O Flamengo negocia uma possível parceria com a LiveMode para ampliar e reorganizar a transmissão de seus jogos no exterior, em um movimento que pode representar mais do que uma mudança operacional. As conversas, que devem avançar nesta semana, envolvem as partidas do Campeonato Brasileiro em que o clube é mandante e ocorrem enquanto o Rubro-Negro testa diferentes modelos para transformar sua produção própria de conteúdo em uma plataforma com alcance internacional e potencial comercial. Os termos ainda não foram definidos, mas a negociação já chama atenção pela posição ocupada pela LiveMode no mercado de mídia esportiva digital.
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Do pay-per-view à transmissão gratuita
O Flamengo vem experimentando diferentes formatos para alcançar o torcedor que acompanha o clube fora do Brasil. Em 2025, o Rubro-Negro adotou um modelo de pay-per-view para o público internacional. Na temporada seguinte, mudou a estratégia e passou a disponibilizar gratuitamente no YouTube os jogos em que possui o mando de campo no Brasileirão. A decisão aproximou a distribuição do conteúdo da lógica adotada pelas plataformas digitais, privilegiando alcance e formação de audiência em vez da cobrança direta pelo acesso.
A possível aproximação com a LiveMode surge justamente nesse momento de experimentação. Segundo a informação divulgada pelo jornalista Rafael Cotta, do BarbaCast, Flamengo e empresa devem se reunir para discutir um eventual acordo. Ainda não há definição pública sobre valores, duração ou formato. Também não está claro se a participação ficaria restrita à estrutura técnica das transmissões ou se envolveria a comercialização do produto para marcas e parceiros internacionais.
Essa indefinição é relevante porque o negócio pode assumir formatos bastante diferentes. A LiveMode poderia contribuir na produção e distribuição, atuar na venda comercial das partidas ou participar de uma estrutura mais ampla de exploração dos direitos. Qualquer conclusão sobre o desenho final seria prematura neste momento.
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Uma empresa que mudou o mercado
A escolha da LiveMode não acontece por acaso. A empresa construiu nos últimos anos uma posição relevante na transformação do mercado de mídia esportiva, especialmente ao lado da CazéTV. A trajetória começou com a exploração de novos formatos digitais e ganhou dimensão internacional com grandes propriedades esportivas.
A companhia foi fundada em 2017 por Edgar Diniz e Sérgio Lopes, executivos que já haviam trabalhado na criação do Esporte Interativo. Posteriormente, a LiveMode esteve envolvida na comercialização de direitos da Copa do Mundo e na construção do projeto que levou a CazéTV a se tornar uma das principais plataformas esportivas do país. Na Copa do Mundo de 2022, a transmissão da eliminação do Brasil para a Croácia chegou a 6,9 milhões de espectadores simultâneos no YouTube, um marco para a plataforma.
O movimento internacional também avançou. Em agosto de 2026, a LiveMode passou a operar em Portugal com transmissões gratuitas de partidas da Champions League e da Premier League pelo YouTube, em acordo com a DAZN. A expansão mostra que a empresa não está mais limitada à exploração do mercado brasileiro.
Para o Flamengo, essa experiência pode ter valor estratégico. O clube não procura apenas colocar seus jogos em outra tela. Existe uma oportunidade de transformar uma audiência espalhada por diferentes países em um ativo comercial, aproximando conteúdo, distribuição, publicidade e relacionamento com o torcedor.
O laboratório para 2030
A negociação também se encaixa em uma discussão maior sobre o futuro dos direitos de transmissão do Flamengo. O clube vem utilizando suas próprias transmissões como uma espécie de laboratório para adquirir experiência em produção, distribuição, audiência e comportamento do público.
Essa preparação ganha importância diante do próximo ciclo de direitos. A partir de 2030, o Flamengo terá de decidir novamente qual será sua estratégia diante de um mercado cada vez mais fragmentado entre televisão aberta, canais fechados, streaming e plataformas como o YouTube.
A mudança provocada pela chamada Lei do Mandante, aprovada em 2021, abriu espaço para que o clube mandante negocie diretamente a transmissão de suas partidas. O Flamengo já havia testado essa possibilidade anteriormente, especialmente durante o Campeonato Carioca de 2020, quando transmitiu jogos pela própria plataforma.
Desde então, o cenário se tornou mais complexo. Em vez de depender exclusivamente de uma grande emissora, os clubes passaram a lidar com um ecossistema no qual diferentes empresas podem adquirir pacotes distintos. A própria estrutura atual do futebol brasileiro demonstra essa fragmentação, com jogos distribuídos entre televisão aberta, TV por assinatura, streaming e plataformas digitais.
Nesse ambiente, uma parceria entre Flamengo e LiveMode poderia funcionar como antecipação de uma estratégia que o clube pretende desenvolver com mais força no próximo ciclo. Não necessariamente para abandonar a venda coletiva dos direitos, mas para ampliar sua capacidade de atuar diretamente onde houver oportunidade.
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O mercado internacional ainda é uma fronteira
Existe também uma questão econômica. Os direitos internacionais do Campeonato Brasileiro historicamente têm valor muito inferior ao tamanho que os principais clubes brasileiros possuem em seus mercados domésticos. O Flamengo, porém, vem tentando alterar essa equação ao distribuir seus jogos gratuitamente para torcedores que estão fora do país.
A lógica é simples, embora sua execução seja mais complexa: primeiro formar audiência, depois transformar alcance em negócio. Uma plataforma com capacidade de comercialização internacional pode ajudar nesse processo ao aproximar o clube de anunciantes interessados em públicos brasileiros no exterior e também de consumidores estrangeiros que acompanham o futebol brasileiro.
O potencial não está apenas na venda de publicidade durante uma partida. Uma audiência internacional pode ser conectada a produtos oficiais, programas de associação, experiências, conteúdo exclusivo, patrocínios regionais e ações de marcas. O futebol deixa de ser apenas um evento de duas horas e passa a funcionar como uma porta de entrada para uma relação comercial permanente.
O caso do Flamengo é especialmente interessante porque o clube já aparece entre as marcas mais fortes do futebol mundial. O relatório Football 50 2026, da Brand Finance, colocou o Rubro-Negro na 17ª posição em força de marca e na 32ª em valor, sendo uma das duas únicas marcas sul-americanas presentes entre as 50 avaliadas. A distância entre força e monetização ajuda a explicar por que a internacionalização pode ser uma frente relevante para o clube.
A eventual parceria com a LiveMode, portanto, precisa ser observada dentro de um projeto maior. Ainda não existe acordo anunciado, nem foram divulgadas condições comerciais. O que existe é uma negociação que aproxima duas estruturas com interesses complementares: de um lado, um clube que procura transformar sua audiência global em ativo; de outro, uma empresa que ganhou espaço justamente ao descobrir novas maneiras de distribuir e comercializar o futebol.
Se a conversa avançar, o resultado poderá revelar até onde o Flamengo pretende ir na construção de uma operação própria de mídia. O passo seguinte não será apenas decidir onde o torcedor estrangeiro assistirá ao jogo. Será definir quem controla a distribuição, quem comercializa essa audiência e, principalmente, quanto dessa nova cadeia de valor permanecerá com o clube.
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