos permanecem para os exercícios seguintes.

O que está incluído nos R$ 614,5 milhões

A expressão “transferência de jogadores”, usada no balanço, não reúne apenas valores devidos aos clubes vendedores. O saldo também pode incluir luvas acertadas com os atletas e comissões de intermediação ligadas às operações. Os pagamentos são normalmente parcelados de acordo com os contratos firmados entre as partes, prática comum no mercado do futebol.

Por isso, os R$ 614,5 milhões não devem ser apresentados como dívida bancária, cheque especial ou compromisso integralmente atrasado. Trata-se de uma obrigação operacional formada pelas compras realizadas pelo Flamengo, com diferentes datas de vencimento. O total subiu em relação aos R$ 497,3 milhões registrados no encerramento de 2025, principalmente em razão dos investimentos promovidos durante a primeira janela de 2026.

Lucas Paquetá concentra o maior saldo individual, com R$ 191,1 milhões ainda a pagar. Samuel Lino aparece em seguida, com R$ 121,5 milhões. As demais obrigações destacadas pelo clube são referentes a Emerson Royal, R$ 47,2 milhões; Jorge Carrascal, R$ 36,7 milhões; Carlos Alcaraz, R$ 36,3 milhões; e Matías Viña, R$ 32,2 milhões. Somados, esses seis jogadores representam aproximadamente R$ 465,1 milhões, mais de três quartos do total relacionado às aquisições.

Os saldos não correspondem necessariamente aos preços divulgados na época das contratações. Uma operação internacional pode envolver impostos, luvas, agentes e outros encargos que ampliam o custo registrado. Também é possível que parte do valor já tenha sido quitada, restando no balanço somente aquilo que ainda precisa ser pago.

Quase metade vence no curto prazo

Dos R$ 614,5 milhões, cerca de R$ 312 milhões foram classificados como passivo circulante. Em linguagem simples, são compromissos com vencimento previsto nos 12 meses seguintes ao fechamento das demonstrações. Os outros R$ 302,5 milhões aparecem no não circulante, grupo utilizado para parcelas que deverão ser liquidadas depois desse período.

A divisão mostra que o Flamengo não precisa desembolsar os R$ 614,5 milhões de uma só vez, mas terá uma pressão relevante sobre o caixa até meados de 2027. O balanço não apresenta o calendário individual de cada aquisição. Dessa forma, não é possível afirmar quanto será pago em cada mês ou quais prestações pertencem especificamente a Paquetá, Samuel Lino e aos demais atletas.

Essa limitação impede uma avaliação completa do risco de concentração. Dois clubes podem ter o mesmo valor classificado no curto prazo e enfrentar situações distintas, dependendo da distribuição das parcelas ao longo do ano. Pagamentos diluídos mensalmente produzem uma exigência diferente daquela criada por grandes vencimentos reunidos em uma única janela.

Flamengo tem R$ 310,5 milhões a receber

O outro lado da conta é formado pelas vendas parceladas. O Flamengo possuía R$ 310,5 milhões a receber pela transferência de jogadores, diante de R$ 279 milhões no encerramento de 2025. Esse crescimento foi impulsionado principalmente pela negociação de Ryan Dantas com o Shakhtar Donetsk durante o segundo trimestre.

Wesley, vendido à Roma, mantinha o maior crédito individual, com saldo de R$ 88 milhões. Ryan Dantas aparecia com R$ 56,2 milhões a receber do clube ucraniano, enquanto Carlos Alcaraz deixou R$ 55,3 milhões referentes à transferência para o Everton. A negociação de Matheus Gonçalves com o Al-Ahli ainda representava R$ 32,2 milhões. Juntos, os quatro casos correspondiam a aproximadamente R$ 231,7 milhões.

Do total a receber, R$ 177,2 milhões estavam registrados no ativo circulante, com expectativa de entrada nos 12 meses seguintes. Outros R$ 133,4 milhões seriam recebidos no longo prazo. A classificação demonstra que parte importante dos créditos não estará disponível imediatamente para pagar as aquisições feitas pelo Flamengo.

Como se chega à dívida líquida de R$ 304 milhões

O cálculo é direto: dos R$ 614,5 milhões a pagar, são descontados os R$ 310,5 milhões a receber. O resultado é uma exposição líquida de aproximadamente R$ 304 milhões.

No curto prazo, o Flamengo possui R$ 312 milhões em obrigações e R$ 177,2 milhões em créditos, diferença de R$ 134,8 milhões. No longo prazo, são R$ 302,5 milhões a pagar diante de R$ 133,4 milhões a receber, produzindo um saldo negativo próximo de R$ 169,2 milhões. A soma das duas faixas forma o indicador divulgado pela administração.

A dívida líquida caiu diante dos R$ 393,9 milhões registrados ao final do primeiro trimestre. A redução de quase R$ 90 milhões foi provocada pelos pagamentos efetuados entre abril e junho e pelas novas vendas reconhecidas no período. O Flamengo informa que o indicador equivale a 14,1% da receita total dos últimos 12 meses e considera esse patamar saudável. Essa avaliação representa a posição da própria administração, não uma garantia de que os compromissos futuros sejam irrelevantes.

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O ponto de atenção está no fluxo de caixa

A existência de R$ 310,5 milhões a receber reduz a exposição econômica, mas não permite imaginar uma compensação automática. O Flamengo não pode simplesmente subtrair os créditos das dívidas e ignorar os vencimentos, pois os pagamentos das compras e os recebimentos das vendas podem acontecer em datas diferentes, moedas distintas e sob condições contratuais específicas.

Esse descasamento é o principal ponto a acompanhar. O clube precisa manter caixa suficiente para pagar as parcelas mesmo quando o dinheiro de uma transferência ainda não entrou. Também deve considerar eventuais oscilações cambiais nas operações internacionais, além dos custos assumidos em cada negociação.

O saldo de R$ 304 milhões não aponta, por si só, uma crise financeira. O Flamengo ampliou receitas recorrentes, recuperou caixa durante o segundo trimestre e reduziu a dívida líquida com atletas em comparação com março. Ainda assim, o investimento elevado no elenco transferiu uma parte relevante das obrigações para os próximos exercícios e exige disciplina para que novas contratações não criem uma concentração excessiva de pagamentos.

O título de R$ 614,5 milhões chama atenção, mas o balanço apresenta uma realidade mais complexa. O clube deve um valor elevado porque comprou jogadores de forma parcelada, ao mesmo tempo que possui créditos consideráveis pelas vendas realizadas. A sustentabilidade desse modelo não será definida apenas pela diferença matemática entre os dois lados, mas pela capacidade de receber no prazo, administrar o caixa e manter o crescimento das receitas necessário para cumprir cada compromisso.

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