Culpa do Flamengo? Polícia investiga possível fraude de R$ 8 milhões na Recuperação Judicial do Vasco

A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga uma possível fraude na recuperação judicial do Vasco envolvendo um crédito trabalhista atribuído ao ex-jogador Marcilei da Silva Elias, conhecido como Max. O valor chegou a R$ 8.820.730,46 na relação de credores, embora posteriormente Vasco e Vasco SAF tenham reconhecido como legítimo um montante de aproximadamente R$ 2,45 milhões. A diferença, superior a R$ 5,6 milhões, levou a Delegacia de Defraudações a buscar documentos e informações técnicas para descobrir como o valor foi incluído no processo e quem foi responsável pelo cálculo.
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O caso também envolve o advogado Alan Belanciano, atual presidente da Assembleia Geral do Vasco, que representou Max em uma ação trabalhista contra o clube entre 2015 e 2017. Belanciano nega qualquer irregularidade e afirma que não participou da definição dos valores ou dos cálculos utilizados na recuperação judicial.
Como surgiu a divergência
A investigação teve início a partir de informações anônimas encaminhadas ao Ministério Público. A polícia passou a analisar a inclusão do crédito de Max na recuperação judicial porque, quando o valor foi apresentado, a ação trabalhista ainda não tinha chegado a uma definição definitiva sobre o montante devido.
O ponto central está na diferença entre os valores. A relação de credores chegou a registrar aproximadamente R$ 8,82 milhões, enquanto documentos posteriores indicaram que Vasco e SAF reconheceram como legítimo um crédito na faixa de R$ 2,45 milhões. O Ministério Público e a administração judicial também defenderam a retificação para esse patamar, ressalvando que novas alterações poderiam ocorrer após o trânsito em julgado da ação trabalhista.
A suspeita investigada, portanto, não é simplesmente a existência de uma dívida do Vasco com Max. O clube reconhece a obrigação trabalhista. O que está sob análise é a forma como um valor ainda sujeito a discussão judicial acabou registrado na recuperação por uma quantia significativamente maior.
A relação de Alan Belanciano com o caso
A presença de Alan Belanciano acrescentou outro elemento à investigação. O advogado representou Max no processo trabalhista e, posteriormente, passou a atuar como interlocutor junto a advogados de credores do Vasco durante a recuperação judicial.
Em depoimento, Belanciano negou ser investigado e afirmou que não negociou valores nem realizou cálculos relacionados ao processo. Segundo ele, a estrutura da recuperação, os números e as condições de pagamento foram definidos pelos escritórios especializados contratados para essa finalidade.
O advogado também declarou que seu papel foi aproximar Max de representantes de outros credores em um momento no qual o Vasco buscava recuperar credibilidade diante dos credores trabalhistas. A polícia, entretanto, quer esclarecer se houve alguma atuação de Belanciano no processo depois que os poderes de representação de Max foram transferidos para outro advogado.
Essa é uma das questões que levaram a Delegacia de Defraudações a solicitar o histórico completo da representação jurídica do ex-jogador.
Polícia procura quem inseriu o valor
Em 10 de agosto de 2026, a investigação avançou com um pedido dirigido à 20ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro. A Polícia Civil solicitou cópia integral do processo movido por Max contra o Vasco, além de informações técnicas relacionadas ao sistema eletrônico da Justiça do Trabalho.
Entre os dados requisitados estão a identificação do usuário responsável por logins e assinaturas eletrônicas de petições, especialmente documentos relacionados à liquidação do crédito e ao pedido de habilitação na recuperação judicial.
A medida é relevante porque pode permitir a identificação de quem elaborou, protocolou ou assinou documentos que levaram o crédito ao valor de aproximadamente R$ 8 milhões. A polícia também pediu a relação de todos os advogados que representaram Max ao longo do processo.
O erro foi identificado antes da investigação?
Os depoimentos colhidos apresentam versões que ajudam a reconstruir a cronologia, mas também revelam pontos de divergência.
O então diretor financeiro Gabriel Souza afirmou que a inconsistência foi identificada em abril de 2026, durante o fechamento contábil do Vasco. Segundo ele, uma análise realizada com apoio de consultoria apontou que havia sido considerado um valor que ainda não estava definitivamente estabelecido na Justiça do Trabalho.
O problema ganhou dimensão ainda maior porque Max já havia recebido uma primeira parcela calculada sobre o valor de aproximadamente R$ 8 milhões que constava da relação de credores.
A ex-diretora jurídica Bianca Reis também afirmou que a inconsistência foi identificada pelo setor financeiro e posteriormente confirmada pelo financeiro da SAF e pelos escritórios envolvidos na recuperação. De acordo com seu depoimento, o valor de R$ 8,08 milhões teria sido inserido diretamente pelo próprio credor nos autos, sem análise ou aprovação prévia da SAF.
Bianca declarou ainda que não houve uma auditoria interna específica para determinar quem havia produzido a diferença.
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Novas inconsistências
A investigação ganhou outro componente depois que o financeiro da SAF e escritórios externos revisaram outras habilitações trabalhistas. Segundo os depoimentos, novas inconsistências foram encontradas em processos patrocinados pelo advogado Moisés Gleicher, que também passou a atuar no caso de Max.
A informação não significa, por si só, que exista fraude nesses outros processos. O que os depoimentos indicam é que a revisão motivada pelo caso inicial encontrou outras divergências que passaram a ser analisadas.
O Ministério Público, por sua vez, manifestou-se pela redução do crédito de Max para aproximadamente R$ 2,45 milhões, mantendo a possibilidade de novas retificações após a definição definitiva da ação trabalhista.
Pedrinho foi chamado como testemunha
O presidente do Vasco, Pedrinho, também foi intimado para prestar esclarecimentos na condição de testemunha, mas ele não compareceu ao depoimento na data determinada.
A investigação ocorre em um período de forte disputa interna no clube, marcado também pelo rompimento entre integrantes da diretoria e por mudanças na estrutura responsável pela condução da SAF. Entre os nomes citados estão o ex-vice jurídico Felipe Carregal e o ex-vice de finanças Silvio Almeida.
A proximidade temporal entre a denúncia e o racha político gerou questionamentos sobre a origem das informações encaminhadas às autoridades. Silvio Almeida, entretanto, afirmou desconhecer qualquer denúncia anônima e contestou a ideia de que nada tivesse sido feito internamente antes da investigação.
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O que já é possível afirmar
O ponto mais importante, neste momento, é separar a divergência documental da conclusão sobre uma eventual fraude. Existe uma diferença expressiva entre o valor de aproximadamente R$ 8,82 milhões registrado inicialmente e os cerca de R$ 2,45 milhões reconhecidos posteriormente. Também existem documentos, depoimentos e diligências policiais destinados a descobrir como essa diferença surgiu.
Ainda não existe, porém, conclusão policial sobre quem teria produzido deliberadamente uma eventual inflação do crédito ou se houve uma ação criminosa. Max negou participação em qualquer acordo ilícito ou tentativa de obter vantagem indevida, enquanto Alan Belanciano também rejeitou envolvimento irregular.
A investigação agora procura justamente preencher essa lacuna: identificar a origem do valor, quem elaborou os documentos, quais informações estavam disponíveis quando o crédito foi habilitado e se houve intenção de alterar artificialmente a dívida. Até que essas perguntas sejam respondidas pelas autoridades, o caso permanece como uma investigação sobre uma possível fraude, e não como uma fraude já comprovada.
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