Hipócritas! Vasco nunca quis recuperar o Maracanã nas crises; Flamengo sempre tomou a iniciativa

Hipócritas! Vasco nunca quis recuperar o Maracanã nas crises; Flamengo sempre tomou a iniciativa

O debate sobre quem tem direito de explorar o Maracanã voltou a ganhar força no futebol carioca, mas a disputa atual deixa de lado uma parte relevante da própria história do estádio. Nas duas principais crises recentes, após os Jogos Olímpicos de 2016 e durante o processo que levou ao rompimento da concessão com o antigo consórcio em 2019, foi o Flamengo quem tomou medidas concretas para manter ou recuperar a operação do complexo. O Vasco, embora hoje reivindique protagonismo sobre o estádio por sua relação histórica com o Maracanã, não participou dessas iniciativas nos momentos em que havia necessidade de investimento, articulação política e assunção de riscos.


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A história começa quando o Maracanã ficou sem dono

O ponto central da discussão está justamente nos momentos em que o estádio deixou de ser uma operação atraente e passou a representar um problema financeiro e administrativo.

Depois dos Jogos Olímpicos de 2016, o Maracanã entrou em um verdadeiro limbo. O consórcio responsável pela concessão, liderado pela Odebrecht, acumulava prejuízos e não demonstrava interesse em continuar assumindo os custos do complexo. O governo do Estado, proprietário do estádio, também enfrentava uma grave crise financeira.

Em janeiro de 2017, imagens exibidas pelo Jornal Nacional mostravam um Maracanã abandonado, com cadeiras danificadas, sujeira e problemas de manutenção. O estádio, reformado para a Copa do Mundo de 2014 por mais de R$ 1,3 bilhão em recursos públicos, encontrava-se sem uma estrutura operacional adequada.

Naquele momento, a pergunta sobre onde estava o Vasco é pertinente porque o clube hoje utiliza sua relação histórica com o estádio como argumento para defender participação no complexo. Na crise, porém, não houve uma iniciativa semelhante para assumir custos, organizar a operação ou recuperar as instalações.

Flamengo assumiu riscos quando ninguém queria assumir a conta

Em 2016, enquanto o Maracanã permanecia preso ao conflito entre governo, Comitê Rio 2016 e concessionária, o Flamengo articulou a realização de partidas no estádio. O clube assumiu custos operacionais, negociou diretamente com fornecedores e arcou com despesas necessárias para colocar o equipamento novamente em funcionamento.

Um dos jogos foi o confronto contra o Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro, em outubro daquele ano. A operação gerou receita ao Flamengo, mas o ponto principal não estava apenas na bilheteria. O clube assumia naquele momento um risco que interessava pouco à concessionária e representava um problema para o governo estadual.

A situação voltou a se repetir em 2017. Com o Maracanã novamente deteriorado, o Flamengo montou uma força-tarefa para recuperar o estádio antes da estreia na Libertadores. Foram realizados reparos elétricos e hidráulicos, limpeza, manutenção do gramado, recuperação de telões, cadeiras, catracas, bilheterias e estruturas de segurança.

O clube também assumiu débitos de energia elétrica que chegavam a cerca de R$ 1,35 milhão. A operação envolveu aproximadamente dez empresas e cerca de 150 trabalhadores em turnos sucessivos durante aproximadamente 20 dias. O resultado não ficou apenas para o Flamengo. As melhorias incorporadas ao estádio permaneceram no complexo e beneficiaram a própria concessão. E novamente não há registro de uma mobilização equivalente do Vasco para participar daquela recuperação.

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A crise da concessão e a articulação de 2019

A história não terminou com a recuperação emergencial. Em 2018, ainda na gestão Eduardo Bandeira de Mello, o Flamengo passou a articular politicamente uma solução para o problema da concessão. Após a eleição de Wilson Witzel para o governo do Estado, Bandeira se reuniu com o governador eleito para discutir uma nova licitação e a participação dos clubes.

Em 2019, já com Rodolfo Landim na presidência, as conversas avançaram. O Flamengo apresentou propostas que buscavam demonstrar a capacidade dos clubes de assumir os custos de manutenção do complexo. A ideia inicial também contemplava o Vasco.

O clube foi procurado para participar da operação, mas recusou o modelo proposto. A estrutura previa que o Flamengo assumisse a liderança da gestão porque apresentaria as garantias financeiras necessárias, enquanto os demais clubes teriam participação proporcional. O Vasco queria igualdade de controle sem apresentar as mesmas garantias financeiras. Diante do impasse, o Rubro-Negro procurou o Fluminense, que aceitou participar da proposta.

O movimento desembocou no rompimento do contrato com a antiga concessionária e na posterior gestão compartilhada entre Flamengo e Fluminense.

O paradoxo do discurso atual

É nesse ponto que o debate atual ganha outra dimensão. O Vasco pode, evidentemente, reivindicar sua importância histórica no Maracanã. O clube tem uma trajetória construída no estádio e possui vínculos afetivos que não podem ser apagados. O problema está em transformar essa memória em argumento suficiente para reivindicar participação na exploração de um equipamento cuja manutenção custa milhões de reais.

Uma concessão não funciona apenas pela quantidade de torcedores ou pela história acumulada nas arquibancadas. Existe uma operação financeira, custos de manutenção, funcionários, segurança, energia, gramado, tecnologia, conservação e uma série de obrigações que precisam ser pagas. É justamente nesse ponto que a história recente estabelece uma diferença entre discurso e ação.

Quando o Maracanã estava abandonado, era necessário colocar dinheiro e assumir riscos. Quando havia um passivo milionário e ninguém queria ficar com a conta, o Flamengo avançou. Quando surgiu a necessidade de articular uma nova solução política para a concessão, o clube também se movimentou. O Vasco apareceu interessado na operação quando as condições eram mais favoráveis, mas não participou das principais iniciativas de recuperação nos períodos mais delicados.

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A discussão atual, portanto, não deveria começar pela pergunta sobre quem possui mais história no Maracanã. Deveria começar por outra: quem esteve disposto a assumir o estádio quando ele precisava ser recuperado? A resposta, olhando para os episódios de 2016, 2017 e 2019, aponta para o Flamengo.

Isso não significa transformar o clube em dono moral do Maracanã. Tampouco apaga a importância histórica de Vasco, Fluminense e Botafogo. O estádio é patrimônio do Estado e sua exploração deve obedecer às regras estabelecidas pelo poder público. Mas existe uma diferença entre ter memória e assumir responsabilidade.

O Flamengo pode ser criticado por suas escolhas, pelas negociações que fez e pelo modelo de concessão atualmente existente. Aliás, a própria estrutura da concessão merece ser discutida, especialmente pela falta de autonomia que os clubes possuem na administração do complexo. O que não parece razoável é reconstruir a história como se todos os clubes tivessem participado igualmente das etapas em que o Maracanã esteve abandonado, sem operação definida ou ameaçado de perder sua função esportiva.

Nessas horas, quando era necessário investir, negociar e assumir riscos, o protagonismo foi do Flamengo. E é justamente essa parte da história que desaparece quando o debate se resume à memória afetiva.

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