Flamengo quer 70 mil por jogo e lança nova estratégia com dados, marca própria e novo site oficial

A reunião de prestação de contas do Flamengo, realizada na sede da Gávea, revelou uma mudança importante na estratégia de marketing do clube. Em apresentação aos sócios, Ricardo Hinrichsen, diretor de marketing rubro-negro, detalhou como o clube pretende transformar dados, relacionamento com torcedores, marca própria, e-commerce e conteúdo digital em novas fontes de receita. A ideia central é simples, mas profunda: sair da venda baseada no achismo e avançar para uma operação guiada por inteligência, segmentação e conhecimento real sobre o comportamento da Nação.
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O movimento já começa a produzir efeitos concretos. Segundo Hinrichsen, o Flamengo criou uma área de CRM nos últimos 60 a 70 dias e passou a usar dados para entender melhor quem compra ingresso, quando compra, qual tipo de oferta faz sentido e de que maneira cada torcedor pode ser acionado. O resultado inicial foi um crescimento superior a 15% na média de vendas em pouco mais de dois meses, sinal de que o clube enxerga na organização comercial um caminho para elevar a ocupação do estádio de forma estrutural.
A meta apresentada é ambiciosa: levar pelo menos 70 mil pessoas ao estádio em todos os jogos. Para isso, o Flamengo trabalha com uma base de dados que já ultrapassa 10 milhões de CPFs diferentes de torcedores que interagiram com o clube ao longo dos últimos anos. Em um universo estimado entre 45 e 50 milhões de rubro-negros, o departamento de marketing afirma já conhecer uma parcela expressiva da torcida, com informações que incluem localização, histórico de relacionamento e, em alguns casos, hábitos de consumo.
Da venda no achismo para a venda baseada em dados
O ponto mais relevante da apresentação foi a mudança de método. O Flamengo passa a tratar bilheteria, relacionamento e consumo como uma operação de inteligência. Em vez de divulgar uma oferta genérica para toda a torcida, o clube pretende segmentar comunicações conforme tipo de jogo, nível de interesse, perfil no banco de dados e ativação personalizada.
Essa estratégia aproxima o marketing da lógica utilizada no futebol profissional. Assim como o departamento de análise de desempenho busca reduzir o improviso em decisões técnicas, a área comercial tenta diminuir o peso da intuição na venda de produtos, ingressos e experiências. O torcedor deixa de ser visto apenas como público e passa a ser tratado como parte de uma base relacional que precisa ser entendida, ativada e fidelizada.
A criação de uma diretoria de CRM, o uso intensivo de dados e a organização de um data lake com mais de 10 milhões de CPFs mostram que o Flamengo pretende profissionalizar também o relacionamento comercial com sua torcida. O objetivo não é apenas vender mais para o próximo jogo, mas construir uma máquina permanente de receitas, capaz de sustentar bilheterias fortes mesmo em partidas de menor apelo.
Marca Gávea inaugura nova fase comercial
Outra novidade apresentada foi o lançamento da marca própria Gávea, criada para explorar um espaço diferente daquele ocupado pelos uniformes de jogo. A primeira coleção cápsula, lançada em junho de 2026, inclui camisetas e camisas com design rubro-negro voltadas para o uso cotidiano, dentro de uma proposta de lifestyle.
Os produtos passaram a ser comercializados no e-commerce do Flamengo e em lojas físicas estratégicas, como Gávea, Galeão, Rio Sul e Barra Shopping. A escolha dos pontos de venda indica uma tentativa de ampliar a presença da marca para além do ambiente esportivo tradicional, aproximando o clube de um consumo mais frequente, urbano e identitário.
O aspecto mais importante, porém, está no modelo de negócio. Segundo Hinrichsen, a Gávea representa uma quebra de paradigma porque o Flamengo deixa de esperar que licenciados proponham produtos e passa a assumir postura ativa no desenvolvimento das coleções. A partir das informações que possui sobre seus consumidores, o clube identifica oportunidades, busca parceiros e estrutura mercadorias com maior controle sobre posicionamento, margem e distribuição.
Essa mudança pode gerar margens superiores às obtidas no licenciamento convencional. Na prática, o Flamengo deixa de depender apenas de royalties fixos pagos por terceiros e passa a reter uma fatia maior do resultado econômico gerado por sua própria marca. A Gávea, portanto, não é apenas uma coleção de roupas, mas um teste de modelo comercial que pode ser replicado em outras frentes.
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Novo site oficial e retomada do e-commerce
A apresentação também trouxe novidades na comunicação digital. O Flamengo confirmou o lançamento de seu novo site oficial para o dia 30 de junho, resultado de um trabalho iniciado no ano anterior e inspirado em referências internacionais de clubes de futebol. A promessa é entregar uma plataforma mais moderna, funcional e compatível com o tamanho da instituição. O site atual será substituído por uma estrutura pensada para melhorar navegação, conteúdo, serviços e integração com outras áreas do clube.
Outro ponto relevante é a retomada do controle do e-commerce. Antes terceirizada, a operação passa a ser conduzida diretamente pelo Flamengo. A mudança é estratégica porque permite ao clube desenvolver novas funcionalidades, controlar melhor a jornada de compra e transformar sua loja digital em uma linha mais forte de geração de receita.
Quando esse movimento é observado em conjunto com a criação da Gávea e a estruturação do CRM, fica claro que o Flamengo tenta montar um ecossistema próprio de consumo rubro-negro. O clube quer conhecer o torcedor, comunicar-se melhor com ele, vender de maneira mais eficiente e controlar a operação até o fim da cadeia comercial.
Flamengo em Cannes com a campanha Nação na ONU
A área de comunicação também terá um momento importante em junho. O Flamengo vai concorrer no Cannes Lions, principal festival internacional de criatividade e publicidade, com a campanha Nação na ONU. A ação está ligada à presença do clube na sede da Organização das Nações Unidas e à entrada no programa Football for the Goals, iniciativa que conecta o futebol aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
A campanha levou a força simbólica da torcida rubro-negra para um ambiente institucional global. Ao associar a Nação à agenda da ONU, o Flamengo buscou apresentar sua torcida não apenas como fenômeno esportivo, mas como uma comunidade cultural de alcance internacional.
A presença em Cannes tem peso porque coloca o Flamengo em uma vitrine frequentada por marcas, agências e profissionais de comunicação de todo o mundo. Para um clube que busca ampliar seu valor institucional, disputar reconhecimento em um festival desse porte reforça a ambição de competir também no território das grandes marcas globais.
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Um marketing menos dependente do campo
O conjunto das novidades mostra uma área de marketing menos limitada ao calendário esportivo. Naturalmente, o desempenho do time continuará influenciando receitas, engajamento e vendas. Ainda assim, o Flamengo tenta criar estruturas capazes de gerar valor independentemente do resultado do domingo.
CRM, data lake, Gávea, novo site, e-commerce próprio e campanhas internacionais caminham na mesma direção. O clube quer transformar torcida em relacionamento, relacionamento em consumo e consumo em receita recorrente.
A apresentação de Ricardo Hinrichsen mostrou que o Flamengo entende a própria marca como um ativo que precisa ser trabalhado com método, tecnologia e ambição comercial. A meta de 70 mil torcedores por jogo talvez seja o símbolo mais visível desse processo, mas a transformação é mais ampla. O clube quer deixar de vender apenas paixão em dias de jogo para construir uma plataforma permanente de produtos, serviços, conteúdo e experiências.
Se a estratégia funcionar, o Flamengo poderá ampliar receitas sem depender exclusivamente de premiações, transferências ou contratos tradicionais. O desafio será manter equilíbrio entre monetização e identidade popular, porque a grande força da marca rubro-negra nasce justamente da relação afetiva com milhões de torcedores. O caminho apresentado na Gávea indica que o clube quer ocupar um espaço maior no mercado sem perder o vínculo com sua base, fazendo da Nação não apenas uma audiência gigantesca, mas um ativo organizado, conhecido e cada vez mais valorizado.
Flamengo reforça marketing com executivos de dados e aposta no digital
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