A relação entre Flamengo e Adidas ganhou novos elementos a partir de uma entrevista de Lucas Parilari, gerente sênior de futebol da Adidas Brasil, ao jornalista Rodrigo Capelo. Ao explicar as diferenças entre trabalhar com seleções e clubes, o executivo destacou a regularidade comercial das equipes e citou o Flamengo como exemplo de uma propriedade capaz de gerar vendas durante todo o ano. Mais do que uma análise sobre uniformes, a declaração ajuda a entender como a indústria esportiva enxerga a força histórica de um clube cuja camisa ultrapassou há décadas a função de uniforme para se transformar também em produto, símbolo e plataforma de marca.
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Parilari explicou que uma seleção costuma concentrar suas vendas em ciclos ligados a grandes torneios. Copa do Mundo, Eurocopa e Copa América provocam picos comerciais, enquanto os clubes oferecem uma exposição permanente, com campeonatos disputados todos os anos, jogos frequentes e lançamentos sucessivos. Nesse modelo, uma equipe como o Flamengo permite à fornecedora trabalhar com uma demanda mais distribuída e explorar diferentes produtos ao longo da temporada.
A diferença também aparece na quantidade de possibilidades criativas. Enquanto uma seleção precisa preservar determinados elementos de sua identidade durante ciclos mais longos, os clubes normalmente apresentam três uniformes por temporada. Isso cria espaço para experiências principalmente na terceira camisa, que pode receber propostas mais ousadas sem interferir diretamente nos dois modelos que carregam a identidade principal da instituição.
A terceira camisa e o limite entre tradição e mercado
No caso do Flamengo, essa discussão ajuda a compreender uma trajetória recente de escolhas da Adidas. A terceira camisa tornou-se o espaço mais evidente para experiências visuais, mas a fornecedora tem mantido uma relação relativamente próxima das cores tradicionais do clube. Nos últimos anos, houve modelos predominantemente pretos, versões com detalhes dourados, propostas inspiradas em elementos culturais e, em 2025, uma camisa off-white que rompeu de maneira mais perceptível com o padrão habitual.
A escolha não acontece em um vazio. Como explicou Parilari, os clubes brasileiros estão submetidos a manuais de marca, estatutos e símbolos que limitam determinadas possibilidades. No Flamengo, isso significa que vermelho e preto continuam sendo referências fundamentais, enquanto a terceira camisa oferece maior liberdade para buscar novas soluções comerciais.
A lógica é antiga no futebol: preservar aquilo que identifica o clube e, ao mesmo tempo, criar novidades suficientes para estimular o torcedor a consumir novamente. A camisa alternativa ocupa justamente esse espaço entre memória e experimentação. Ela não precisa substituir a identidade principal para funcionar comercialmente; pode explorar outro caminho e retornar ao universo rubro-negro em uma temporada seguinte.
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Quando o passado volta a vender
A própria Adidas passou a explorar de maneira mais sistemática outro componente dessa relação: a memória. O executivo citou a estratégia chamada de “Bring Back”, utilizada para recuperar produtos marcantes da história da empresa. A lógica não é simplesmente produzir uma cópia, mas reintroduzir no mercado elementos associados a momentos que permanecem relevantes para o consumidor.
No futebol, essa estratégia ganha força porque determinados uniformes deixaram de ser apenas peças esportivas. Eles estão associados a jogadores, títulos, finais, gerações e acontecimentos que permanecem vivos na memória dos torcedores. A camisa da Argentina de 2006, relacionada ao início da trajetória de Lionel Messi em Copas do Mundo, foi apresentada como um exemplo dessa utilização comercial da história.
O Flamengo também entrou nesse movimento. A Adidas já trabalhou com referências históricas do clube em coleções e produtos inspirados em períodos marcantes, incluindo a camisa de 1981 e linhas da Adidas Originals. Para 2027, há ainda expectativa em torno de uma nova releitura de modelos históricos das décadas de 1980 e 1990, embora os detalhes definitivos dependam da confirmação oficial.
Esse tipo de produto mostra uma mudança importante no significado da camisa. O torcedor não compra somente uma peça nova para acompanhar o time. Em determinadas situações, compra uma lembrança de uma época que talvez sequer tenha vivido diretamente, mas que foi incorporada à memória coletiva do clube.
O Flamengo como vitrine
É nesse ponto que a fala de Parilari ganha uma dimensão comercial mais ampla. Segundo o executivo, a Adidas não avalia seus contratos apenas pela receita direta proporcionada pela venda de camisas. A presença nos principais clubes, atletas e competições também funciona como instrumento de exposição da marca.
A camisa é, portanto, uma das partes de uma estratégia maior. Estar no uniforme de um clube significa ocupar espaço em jogos, transmissões, redes sociais, lojas, campanhas publicitárias e no cotidiano dos torcedores. A marca aparece no momento em que o consumidor está emocionalmente envolvido com o futebol e, a partir dessa exposição, pode estabelecer relações que vão além da própria camisa.
Parilari também destacou que a empresa observa métricas que ultrapassam o resultado imediato de cada contrato. A presença em campeonatos, o uso das chuteiras pelos jogadores, a comunicação com o consumidor e a exposição obtida pelos clubes fazem parte da avaliação. Na prática, uma parceria pode ter valor estratégico mesmo quando a venda direta daquele uniforme não é suficiente, isoladamente, para explicar todo o investimento.
O Flamengo ocupa uma posição particular nesse modelo. Na entrevista, o clube aparece como uma exceção dentro da lógica de vendas porque sua capacidade de comercialização é muito superior à de grande parte das equipes. Isso ajuda a explicar por que a instituição recebe tratamento diferenciado dentro do portfólio da Adidas.
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Uma relação construída ao longo do tempo
A parceria entre Flamengo e Adidas não pode ser analisada apenas pelos números de uma temporada. A fornecedora alemã possui uma longa trajetória no futebol e construiu sua identidade justamente a partir da associação com grandes clubes, seleções e atletas. O Flamengo, por sua vez, carrega uma história centenária em que a camisa passou por diferentes desenhos, fornecedores, patrocinadores e gerações de jogadores sem perder a identificação central com o vermelho e o preto.
É dessa combinação que nasce o valor comercial atual. Uma fornecedora pode lançar uma coleção nova, mas precisa fazê-la dialogar com aquilo que o torcedor reconhece. Ao mesmo tempo, o clube precisa permitir que a marca encontre novas maneiras de transformar tradição em produto. A negociação deixa de ser apenas uma relação entre quem fabrica e quem veste e passa a envolver história, identidade, distribuição e potencial de mercado.
A declaração do executivo também ajuda a colocar em perspectiva uma discussão recorrente entre torcedores: até que ponto uma camisa precisa ser tradicional para ser considerada representativa do Flamengo? A própria estratégia apresentada pela Adidas indica que não existe uma única resposta. A primeira e a segunda camisas carregam responsabilidades maiores de identidade, enquanto a terceira pode funcionar como laboratório para novas ideias.
No caso rubro-negro, entretanto, a história continua sendo o ponto de partida. É ela que permite que uma camisa antiga seja relançada, que uma nova coleção seja associada a um momento marcante ou que uma peça diferente encontre espaço entre os torcedores. Quanto maior o repertório acumulado pelo clube, maior também a quantidade de histórias que podem ser transformadas em produtos.
Por isso, quando a Adidas coloca o Flamengo como referência dentro de sua operação no futebol, não está falando apenas de quantidade de camisas vendidas. Está tratando de uma propriedade esportiva que reúne torcida, frequência de exposição, tradição, capacidade comercial e um acervo histórico capaz de alimentar novas coleções continuamente. A camisa que chega às lojas em uma temporada é apenas o capítulo mais recente de uma relação em que passado e mercado caminham juntos.
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