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Gazela Negra relembra convite do Vasco, desconfiança de Ary Barroso e chegada histórica ao Flamengo

Gazela Negra relembra convite do Vasco, desconfiança de Ary Barroso e chegada histórica ao Flamengo

Erica Lopes da Silva, a Gazela Negra do Flamengo, não chegou ao clube como uma personagem pronta para o mural da Gávea, para o samba do centenário ou para a memória afetiva da torcida. Ela chegou como uma corredora gaúcha, vinda de Porto Alegre, ainda tentando convencer o centro esportivo do país de que seus tempos nas pistas eram reais. No fim de 1960, depois de passar por Internacional e Grêmio, a velocista desembarcou no Rio de Janeiro a convite do Vasco, mas acabou atravessando a cidade e a rivalidade para se tornar uma das maiores atletas da história rubro-negra. Na entrevista concedida a Tulio Rodrigues e Gilson Lima, no Ser Flamengo, a ex-corredora contou como recusou o caminho inicial em São Januário, foi buscada por enviados do Fla, encarou a desconfiança de Ary Barroso e provou no Maracanã, com as pernas, que a camisa rubro-negra havia encontrado uma campeã.


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A história tem todos os elementos de uma boa crônica esportiva, mas não deve ser tratada apenas como folclore. Ela revela o modo como uma mulher negra, velocista, gaúcha e distante do eixo tradicional de visibilidade precisou provar mais do que os outros para ser reconhecida. Erica já fazia tempos que, segundo ela, justificariam convocação para a Seleção Brasileira, mas ouvia que não acreditavam na existência de uma corredora daquele nível em Porto Alegre. A pista, para ela, era espaço de afirmação. O Rio, ao mesmo tempo, era promessa e desconfiança. O Flamengo, nesse contexto, não foi apenas o clube que a contratou. Foi o lugar onde sua carreira ganhou nome, identidade e grandeza continental.

A entrevista recupera uma passagem preciosa da memória rubro-negra porque mostra que a chegada de Erica ao Flamengo não foi linear. Ela veio ao Rio inicialmente por uma porta aberta pelo Vasco. Ao chegar, porém, diz ter cometido um “vexame” de juventude e pobreza, como definiu, ao afirmar que não queria vestir a camisa vascaína porque a via como “pano de chão”. A própria Erica, décadas depois, disse ter ficado envergonhada da frase. O episódio, contado com humor e autocrítica, mostra uma jovem ainda tentando se situar em uma cidade nova, carregando perdas familiares, inseguranças e a necessidade de encontrar um ambiente que a acolhesse.

O Flamengo entrou nessa história por meio de Oswaldo Aranha Filho, então presidente rubro-negro, também gaúcho, que conhecia os feitos da atleta em Porto Alegre. Erica contou que um carro passou a esperá-la na casa de uma amiga que a hospedava no Rio. No início, teve medo, porque a cidade ainda era desconhecida e a abordagem parecia estranha. Depois de ver o carro por mais de um dia, decidiu perguntar o que queriam com ela. A resposta mudaria sua trajetória: eram representantes do clube, enviados pelo presidente, para convidá-la a dar uma oportunidade ao clube.

O convite do Vasco e a chegada pela mão do Flamengo

O detalhe mais interessante da lembrança de Erica é que o Flamengo não aparece como destino óbvio desde o primeiro minuto. Ela não chegou ao Rio dizendo que seria rubro-negra. Veio por uma possibilidade ligada ao Vasco, ainda sem acordo fechado, mas foi convencida pela iniciativa de Oswaldo Aranha Filho. Quando os enviados perguntaram se ela já estava comprometida com São Januário, respondeu que não havia acertado nada e que ainda precisava “ficar simpática ao Vasco”. Antes de seguir com os homens do Flamengo, avisou a irmã, por cautela, e foi ao escritório do presidente rubro-negro.

Na lembrança da Gazela Negra, Oswaldo Aranha Filho foi direto e afetivo. Com sotaque gaúcho, teria dito que ela não iria para o Vasco coisa nenhuma, porque iria para o Flamengo. Erica se derreteu, como contou, justamente por ouvir aquele jeito do Sul em meio ao Rio de Janeiro. A cena diz muito sobre pertencimento. Uma atleta que havia deixado Porto Alegre, perdido os pais e chegado a uma cidade desconhecida encontrou, no presidente rubro-negro, uma espécie de ponte emocional. O convite não foi apenas profissional. Houve ali uma identificação, um gesto de acolhimento e uma aposta.

O Flamengo a levou à sede para conhecer o clube, mas a entrada no ambiente rubro-negro ainda exigiria uma prova simbólica. Erica contou que, em uma reunião, começou a expor suas condições. Disse que não queria ficar de qualquer maneira no Rio, que preferia morar em casa de família ou pensionato e que tinha preocupações sobre a mudança. Foi nesse momento que apareceu Ary Barroso, uma das figuras mais emblemáticas da cultura brasileira e da paixão flamenguista. Segundo a lembrança da ex-atleta, Ary reagiu à postura da recém-chegada com uma provocação: aquela gaúcha estaria “cheia de goma”, como quem duvidava de suas exigências e talvez de seu tamanho esportivo.

A resposta de Erica foi simples e definitiva. Ela não fez discurso, não pediu paciência e não apresentou currículo. Chamou Ary Barroso para ver sua corrida no sábado, no Maracanã, e prometeu que ali ele descobriria se ela era boa ou não. A frase carrega a segurança de quem sabia que a pista era seu tribunal. Num esporte em que o cronômetro não negocia reputação, Erica escolheu o melhor argumento possível: correr.

Ary Barroso viu, desceu da bancada e abraçou a campeã

No sábado, Ary Barroso estava na bancada do Flamengo no Maracanã. Erica correu e, nas palavras dela, “deu um capote” nas adversárias. A imagem é forte porque transforma o julgamento em cena. O homem que duvidara, ou ao menos provocara, viu a resposta da pista. A atleta que ainda buscava espaço no Rio não apenas venceu; venceu de forma incontestável. Depois da prova, Ary desceu correndo da arquibancada, abraçou Erica e cravou que ela já era do Flamengo.

Essa passagem é uma das mais bonitas da entrevista porque reúne tensão, prova e reconhecimento. Ary Barroso, figura que ajudou a moldar o imaginário popular do Flamengo, aparece ali como testemunha de uma virada. Ele não foi convencido por promessa, fama regional ou conversa de dirigente. Foi convencido pela corrida. E Erica, que carregava a desconfiança sobre sua origem esportiva, encontrou no próprio desempenho a chave para entrar definitivamente no clube.

Depois daquele dia, segundo ela, nasceu um encanto que nunca acabou. Erica disse que se encantou com o Flamengo, que gosta do clube, do ambiente e que sempre foi bem recebida. A frase não é apenas declaração de torcedora. É o testemunho de uma atleta que encontrou no rubro-negro um espaço de reconhecimento, ainda que esse reconhecimento tenha sido conquistado no braço, na perna e no peito. O Flamengo a acolheu, mas ela também obrigou o Flamengo a enxergá-la.

A rivalidade com o Vasco virou detalhe de vida

O Vasco continuou atravessando a história de Erica Lopes, mas de uma maneira inesperada. Depois de se firmar no Flamengo, ela começou a namorar um dirigente ligado ao clube de São Januário, antigo atleta vascaíno e português. A situação virou brincadeira interna. Segundo Erica, houve até temor de que ele quisesse levá-la para o Vasco, a ponto de a entrada dele ter sido proibida em determinada circunstância. O mal-entendido só se resolveu quando ele explicou que não queria tirar Erica do Flamengo, mas namorar e casar com ela.

A memória é deliciosa porque humaniza a rivalidade. De um lado, o Flamengo que a recebeu e a transformou em ídolo. Do outro, o Vasco que havia feito o convite inicial e depois entrou na vida dela pelo amor. No casamento, Erica contou que um lado da igreja era de vascaínos e o outro de flamenguistas. Jogadores, lutadores e amigos compareceram, como se sua vida particular também fosse uma pequena arquibancada dividida entre afeto e provocação.

A graça desse episódio não diminui a seriedade da escolha esportiva. Erica fez do Flamengo sua casa. Mesmo com a ligação familiar com o Vasco, mesmo com o marido vindo de outro universo clubístico, ela permaneceu rubro-negra na identidade e na carreira. Mais tarde, atuaria também como treinadora, mantendo o vínculo com o atletismo. Sua história mostra que rivalidade, quando não é empobrecida pelo ódio, pode fazer parte da vida sem apagar admiração, respeito e convivência.

No caso de Erica, o Vasco foi quase a porta de entrada, mas o Flamengo virou destino. Essa diferença resume muito. O convite vascaíno a trouxe ao Rio; a aposta rubro-negra a transformou em personagem histórica. Entre um e outro, houve uma corrida no Maracanã, uma provocação de Ary Barroso e uma resposta que não deixou espaço para dúvida.

Como nasceu a Gazela Negra

O apelido que eternizou Erica Lopes também nasceu da imprensa e do contexto internacional. Ela contou que soube depois da comparação com uma atleta norte-americana que havia brilhado na Olimpíada de Roma, vencedora dos 100m e 200m, suas provas principais. A referência era Wilma Rudolph, estrela dos Jogos de 1960, também chamada de Gazela Negra. A imprensa carioca, segundo Erica, passou então a afirmar que o Brasil também tinha a sua Gazela Negra.

A frase “Nós também temos a nossa Gazela Negra” carrega orgulho e disputa simbólica. O Brasil, tantas vezes olhando para fora em busca de parâmetros, encontrava em Erica uma resposta local. Havia uma velocista brasileira, negra, rubro-negra, capaz de ganhar tudo o que disputava e de transformar velocidade em imagem pública. O apelido, que poderia ter sido apenas manchete passageira, colou porque havia verdade esportiva por trás dele.

É importante notar que Erica não se tornou Gazela Negra por campanha de marketing. O nome veio depois da pista, depois das vitórias, depois da capacidade de dominar provas curtas com uma superioridade que impressionava adversárias, treinadores e jornalistas. Hoje, quando o apelido aparece em samba, mural, homenagem e memória rubro-negra, ele já não pertence apenas à imprensa que o criou. Pertence à história do Flamengo.

Essa história, porém, precisa ser contada com o cuidado de não reduzir Erica a uma alcunha bonita. A Gazela Negra era, antes de tudo, uma atleta de alto rendimento. Especialista nos 100m e 200m rasos, foi recordista sul-americana em 1963 nos 100m, nos 200m e no revezamento 4x100m, além de medalhista de bronze nos Jogos Pan-Americanos daquele ano. O apelido encanta, mas os resultados sustentam a lenda.

A dor de correr pelo Flamengo no dia do enterro da irmã

Entre as memórias recuperadas na entrevista, uma das mais fortes envolve a morte da irmã Zoraide. Erica contou que foi a São Paulo para uma competição e recebeu a notícia do falecimento durante a viagem. Mesmo assim, não pôde deixar de competir porque, segundo relatou, o Flamengo dependia dela para conquistar o resultado necessário. No momento em que correria os 200m, a irmã estava sendo enterrada.

A cena é dura e não precisa ser romantizada. O esporte muitas vezes cobra sacrifícios que só aparecem depois, quando a medalha já perdeu o brilho imediato e resta a lembrança da dor. Erica competiu, venceu e dedicou a vitória à irmã e ao Flamengo. O clube ganhou o Troféu Brasil, mas aquela corrida ficou marcada por uma perda íntima. É uma história de força, mas também de um tempo em que atletas carregavam pesos emocionais enormes sem a rede de apoio que hoje ao menos se reconhece como necessária.

Esse episódio ajuda a explicar por que Erica fala do Flamengo com tanta intensidade. O clube não foi apenas o lugar das vitórias alegres. Foi também o cenário de perdas, decisões difíceis, acolhimento e pertencimento. Ela lembra do carinho recebido, de figuras que a ampararam e da sensação de que precisava correr porque a equipe dependia dela. A Gazela Negra construiu sua relação com o Flamengo em dias de glória, mas também em momentos de luto.

É nesse ponto que se precisa fugir da tentação de transformar tudo em nostalgia. O passado de Erica Lopes é bonito, mas também revela como o esporte brasileiro, principalmente nas modalidades menos valorizadas, muitas vezes exigiu demais e devolveu pouco. A memória rubro-negra precisa celebrar, mas também entender o tamanho humano de quem carregou o clube nas pistas quando quase ninguém fora daquele ambiente prestava atenção.

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A Erica do Flamengo no Sul-Americano

O auge continental veio em 1963, no Campeonato Sul-Americano de Cali, na Colômbia. Erica contou que conhecia treinadores argentinos e uruguaios desde os tempos de Porto Alegre, por causa da convivência esportiva no Sul. Antes da competição, um treinador argentino teria dito que não havia tempo para ela bater o recorde sul-americano, já que uma adversária havia melhorado a marca pouco antes. A resposta de Erica entrou para a memória da entrevista: “Você não me viu correr. Agora eu sou a Erica do Flamengo”.

A frase é mais do que uma bravata. Ela mostra como a camisa rubro-negra havia se tornado parte de sua identidade competitiva. Erica não se apresentava apenas como uma velocista brasileira ou gaúcha. Naquele momento, ela era a Erica do Flamengo. O clube funcionava como força simbólica, como combustível emocional, como afirmação de pertencimento diante de rivais continentais.

Na pista, a resposta veio de novo. Erica disse que bateu o recorde sul-americano na semifinal e melhorou a marca na final. O momento em que aguardava o resultado no painel, ao lado do treinador argentino, virou fotografia celebrizada e posteriormente lembrada em homenagens rubro-negras, inclusive no muro da Gávea. O estádio vibrou, as delegações celebraram, e a adversária argentina teria reconhecido que jamais faria o tempo alcançado pela brasileira.

Esse capítulo consolida o que começou no Maracanã. A atleta que precisou provar a Ary Barroso que era boa se tornou campeã sul-americana e recordista continental. O Flamengo que a recebeu com curiosidade passou a ter em Erica um símbolo de excelência. E a corredora que veio ao Rio a convite do Vasco virou uma das expressões mais fortes da história poliesportiva rubro-negra.

O Flamengo que precisa lembrar suas pistas

A história de Erica Lopes também serve como crítica ao modo como o Flamengo, e o próprio jornalismo esportivo, costuma administrar sua memória. O clube é gigante no futebol, e isso é incontornável, mas sua grandeza não foi construída apenas com gols, títulos nacionais e noites de Maracanã lotado. Há também a história das pistas, das piscinas, dos ginásios, das mulheres que venceram em silêncio, dos atletas que representaram o escudo sem receber a mesma projeção dos craques da bola.

Erica é uma dessas figuras que impedem a memória rubro-negra de ficar estreita. Ela obriga o Flamengo a se lembrar como clube, não apenas como time. Seu nome na Calçada da Fama, sua presença em sambas, sua imagem em homenagens e sua trajetória como atleta e treinadora mostram uma instituição que, quando olha para além do futebol, encontra personagens de enorme força pública.

O curioso é que essa memória muitas vezes sobrevive mais pela insistência de torcedores, pesquisadores, canais independentes e apaixonados pelo clube do que por uma política permanente de valorização. A entrevista do Ser Flamengo tem importância justamente por isso. Ao sentar diante de Erica Lopes, Tulio Rodrigues e Gilson Lima não apenas colheram boas histórias. Deram tempo, escuta e espaço para uma mulher que deveria ser conhecida por qualquer rubro-negro que se orgulhe da história do clube.

Quando a Gazela Negra conta que se encanta com o Flamengo até hoje, ela também devolve uma responsabilidade. O clube que encantou Erica no início dos anos 1960 precisa seguir à altura da memória que ela ajudou a construir. Não basta citar seu nome em datas redondas. É preciso narrar sua chegada, seu confronto com a desconfiança, sua vitória diante de Ary Barroso, suas conquistas nacionais e continentais, sua dor no dia do enterro da irmã, sua felicidade em ser chamada de Gazela Negra e seu papel como símbolo de um Flamengo mais amplo.

ENTREVISTA COMPLETA:

A chegada que virou destino

A chegada de Erica Lopes ao Flamengo é uma história de escolha, acaso, rivalidade e afirmação. O Vasco a convidou, o Flamengo a buscou, Oswaldo Aranha Filho apostou, Ary Barroso duvidou, o Maracanã testemunhou, e a pista decidiu. A partir dali, o clube ganhou uma atleta capaz de transformar velocidade em identidade, e Erica encontrou o ambiente em que sua carreira alcançaria o auge.

O mais bonito dessa memória é que ela não foi construída sem tensão. Há medo na chegada ao Rio, vergonha no episódio da camisa do Vasco, exigências sobre moradia, provocação de Ary, necessidade de provar valor e dor familiar no meio das competições. A lenda não nasce limpa, pronta e embalada para homenagem. Ela se forma no atrito da vida real, na corrida que precisa ser vencida, no reconhecimento que vem depois da prova.

Por isso, a história da Gazela Negra não pode ser tratada como curiosidade de almanaque. Ela é uma chave para entender o Flamengo como espaço de disputa simbólica, acolhimento e grandeza poliesportiva. Erica Lopes não foi apenas uma atleta que passou pelo clube. Ela se tornou uma personagem capaz de ligar Porto Alegre ao Maracanã, o Vasco ao Flamengo, Ary Barroso às pistas, o samba à velocidade e a memória rubro-negra à história do esporte brasileiro.

No fim, talvez a frase mais reveladora seja a que ela disse sobre o próprio pertencimento: “Eu sou feliz de ser Flamengo”. Não é uma declaração vazia. É o balanço de uma vida que começou sob desconfiança, atravessou provas, perdas e recordes, e terminou inscrita na memória do clube. Antes de ser Gazela Negra, Erica Lopes precisou mostrar no Maracanã que era boa. Depois daquele sábado, ninguém mais pôde dizer que o Flamengo não sabia quem ela era.

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