Pixinguinha fez a introdução do hino do Flamengo? A pesquisador esclarece

Pixinguinha fez a introdução do hino do Flamengo? A pesquisador esclarece

Uma das passagens mais marcantes do hino popular do Flamengo pode ter uma história diferente daquela que muitos torcedores aprenderam. A introdução de metais que antecede a marcha de Lamartine Babo já foi atribuída a Pixinguinha, um dos maiores nomes da música brasileira, mas o pesquisador Paulo Tinoco afirma não ter encontrado qualquer documento que confirme essa autoria. A investigação, porém, vai além da dúvida sobre alguns compassos: ela ajuda a recuperar a trajetória dos hinos rubro-negros, da frase “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo” e de personagens que tiveram participação decisiva na construção da identidade musical do clube.


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Antes de Lamartine, já havia um hino

A história começa antes da música que hoje é imediatamente associada ao Flamengo. Paulo Magalhães, atleta do clube e posteriormente conhecido também como autor teatral, compôs o “Hino Rubro-Negro” no fim da década de 1910. O Museu Flamengo registra a composição em 1918 e sua apresentação pública em 15 de novembro de 1920, na antiga sede da Rua Paysandu. A Assembleia Geral aprovou a obra como hino oficial em 21 de abril de 1921.

A letra trazia versos que atravessaram gerações, como “Tua glória é lutar” e “Campeão de terra e mar”. A primeira gravação veio apenas em 1937, na voz de Castro Barbosa, acompanhado pela Orquestra RCA Victor, segundo o Museu Flamengo.

É justamente nesse ponto que a história costuma ficar confusa. O Flamengo possui o hino oficial de Paulo Magalhães e a chamada marcha popular de Lamartine Babo, muito mais conhecida pelas arquibancadas. A obra de Lamartine surgiu na década de 1940 e se transformou, na prática, na música mais identificada com a torcida.

“Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”

Antes mesmo de a frase aparecer no hino popular, ela já fazia parte da cultura rubro-negra. Segundo a pesquisa de Paulo Tinoco, Júlio Silva criou a expressão “Uma vez Flamengo” em outubro de 1929, durante uma atividade com jovens atletas das categorias de base. A frase teria sido utilizada como uma espécie de juramento coletivo.

Poucos meses depois, no Carnaval de 1930, Júlio Silva ampliou a expressão para “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. A frase passou a circular em outros ambientes ligados ao clube e acabou incorporada à documentação oficial. Pesquisa publicada pelo próprio Ser Flamengo sobre o trabalho de Tinoco aponta justamente esse percurso entre 1929, o Carnaval de 1930 e a posterior incorporação institucional.

O detalhe é relevante porque demonstra que um dos versos mais conhecidos da música de Lamartine não nasceu necessariamente com a composição. A frase já possuía vida própria dentro da cultura flamenga antes de ser incorporada à canção que se tornou popular.

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E onde entra Pixinguinha?

É aqui que aparece o mistério.

A introdução instrumental da marcha possui uma força particular. São aqueles metais que dão à música uma abertura grandiosa, quase como um chamado para a arquibancada. Ao longo do tempo, surgiu a informação de que o arranjo teria sido feito por Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha.

A atribuição não é completamente absurda. Pixinguinha e Lamartine Babo eram próximos e trabalharam juntos. Há também registros de que Pixinguinha participou de arranjos de obras de Lamartine em outros momentos. Por isso, a associação acabou ganhando espaço na memória musical rubro-negra.

O problema está na documentação.

Paulo Tinoco afirma que, durante seus anos de pesquisa, não encontrou uma partitura, anotação, registro de estúdio ou qualquer outra evidência que permita atribuir a introdução ao maestro. A conclusão, portanto, precisa ser tratada com cautela: não existe, até o momento, comprovação documental da autoria de Pixinguinha. Uma fonte anterior que investigou especificamente o assunto também registrou a ausência dessa confirmação e ouviu o neto do maestro sobre a possibilidade.

Isso não significa que seja possível afirmar definitivamente quem criou a introdução. A ausência de documentação não prova, por si só, que Pixinguinha não tenha participado de algum arranjo. O próprio Tinoco ressalta que uma nova evidência poderia mudar a conclusão.

É justamente essa diferença entre “não há prova” e “está provado que não foi” que torna a pesquisa relevante.

O caso do “1 a 0”

A investigação também alcança outra música cercada por uma associação curiosa com o Flamengo: o choro “1 a 0”, atribuído a Pixinguinha e Benedito Lacerda.

Durante muito tempo, a composição foi relacionada à conquista sul-americana da Seleção Brasileira em 1919. A pesquisa apresentada por Tinoco, porém, encontrou uma referência diferente na biografia de Benedito Lacerda. Segundo essa fonte, o choro teria sido feito para o jogo Flamengo 1 x 0 Vasco, disputado em 1944.

Há outro elemento que chamou a atenção do pesquisador. A primeira evidência encontrada por ele da existência da música é posterior ao jogo, em um disco lançado em 1946. Tinoco também relata não ter localizado registros anteriores, como partituras ou notas de jornal, que comprovassem uma origem em 1919.

O caso reforça a necessidade de separar a tradição oral dos documentos históricos. Uma história pode ser repetida durante décadas e, ainda assim, permanecer sem comprovação.

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Uma história construída por várias músicas

A relação do Flamengo com a música, portanto, não cabe em um único hino ou compositor. Paulo Magalhães deixou a obra oficialmente reconhecida desde 1921. Lamartine Babo criou a marcha que se transformou na manifestação musical mais popular da torcida. Júlio Silva ajudou a consolidar uma das frases mais emblemáticas do clube. Pixinguinha aparece em uma atribuição ainda sem comprovação documental.

O próprio Museu Flamengo registra a importância do “Hino Rubro-Negro” de Paulo Magalhães, enquanto fontes históricas reconhecem a marcha de Lamartine como a composição que ganhou enorme popularidade entre os torcedores.

Por isso, a pergunta “Pixinguinha fez a introdução do hino do Flamengo?” ainda não tem uma resposta definitiva baseada em documentos. O que a pesquisa permite dizer, até agora, é que a autoria é frequentemente atribuída ao maestro, mas não foi encontrada evidência capaz de confirmar essa versão.

E talvez seja justamente aí que esteja o valor da investigação histórica. Em vez de transformar uma tradição em certeza, a pesquisa deixa a pergunta aberta, procura documentos e admite a possibilidade de rever a conclusão caso surja uma nova prova. No caso do hino que acompanha milhões de rubro-negros, a música permanece a mesma; o que muda é a compreensão sobre quem ajudou a construí-la.

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