O futebol brasileiro voltou a oferecer um daqueles roteiros que ajudam a entender por que certas discussões só ganham corpo quando o escândalo ultrapassa fronteiras clubísticas. O diretor da base do Palmeiras, João Paulo Sampaio, passou a ser acusado publicamente de usar sua posição dentro do Movimento dos Clubes Formadores (MCF) para prejudicar o Corinthians, rival histórico, em um episódio que mistura denúncia por aliciamento, exclusão institucional, perda esportiva nas categorias de base e, sobretudo, um conflito de interesses difícil de ignorar. O caso ganhou força a partir de manifestações de ex-dirigentes corintianos, reportagens da imprensa segmentada e repercussão nas redes, mas ainda caminha sob um silêncio incômodo de parte relevante da grande mídia.
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A denúncia que desencadeou o imbróglio partiu do próprio Palmeiras, que acusou o Corinthians de aliciamento na contratação de um atleta de 14 anos. O pedido foi levado ao MCF, entidade informal criada como um “acordo de cavalheiros” entre clubes formadores para coibir práticas predatórias no futebol de base. O detalhe que transformou o debate em algo maior está no fato de João Paulo Sampaio acumular funções: além de diretor da base palmeirense, ele ocupa cargo de direção dentro do próprio MCF, instância responsável por analisar e encaminhar casos como o que envolveu o Corinthians.
O caso Corinthians e a exclusão do MCF
A consequência foi dura. O Corinthians acabou excluído do Movimento dos Clubes Formadores, perdeu acesso a competições relevantes nas categorias menores e passou a enfrentar um efeito dominó. Sem o respaldo do MCF, atletas das divisões de base ficaram mais vulneráveis a saídas, muitas delas justamente para o Palmeiras. A coincidência, para usar um termo generoso, virou argumento recorrente entre dirigentes corintianos.
Claudinei Alves, ex-diretor da base do clube do Parque São Jorge, foi direto ao ponto em manifestação pública. Classificou como “hipocrisia escancarada” o comportamento de João Paulo Sampaio, apontando que o mesmo dirigente que se apresenta como defensor da ética teria usado sua posição institucional para beneficiar o clube que representa e fragilizar um rival direto. Segundo ele, o atleta citado na denúncia já possuía vínculo anterior com o Corinthians, fato documentado em dossiê entregue à gestão seguinte, o que tornaria a acusação ainda mais controversa.
A tentativa de acordo também ajuda a ilustrar o cenário. O Corinthians propôs dividir direitos econômicos em 50%, prática comum no mercado de formação. O Palmeiras, por sua vez, teria exigido pagamento de R$ 1 milhão ou a devolução do jogador para retirar a queixa. Sem consenso, veio a exclusão.
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Base como território de poder
O episódio escancara um problema estrutural. O MCF não é uma entidade formal, mas exerce poder real. Decide quem participa de torneios, quem fica à margem e, na prática, influencia diretamente a trajetória esportiva e financeira de jovens atletas. Quando um dirigente ativo de um clube relevante ocupa posição de comando nesse ambiente, a linha entre interesse coletivo e conveniência institucional fica perigosamente tênue.
Erasmo Damiani, atual executivo da base do Corinthians, confirmou que as conversas para o retorno ao MCF estão paralisadas por decisão do Palmeiras. Mais do que um impasse administrativo, trata-se de um bloqueio que atinge categorias sub-15 e sub-14, justamente aquelas que não contam com calendário nacional robusto. Quem paga o preço são os atletas, privados de competições, vitrine e desenvolvimento adequado.
O precedente que ninguém quer discutir
Casos semelhantes já ocorreram no passado. Em 2013 e 2014, o São Paulo quase ficou fora da Copinha por não chegar a acordo com a Ponte Preta na situação envolvendo o goleiro Lucas Perri. A diferença é que, agora, o conflito ganha contornos ainda mais delicados ao envolver um dirigente que atua simultaneamente como parte interessada e julgador indireto.
A crítica não é ao Palmeiras enquanto instituição, nem à legitimidade de denunciar possíveis irregularidades. O ponto central é outro: a incompatibilidade ética de ocupar cargos estratégicos em entidades que deveriam ser isentas, enquanto se defende, no dia a dia, os interesses de um clube específico. É o mesmo debate que aparece em outras frentes do futebol brasileiro, seja na Liga Forte União, seja na Libra, sempre que dirigentes acumulam funções e influência.
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É aqui que a comparação se impõe quase como exercício retórico inevitável. Se um diretor da base do Flamengo integrasse a direção de um movimento de clubes formadores, denunciasse o Fluminense, contribuísse para sua exclusão e, em seguida, passasse a contratar atletas da base tricolor, o ambiente entraria em ebulição. Manchetes, editoriais indignados, programas esportivos dedicariam horas ao tema. A régua, porém, não parece ser a mesma.
O silêncio em torno do caso, salvo exceções pontuais, ajuda a entender por que o futebol brasileiro convive tão bem com zonas cinzentas. O discurso da ética aparece quando convém. O da isenção, quase nunca.
O que está em jogo vai além de Palmeiras e Corinthians. Trata-se da credibilidade dos mecanismos de proteção à formação de atletas e da necessidade urgente de separar funções, estabelecer regras claras e evitar que acordos informais se transformem em instrumentos de poder concentrado. Quando isso não acontece, o futebol perde, os jovens perdem e a seletividade vira regra.
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