Escolhido pelos torcedores na ação Manto da Nação, o conceito do Urubu de Lima ganhou forma em uma camisa que procura transformar a relação do Flamengo com a capital peruana em símbolos espalhados pelo tecido. Criado pelo designer carioca Marcelo Gluz, o projeto vencedor parte das duas conquistas da Libertadores em Lima, em 2019 e 2025, e mistura referências à cultura peruana, à ancestralidade andina e à identidade rubro-negra. O resultado aparece em duas versões, uma off-white e outra rubro-negra, com os mesmos elementos conceituais e diferentes propostas visuais.
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A ideia começa muito antes da bola rolar no campo. Cerca de 500 quilômetros ao sul de Lima, a civilização Nazca deixou no deserto gigantescos geóglifos de animais, plantas e figuras humanas, desenhos que ganharam sua dimensão completa quando observados do alto. As chamadas Linhas de Nazca permanecem envoltas em mistério e alimentam diferentes interpretações sobre sua finalidade. É justamente desse universo que nasce a narrativa criada para o Manto da Nação. Na história apresentada pelo projeto, um desses desenhos teria estabelecido uma ligação simbólica com os deuses do futebol e selado uma espécie de acordo entre o Flamengo e Lima.
A relação ganhou força em 2019, quando o time rubro-negro conquistou a Libertadores no Estádio Monumental de Lima, diante do River Plate. Seis anos depois, a cidade voltou a testemunhar outra decisão continental vencida pelo clube, desta vez contra o Palmeiras. Duas finais, duas conquistas e uma mesma cidade foram suficientes para transformar Lima em um território afetivo dentro da memória recente do Flamengo. O conceito do Urubu de Lima nasce exatamente dessa coincidência transformada em narrativa.
A figura central da camisa é o El Buitre Limeño, a representação peruana do urubu que ocupa lugar de destaque na cultura visual do projeto. Ele aparece incorporado à textura do tecido e também em elementos das mangas, funcionando como uma espécie de elo entre o símbolo do Flamengo e a iconografia local. A escolha não é apenas estética. O urubu é apresentado como uma tradução peruana do personagem que já faz parte do imaginário rubro-negro, criando uma ponte entre duas culturas separadas por milhares de quilômetros.
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Outros símbolos foram incorporados ao desenho para ampliar essa conexão. A Estrela de Belém aparece como referência à própria história de Lima, fundada no Dia de Reis e originalmente denominada Ciudad de los Reyes. A estrela de oito losangos está presente na bandeira da capital peruana e ganha espaço dentro da composição da camisa.
Também aparece a Mascapaicha, tradicional coroa associada ao poder político supremo do Império Inca. O elemento reúne tranças coloridas, fios de ouro, uma franja de lã vermelha e penas, carregando para o tecido uma referência direta à história pré-hispânica do Peru. O milho é outro componente do projeto. Cultivado há séculos na região e associado a cerimônias, alimentação e agricultura, ele representa uma das bases históricas da cultura peruana.
O Estádio Monumental de Lima também entra no conceito. Casa do Universitario, a arena tem capacidade para mais de 80 mil torcedores e ficou marcada para o Flamengo por receber as finais de 2019 e 2025. Sua arquitetura, os grandes blocos de concreto e a paisagem desértica aparecem reinterpretados nos elementos gráficos da camisa.
A composição ainda utiliza os chamados ângulos sagrados, inspirados em padrões geométricos presentes na tradição têxtil andina. Montanhas, estrelas, olhos protetores e elementos naturais são evocados por meio dessas formas. Outro símbolo é Inti, o deus Sol da mitologia inca, associado à vida, à agricultura e à própria figura dos imperadores. A paleta também conversa com o território peruano, especialmente com os tons de cobre ligados à importância histórica da mineração do metal no país.
A proposta visual procura fazer com que esses elementos não pareçam simplesmente aplicados sobre uma camisa de futebol. Eles formam uma linguagem própria, na qual o Flamengo aparece inserido em uma narrativa que começa nas Linhas de Nazca e passa pelas duas noites históricas vividas em Lima. O desenho transforma uma lembrança esportiva em identidade visual.
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Duas versões para o mesmo conceito
O Manto da Nação foi disponibilizado em duas versões. A primeira é a off-white, considerada a interpretação original do projeto, enquanto a segunda aposta diretamente nas cores rubro-negras. Ambas preservam a mesma linguagem gráfica e os símbolos concebidos para contar a história do Urubu de Lima.
O acabamento também é parte importante da proposta. O CRF recebe uma aplicação que se destaca sobre o tecido, enquanto os elementos gráficos aparecem integrados à construção da peça. A diferença para uma camisa convencional de jogo está justamente na tentativa de aproximar moda, coleção e narrativa histórica.
O preço estabelecido para o manto é de R$ 299,99, com versões masculina e feminina. Durante a campanha de lançamento, a compra de duas ou mais unidades garante 20% de desconto na segunda camisa, promoção válida até o jogo entre Flamengo e Mirassol, marcado para esta quarta-feira, 2 de setembro.
O valor coloca a peça abaixo do preço de uma camisa oficial de jogo, mas ainda em uma faixa que evidencia sua proposta de produto especial e limitado. A lógica não é apenas vestir uma camisa do Flamengo, mas carregar uma história específica associada a um dos períodos mais marcantes da trajetória recente do clube.
A escolha do Urubu de Lima também encerra uma campanha que buscou colocar o torcedor dentro do processo criativo. Mais de oito mil desenhos foram inscritos na ação e mais de 100 mil votos foram registrados por participantes de diferentes países. O projeto vencedor, de Marcelo Gluz, recebeu 16.437 votos.
Existe ainda uma tentativa de transformar o conceito em registro histórico. O Flamengo busca o reconhecimento do Guinness World Records para a campanha, o que pode acrescentar outro capítulo à trajetória do manto caso a validação seja confirmada. Nesse cenário, a camisa deixaria de representar somente a lembrança das conquistas em Lima e passaria a carregar também a marca de uma ação inédita envolvendo a própria torcida na criação de um produto oficial.
O que torna o Urubu de Lima particularmente interessante é justamente a capacidade de reunir acontecimentos que, isoladamente, já fazem parte da memória rubro-negra. As duas Libertadores conquistadas na mesma cidade, o Monumental, o urubu, as Linhas de Nazca, os símbolos incas e as referências culturais peruanas foram transformados em uma única narrativa. A camisa não tenta reproduzir literalmente o Peru nem apenas repetir os elementos tradicionais do Flamengo. Seu conceito está em construir uma espécie de território simbólico onde essas duas identidades possam conviver.
Em 2019, Lima foi o palco de uma das maiores viradas da história do clube. Em 2025, a cidade voltou a receber uma final continental vencida pelo Flamengo. Agora, em 2026, Lima aparece novamente, desta vez estampada no próprio manto. A profecia criada para a campanha pode ser interpretada como fantasia publicitária, mas encontra sua força em uma coincidência real: duas taças da Libertadores separadas por seis anos, conquistadas pelo mesmo clube e na mesma cidade. É essa história que o Urubu de Lima pretende vestir.
Flamengo anuncia “Urubu de Lima” como vencedor do Manto da Nação
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