Leila repete falas de Bap sobre futebol feminino e Renata Mendonça e a imprensa ficam em silêncio

Leila repete falas de Bap sobre futebol feminino e Renata Mendonça e a imprensa ficam em silêncio
Imagem: Reprodução/SporTV

A entrevista concedida por Leila Pereira durante a decisão da Supercopa Feminina, entre Palmeiras e Corinthians, em Barueri, viralizou não pelo conteúdo em si, mas pelo silêncio que se seguiu. Questionada por Renata Mendonça sobre a “casa” do futebol feminino do Palmeiras e a possibilidade de mais jogos no Allianz Parque, a presidente alviverde respondeu com franqueza pouco comum no debate público. Expôs custos, limitações operacionais, dependência de receitas e, principalmente, a responsabilidade compartilhada entre clubes, CBF e emissoras. O curioso não foi o que Leila disse, mas o que a imprensa escolheu não discutir depois.


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Leila argumentou que o torcedor precisa acompanhar o Palmeiras onde o clube estiver, citou a reforma e a estrutura de Barueri e lembrou que mandar partidas no Allianz Parque, no caso do futebol feminino, gera custos diretos ao clube. Diferentemente do masculino, o feminino não opera com margens que permitam absorver aluguel, operação de estádio e logística sem retorno financeiro. A conta não fecha. E ela deixou isso claro.

O ponto central, porém, veio quando a dirigente ampliou o debate. Falou sobre a falta de investimento das emissoras, sobre horários pouco atrativos e sobre a ausência de repasse relevante de direitos de transmissão. Segundo dados já conhecidos do mercado, clubes recebem valores irrisórios pelo futebol feminino, algo em torno de centenas de milhares de reais por temporada, enquanto as emissoras comercializam cotas milionárias de publicidade. A matemática é simples e desconfortável.

Esse mesmo argumento foi usado recentemente por Luiz Eduardo Baptista, o Bap, em reunião e em declarações públicas. Na ocasião, houve reação imediata, editoriais indignados, notas de repúdio e acusações de insensibilidade. Com Leila Pereira, o tratamento foi outro. Nenhuma manchete crítica, nenhum questionamento mais duro, nenhuma tentativa real de aprofundar o tema. Dois pesos, duas medidas.

O histórico ajuda a entender a seletividade. Quando dirigentes do Flamengo apontam custos operacionais para justificar a não realização de jogos femininos no Maracanã, a resposta costuma ser moral. Quando a presidente do Palmeiras explica que precisa pagar para utilizar o Allianz Parque e que a receita do futebol feminino não cobre essa despesa, o discurso vira técnico, quase didático. O problema deixa de ser estrutural e passa a ser circunstancial.

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Há ainda a questão da entrevista em si. Renata Mendonça, corretamente, não é responsável pelas decisões comerciais da Globo. Cobrá-la diretamente por investimentos ou horários seria injusto. Mas isso não impede que o tema seja levantado no debate público. A emissora é protagonista no ecossistema do futebol brasileiro. Define grade, define exposição, define valor. Ignorar esse papel é tratar o futebol feminino como um produto periférico, condenado a existir apenas quando há polêmica.

O futebol feminino no Brasil evoluiu nos últimos anos, ganhou profissionais qualificadas na imprensa, ampliou visibilidade em grandes competições e começou a criar hábitos de consumo. Ainda assim, segue refém de uma lógica contraditória: cobra-se dos clubes ações simbólicas, como jogar em grandes estádios, enquanto se ignora a base econômica que sustenta o espetáculo. Sem receita, não há cultura que sobreviva.

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O debate perde força quando é reduzido a lacração seletiva. Ele reaparece apenas em episódios de conflito, geralmente envolvendo dirigentes e jornalistas, e some quando deveria avançar para questões centrais: modelo de financiamento, divisão de receitas, estratégia de mídia e compromisso real das entidades. O futebol feminino merece mais do que indignação episódica. Merece análise honesta, mesmo quando ela incomoda aliados históricos da narrativa dominante.

Enquanto isso não acontece, seguimos presos a um ciclo previsível. Polêmica gera engajamento, engajamento vira pauta, a pauta se esgota e o futebol feminino volta ao silêncio. Não por falta de talento ou interesse, mas por ausência de coragem para discutir onde o dinheiro está e por que ele não chega a quem entra em campo.

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