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Flamengo recusa liberar Ninho do Urubu à Fifa para Copa Feminina de 2027 e mantém negociação pelo Maracanã

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Foto: Tulio Rodrigues/Ser Flamengo

O Flamengo decidiu não liberar o Ninho do Urubu para servir como centro de treinamento durante a Copa do Mundo Feminina de 2027, mesmo após visita da Fifa às estruturas dos principais clubes do Rio de Janeiro. A entidade já selecionou uma primeira lista com 38 locais para receber seleções no torneio e passou por instalações de Botafogo, Fluminense e Vasco, que negociam a inclusão de seus espaços no catálogo. No caso rubro-negro, a resposta foi negativa: o departamento de futebol considerou inviável ceder o CT porque, embora o calendário brasileiro seja paralisado durante a competição, a previsão interna é de que o elenco profissional siga em atividade em parte do período, depois de alguns dias de férias.


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A decisão pode causar estranhamento à primeira vista. Afinal, o Ninho do Urubu é uma das estruturas mais completas do país, tem vários campos, área profissional, setores de apoio e poderia, em tese, receber uma seleção estrangeira durante o Mundial. Mas a discussão não é apenas sobre ter espaço físico. Em eventos organizados pela Fifa, a cessão de uma instalação costuma vir acompanhada de exigências operacionais, controle de acesso, exclusividade de uso, adequações, segurança, circulação restrita e uma série de obrigações que podem interferir diretamente na rotina de um clube. O Flamengo, ao que tudo indica, fez a conta institucional e esportiva: vale a exposição de ceder parte da estrutura se isso comprometer a preparação do próprio elenco?

A resposta foi não, e ela não gerou conflito com a entidade. A Fifa aceitou o argumento rubro-negro e segue negociando com o clube outro ponto sensível: a liberação antecipada do Maracanã. Esse é um capítulo ainda mais delicado, porque envolve calendário, concessão, gramado, operação de estádio e obrigações internacionais. O Flamengo já vive uma disputa constante para equilibrar interesses comerciais, esportivos e patrimoniais no Maracanã. No Ninho, porém, a decisão depende muito mais da sua própria estratégia interna, e nesse ponto o clube tem todo o direito de preservar sua casa.

Fifa quer estrutura, Flamengo quer controle

O ponto central é entender que a Fifa não costuma operar eventos desse porte em regime de improviso. Quando uma seleção utiliza um centro de treinamento, não se trata apenas de aparecer no local, treinar duas horas e ir embora. Há exigências sobre campos, vestiários, segurança, privacidade, áreas de imprensa, deslocamento, hotelaria, logística e controle total do ambiente. Para uma entidade que organiza Mundial, a lógica é padronizar. Para um clube que vive calendário brasileiro, a prioridade é não desmontar sua rotina.

Por isso, a possibilidade de “liberar só uma parte” do Ninho talvez não seja tão simples quanto parece. Se a Fifa exigir exclusividade ampla, impedir circulação de atletas do clube em determinados setores ou criar uma operação paralela dentro do CT, o Flamengo teria mais desgaste do que benefício. O argumento esportivo também é relevante: mesmo com a paralisação do Brasileiro, o elenco pode precisar treinar durante a Copa, recuperar jogadores, fazer avaliações físicas, trabalhar ajustes táticos e preparar a retomada da temporada. Em um calendário apertado, perder controle sobre a própria estrutura não é detalhe.

Botafogo e Fluminense negociam seus CTs. O Vasco aparece com São Januário para treinos de véspera de jogos, repetindo uma tradição de receber seleções em momentos históricos, como ocorreu na Copa de 2014, quando Argentina e Alemanha treinaram no estádio antes da final do Mundial masculino. São escolhas legítimas de cada instituição. O Flamengo fez outra leitura. E ela não deve ser tratada como birra, arrogância ou má vontade com o futebol feminino. O clube avaliou sua estrutura, sua agenda e suas prioridades.

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O caso de São Januário e a ilusão do potencial construtivo

A notícia também toca em outro ponto importante: São Januário completa 100 anos em 2027, e o Vasco tem um projeto de reforma do estádio, mas encontra dificuldade para arrecadar recursos com a venda do potencial construtivo. Esse detalhe conversa diretamente com uma discussão antiga no Flamengo. Durante a gestão anterior, a venda de potencial construtivo foi apresentada como uma das possíveis linhas de financiamento para o projeto do estádio rubro-negro. O problema é que, muitas vezes, essa alternativa foi tratada como se fosse simples, rápida e quase automática.

Não é. Potencial construtivo não é camisa, não é patrocínio, não é valor de marca, não é paixão de torcida. Quem compra esse direito não está pagando para se associar ao Flamengo, ao Vasco ou a qualquer clube. Compra porque precisa construir mais em determinado local, dentro de regras urbanísticas específicas. O valor depende da região, da demanda imobiliária, das condições legais e da viabilidade econômica do empreendimento. Não é porque uma instituição tem torcida grande que o mercado vai pagar mais caro por esse instrumento.

O próprio exemplo vascaíno serve de alerta. Se fosse tão fácil transformar potencial construtivo em dinheiro, São Januário já estaria em outro estágio de financiamento. O Flamengo, ao revisar estudos e reduzir expectativas sobre essa fonte de receita, parece ter feito uma correção de rota importante. É melhor lidar com uma conta menos glamourosa, porém realista, do que vender ao torcedor uma solução mágica que pode não se concretizar no ritmo desejado.

O Mundial, os CTs e a relação com o Maracanã

A Fifa analisou 261 locais em 52 cidades de 19 estados brasileiros. A primeira lista tem 38 centros de treinamento, e novas instalações ainda podem ser incluídas em uma segunda versão do catálogo, prevista para ser lançada até o fim de 2026, com a definição das seleções classificadas, o sorteio e a tabela dos jogos. No Rio, além de Botafogo, Fluminense e Vasco, aparecem a Escola de Educação Física do Exército, na Urca, e a Granja Comary, em Teresópolis.

As propostas de aluguel para centros de treinamento giram em torno de R$ 500 mil, a depender do tempo de uso das instalações. No Maracanã, o aluguel por jogo pode render US$ 200 mil, valor superior a R$ 1 milhão. Esses números mostram que existe dinheiro na mesa, mas também deixam claro que a decisão não pode ser vista apenas pelo lado financeiro. Para clubes com estrutura estratégica, o custo de perder controle operacional pode ser maior que a receita pontual.

No caso do Flamengo, o Ninho do Urubu não é apenas um conjunto de campos. É o centro de comando do futebol profissional, da base, da preparação física, da recuperação médica e da rotina competitiva. Ceder esse espaço em um ano de temporada longa, mesmo durante uma pausa parcial, exigiria abrir mão de uma engrenagem fundamental. Ao recusar a liberação, o clube preserva o que considera essencial para seu planejamento.

A decisão final revela um Flamengo mais pragmático do que simbólico. A Fifa queria opções, o Rio ofereceu estruturas, rivais negociam espaços e o Rubro-Negro preferiu proteger sua operação. Não há escândalo nisso. Há gestão de prioridade. O clube pode e deve colaborar com grandes eventos quando isso fizer sentido, mas não tem obrigação de subordinar seu futebol a uma vitrine internacional se a contrapartida esportiva for ruim. O Mundial Feminino de 2027 será importante para o Brasil, para o futebol e para a cidade. O Flamengo, no entanto, não precisa entregar o Ninho para provar grandeza. Grandeza, neste caso, também é saber dizer não.

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