Flamengo reage à possível proibição das bets e clubes defendem transição

O futebol brasileiro entrou diretamente na discussão sobre o futuro das apostas esportivas no país. Flamengo e outros clubes, federações e representantes do setor divulgaram, nesta quinta (17), um manifesto em reação aos sinais de que o governo federal avalia restringir ou até proibir as apostas online. O documento reconhece os problemas sociais associados ao crescimento desse mercado, mas sustenta que a regulamentação, acompanhada de fiscalização e mecanismos de proteção, seria mais adequada do que uma interrupção abrupta das operações legais.
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A manifestação recebeu o título de “Fim do futebol brasileiro” e parte de uma preocupação objetiva: nos últimos anos, as empresas de apostas passaram a ocupar um espaço relevante no financiamento do esporte. Segundo as entidades que assinam o documento, uma mudança repentina atingiria contratos já firmados, planejamentos financeiros e investimentos que alcançam não apenas os clubes de maior torcida, mas também equipes menores, categorias de base e outras modalidades. A Folha de S.Paulo informou que o mercado de bets, antes mesmo da atual discussão política, já havia reduzido sua presença na Série A, passando de 18 patrocinadores máster em 2025 para 13 em 2026.
O futebol reconhece o problema
O manifesto não ignora os efeitos negativos das apostas. Pelo contrário. O texto reconhece que a expansão do segmento trouxe impactos sociais, principalmente entre pessoas mais vulneráveis, e defende medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção.
A diferença está no caminho proposto. Em vez da eliminação do mercado autorizado, os clubes sustentam que o país deveria reforçar os mecanismos existentes e combater com maior rigor as plataformas clandestinas. Essa posição acompanha a estrutura criada pelo próprio Estado nos últimos anos.
A aposta esportiva de quota fixa foi legalizada pela Lei nº 13.756, de 2018, e os jogos online foram incorporados ao marco regulatório pela Lei nº 14.790, de 2023. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente, dentro das regras estabelecidas pelo governo.
O modelo também prevê mecanismos específicos de jogo responsável. A Portaria SPA/MF nº 1.231 estabelece regras para comunicação, publicidade, marketing e proteção dos apostadores, enquanto o governo mantém uma agenda regulatória para revisar procedimentos, fortalecer a fiscalização e aprimorar os instrumentos de proteção.
A preocupação com uma mudança imediata
É justamente nesse ponto que aparece a principal preocupação dos clubes. Uma alteração brusca atingiria contratos que foram assinados dentro de um ambiente considerado legal pelo próprio poder público.
No Flamengo, o impacto não se limita à camisa do futebol masculino. O acordo firmado com a Betano até dezembro de 2028 contempla futebol profissional, futebol feminino, modalidades olímpicas e FlamengoTV. O próprio clube informou que a parceria envolve diferentes formatos de remuneração e novas oportunidades de negócios.
O contrato também prevê R$ 5 milhões destinados ao desenvolvimento de novos modelos de negócio na FlamengoTV, além de recursos específicos para esportes olímpicos e outras propriedades comerciais. Os valores foram detalhados na aprovação do acordo pelo Conselho Deliberativo.
Isso ajuda a entender por que uma eventual mudança teria efeitos que vão além do patrocínio estampado no uniforme. Receitas dessa natureza podem financiar projetos, equipes e estruturas que não necessariamente possuem capacidade de gerar recursos próprios na mesma proporção.
No caso do futebol feminino e de modalidades olímpicas, por exemplo, a lógica comercial costuma ser diferente daquela do futebol masculino. Uma redução abrupta de receitas poderia exigir reorganização orçamentária e busca por novos parceiros.
O argumento sobre o mercado ilegal
Outro ponto central do manifesto é o receio de que uma proibição do mercado autorizado não elimine o hábito de apostar. Na avaliação defendida pelos clubes, parte dos consumidores poderia migrar para plataformas clandestinas, que não estão submetidas às mesmas exigências de fiscalização e proteção.
O governo, por sua vez, mantém entre suas prioridades o combate às operações ilegais. A Secretaria de Prêmios e Apostas atualizou em setembro uma portaria destinada a prevenir, identificar e reprimir transações de pagamento relacionadas à exploração irregular das apostas.
A existência de um mercado ilegal, portanto, não é apenas uma hipótese dentro do debate. Ela já faz parte da atuação regulatória do Estado. O ponto em disputa é qual modelo produz melhores condições para reduzir esse espaço e, simultaneamente, proteger consumidores.
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A proposta de uma transição
Dentro desse cenário, a discussão apresentada pelos clubes não precisa ser reduzida à escolha entre liberar tudo ou proibir tudo. Uma das alternativas defendidas no debate é aumentar as restrições gradualmente, criando um período de adaptação para operadores, clubes, empresas de comunicação e demais setores que dependem dessa receita.
Entre as medidas discutidas estão limites de gastos, mecanismos mais rígidos de controle de usuários, restrições à publicidade e políticas específicas para pessoas que desenvolvem comportamento problemático com apostas.
A regulamentação brasileira já possui instrumentos nessa direção. O governo estabelece regras de jogo responsável e vem atualizando normas relacionadas ao setor. A própria agenda regulatória de 2026–2027 prevê revisão de procedimentos de autorização, combate a operadores não autorizados e aperfeiçoamento das regras de publicidade por afiliados.
A discussão, portanto, passou a ser também sobre intensidade e velocidade das mudanças.
O futebol além dos grandes clubes
Quando os grandes clubes aparecem no debate, existe o risco de a discussão ficar concentrada nos contratos milionários das principais camisas. O impacto potencial, entretanto, pode alcançar uma cadeia muito maior.
Clubes de menor orçamento dependem de receitas comerciais para manter departamentos profissionais, categorias de base, futebol feminino, centros de treinamento e estruturas administrativas. A Folha apontou que as próprias bets reduziram sua presença entre patrocinadores máster da Série A antes mesmo da atual pressão política, ao mesmo tempo em que os maiores contratos se concentraram em clubes de maior exposição.
Isso significa que o mercado já está passando por uma reorganização. Uma eventual mudança nas regras acrescentaria outra camada a esse processo, obrigando empresas e entidades esportivas a encontrar novas fontes de financiamento.
Para o Flamengo, que possui uma das maiores estruturas esportivas do país, a questão também reforça a necessidade de diversificar receitas. O clube vem ampliando acordos comerciais para diferentes modalidades e propriedades. Em abril de 2026, por exemplo, anunciou uma parceria exclusiva com o Sesc RJ envolvendo basquete, vôlei de base e futebol feminino.
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O debate está longe de terminar
A posição dos clubes não encerra a discussão sobre os problemas provocados pelas apostas. O crescimento do setor trouxe preocupações relacionadas ao endividamento, ao comportamento compulsivo, à publicidade e à exposição de públicos vulneráveis. Ao mesmo tempo, a regulamentação criou um ambiente em que operadores autorizados passaram a ter obrigações específicas de proteção e fiscalização.
O governo ainda pode alterar o desenho das medidas em estudo, enquanto clubes e empresas pressionam por participação nas decisões. O próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não havia definição sobre o tema, segundo reportagem da Folha.
Para o futebol, a questão não é apenas quanto dinheiro está envolvido. O que está em discussão é a forma como um mercado recém-regulamentado será tratado daqui para frente e quanto tempo os setores afetados terão para se adaptar.
Uma eventual restrição pode mudar profundamente a relação entre apostas, esporte e publicidade no Brasil. O desafio para o poder público será conciliar a proteção de quem sofre com o jogo problemático, o combate às plataformas ilegais e a necessidade de dar previsibilidade às atividades econômicas que foram estruturadas sob as regras atualmente vigentes. Para os clubes, a defesa de uma transição representa justamente a tentativa de evitar que uma mudança de rota produza efeitos imediatos sobre uma estrutura que passou a depender, em parte, dessas receitas.
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