Morre Luiz Carlos Barreto, o Barretão, cineasta rubro-negro homenageado pelo Flamengo aos 98 anos

Luiz Carlos Barreto morreu nesta quarta-feira (22), aos 98 anos, no Rio de Janeiro, deixando uma obra que ajuda a explicar o Brasil pela lente do cinema, pela paixão popular e por uma relação afetiva com o Flamengo que atravessou quase toda a sua vida. Conhecido como Barretão, ele foi produtor, diretor, fotógrafo, figura central do Cinema Novo e um rubro-negro de presença constante no Maracanã, onde acompanhava jogos ao lado de personagens do tamanho de Nelson Rodrigues. A morte foi confirmada em meio a uma onda de homenagens no meio cultural e esportivo, com o Flamengo também publicando nota oficial para lamentar a perda de um torcedor cuja trajetória se confundiu com parte da cultura brasileira.
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A ligação de Barretão com o Flamengo não era apenas de arquibancada. Segundo a nota do clube, ele chegou jovem ao Rio de Janeiro, vindo do Ceará, treinou nas categorias de base rubro-negras e defendeu o time de aspirantes. Depois, mesmo seguindo outro caminho profissional, nunca rompeu com o clube. Ao contrário: levou para a vida adulta a mesma paixão que nasce no campo, se transforma em memória e, no caso dele, acabou atravessando a própria obra. O futebol, para Luiz Carlos Barreto, não era um acessório. Era parte da maneira como ele olhava o país.
Um nome central do cinema brasileiro
Barreto esteve por trás de obras decisivas para a história do cinema nacional. Sua trajetória passa por documentários como Garrincha, Alegria do Povo e Isto é Pelé, além de clássicos como Vidas Secas, Terra em Transe, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Bye Bye Brasil. Ao longo da carreira, somou mais de 70 filmes por meio da LC Barreto, produtora que ajudou a formar, consolidar e internacionalizar parte da linguagem cinematográfica brasileira.
Não é pouca coisa. Falar de Luiz Carlos Barreto é falar de um Brasil que tentou se enxergar na tela sem pedir licença aos modelos estrangeiros. Ele participou de um período em que o cinema brasileiro queria mostrar a fome, a política, o povo, a festa, a tragédia, a beleza e a contradição do país. Em vez de uma arte domesticada, esteve ligado a uma produção que buscava identidade, inquietação e linguagem própria. Essa talvez seja a melhor forma de entender sua grandeza: Barretão não apenas fez filmes; ajudou a construir uma forma brasileira de filmar o Brasil.
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Flamengo, Maracanã e cultura popular
A presença do Flamengo nessa história é mais do que uma curiosidade de rodapé. O clube, em sua dimensão popular, sempre foi um dos grandes personagens culturais do país. Barretão entendia isso. O Maracanã, os domingos, a massa rubro-negra, a conversa com Nelson Rodrigues, a lembrança do time de aspirantes e a fidelidade ao clube formam uma camada afetiva que aproxima cinema e futebol como expressões de um mesmo território: o povo brasileiro em cena.
Sua família também se manteve ligada à arte. Casado com Lucy Barreto, foi pai de Bruno, Fábio e Paula Barreto, todos ligados ao cinema. Paula é casada com Cláudio Adão, ex-jogador com passagem marcante pelo Flamengo, o que reforça essa ponte entre futebol e cultura dentro da própria trajetória familiar. É uma conexão que parece simbólica demais para ser tratada como acaso: de um lado, a câmera; do outro, a bola; no meio, o Fla como espaço de pertencimento.
A morte de Luiz Carlos Barreto não encerra apenas uma biografia. Ela marca a despedida de uma geração que ajudou a dar densidade ao cinema nacional e que viveu o futebol como fenômeno cultural, não como produto desidratado de mercado. Em tempos de consumo rápido, memória curta e debate público empobrecido, lembrar Barretão é lembrar que o Brasil também se explica por seus artistas e por seus torcedores. Ele foi os dois com intensidade rara, deixando uma obra que permanece e uma paixão rubro-negra que o Flamengo, corretamente, reconheceu em sua homenagem.
Nota do Flamengo:
“O Clube de Regatas do Flamengo lamenta o falecimento de Luiz Carlos Barreto, o “Barretão”, aos 98 anos.
Mais do que um torcedor apaixonado, Barretão teve uma ligação única com o Rubro-Negro: ainda jovem, recém-chegado do Ceará ao Rio de Janeiro, treinou nas categorias de base e chegou a defender o time de aspirantes do Flamengo. Ao longo da vida, foi presença constante no Maracanã, onde acompanhava os jogos ao lado de nomes como Nelson Rodrigues.
Essa paixão pelo futebol atravessou sua obra: esteve por trás de documentários históricos como “Garrincha, Alegria do Povo” e “Isto É Pelé”, além de clássicos do cinema nacional como “Vidas Secas”, “Terra em Transe”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “Bye Bye Brasil”, somando mais de setenta filmes por meio de sua produtora, a L.C. Barreto.
Casado com Lucy Barreto e pai dos também cineastas Bruno, Fábio e Paula Barreto, deixa um legado que une cinema e futebol na cultura brasileira.
Nossos sentimentos à família e a todos que conviveram com sua obra. Descanse em paz, Barretão.”
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