Marcão cobra R$ 15,4 milhões e levanta dúvida sobre duas comissões na recompra de Gerson

Uma declaração de Marcão, pai e representante de Gerson, abriu um novo capítulo na discussão sobre as negociações envolvendo o meio-campista e o Flamengo. Em entrevista ao Bulldog Show, ele afirmou que abriu mão de receber uma comissão quando o clube recomprou o atleta do Olympique de Marseille, em 2023, em troca de um pagamento futuro condicionado a uma nova transferência. Segundo seu relato, o valor previsto no acordo seria de R$ 15,4 milhões e deveria ter sido quitado até dez dias depois da saída para o Zenit, mas a atual administração rubro-negra se recusou a efetuar o pagamento
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A cobrança, apresentada como obrigação assumida pela gestão de Rodolfo Landim, ganha contornos mais complexos quando confrontada com o balanço financeiro do Flamengo de 2023. O documento exibido durante a análise registra que o clube já contabilizou despesas de intermediação na recompra de Gerson, tendo a TM9 Esportes como agente da operação. A pergunta, portanto, não é apenas se o termo mostrado por Marcão existe, mas por que o Flamengo teria assumido o compromisso de pagar uma segunda comissão ligada ao mesmo negócio.
O caso exige cautela porque a entrevista não apresentou o documento integralmente, nem permitiu verificar cláusulas, assinaturas, beneficiários, condições ou natureza jurídica do pagamento. Marcão mostrou folhas diante das câmeras, e os apresentadores afirmaram visualizar um “termo de acordo” assinado pela administração anterior. Isso não basta para concluir que houve irregularidade, mas é suficiente para exigir explicações de Landim, Marcos Braz e da atual diretoria.
Marcão diz que abriu mão da comissão em 2023
Gerson foi vendido pelo Flamengo ao Olympique de Marseille em 2021 e retornou ao clube no início de 2023. Naquele momento, a narrativa apresentada pela família era de reencontro com o Rubro-Negro, identificação com a torcida e vontade do jogador de voltar para casa.
Marcão afirmou agora que não recebeu comissão direta do Flamengo naquela contratação. Segundo ele, a gestão anterior propôs que a remuneração fosse transferida para o futuro, vinculada à próxima venda do atleta. O valor seria tabelado de acordo com o montante da operação e, após a transferência ao Zenit, teria alcançado R$ 15,4 milhões.
O representante declarou que o pagamento deveria ocorrer dez dias depois da saída. Também acusou Bap de não cumprir o compromisso deixado pela administração Landim, embora tenha reconhecido que o documento não está registrado em seu próprio nome.
Esse detalhe é importante. Marcão explicou que possui parceria com um grupo de empresários e que o termo teria sido firmado com essa empresa ou com terceiros ligados à operação. Por isso, ele não poderia pessoalmente cobrar o valor na Justiça, mas afirmou ser beneficiário de parte da quantia.
A exposição pública mistura três relações diferentes: o acordo eventualmente celebrado entre Flamengo e uma empresa, a divisão interna entre Marcão e seus parceiros e a responsabilidade da nova gestão por obrigações assumidas anteriormente. Sem conhecer o contrato, não é possível afirmar onde começa o direito de um grupo e termina a pretensão individual do representante.
Balanço registra pagamento de intermediação
A principal contradição surge no balanço do Flamengo referente a 2023. O documento do clube identifica Gerson Santos da Silva, o Olympique de Marseille como contraparte e a TM9 Esportes como intermediadora.
De acordo com os valores exibidos, o clube reconheceu aproximadamente R$ 85,715 milhões em direitos federativos e luvas, além de R$ 4,095 milhões em custos de transação e intermediação. O total da operação chegou a cerca de R$ 89,810 milhões. Isso significa que a recompra não ocorreu sem comissão. O Flamengo registrou contabilmente uma despesa específica ligada à intermediação, contrariando uma interpretação literal da afirmação de que ninguém foi remunerado na negociação.
Marcão pode estar dizendo que ele, pessoalmente, não recebeu parte desses R$ 4,095 milhões. Também é possível que a TM9 tenha desempenhado uma função diferente daquela exercida pelo grupo que aparece no suposto acordo futuro. As duas remunerações poderiam, em tese, tratar de serviços distintos, desde que as obrigações estivessem devidamente justificadas e documentadas.
O problema é que nenhuma dessas explicações foi apresentada. Da forma como o relato chegou ao público, a gestão Landim teria pago uma comissão à TM9 na compra e prometido mais R$ 15,4 milhões para outro grupo depois da venda. A soma provoca uma dúvida razoável sobre o motivo de duas remunerações vinculadas ao mesmo atleta.
Flamengo pagaria duas vezes pela recompra?
A pergunta central precisa ser formulada com precisão. O segundo pagamento seria uma nova comissão pela aquisição realizada em 2023 ou remuneração pela participação futura na venda ao Zenit? A resposta altera completamente a avaliação.
Caso o valor de R$ 15,4 milhões represente uma comissão adiada da recompra, o Flamengo teria reconhecido duas despesas de intermediação relacionadas à chegada de Gerson: uma paga ou provisionada para a TM9 e outra empurrada para o momento de uma transferência futura.
Se a quantia estiver ligada à negociação com o Zenit, seria necessário esclarecer qual serviço foi prestado ao clube comprador ou vendedor. Em operações internacionais, agentes podem representar o atleta, o comprador, o vendedor ou atuar em funções específicas, mas cada pagamento deve corresponder a uma atividade real e formalmente contratada.
O valor também chama atenção. R$ 15,4 milhões ultrapassariam 10% do custo reconhecido na compra de Gerson. Trata-se de uma remuneração elevada, sobretudo quando somada aos mais de R$ 4 milhões já registrados como intermediação em 2023.
Isso não torna o acordo automaticamente inválido. Pode haver bônus, participação sobre valorização, compensação contratual ou outra estrutura jurídica que não aparece no recorte da entrevista. Porém, quanto maior a cifra, maior deve ser o nível de transparência e controle interno.
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A venda ao Zenit torna o relato ainda mais sensível
Marcão afirmou que o pagamento seria ativado após uma nova venda de Gerson. O jogador deixou o Flamengo depois de o Zenit depositar o valor previsto para a rescisão, em um episódio que gerou versões opostas sobre o caráter consensual da saída. O Rubro-Negro sustenta que não desejava negociar o atleta e foi obrigado a liberá-lo após o cumprimento da cláusula. Marcão, por outro lado, descreveu a operação como conhecida e acompanhada pelo clube.
A existência de uma comissão condicionada à futura saída acrescentaria um interesse econômico direto do grupo de empresários na transferência. Isso não prova que Marcão tenha forçado a negociação, mas demonstra que a operação poderia gerar benefício financeiro expressivo aos envolvidos.
Esse elemento precisa ser considerado quando o representante afirma que a saída foi amigável e que o Flamengo sabia de tudo. Um agente com R$ 15,4 milhões a receber depois da transferência não participa do debate como observador desinteressado.
Ao mesmo tempo, a existência do acordo enfraqueceria a posição do clube caso a antiga diretoria tenha criado deliberadamente um incentivo financeiro para a venda futura. A gestão Landim teria aceitado uma estrutura em que empresários seriam remunerados não apenas pela chegada, mas também pela próxima partida do jogador.
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Documento parcial não permite condenação
O relato de Marcão levanta suspeitas legítimas, mas não autoriza concluir que houve pagamento duplicado, fraude ou favorecimento indevido. O balanço comprova uma despesa de intermediação na recompra, enquanto a entrevista apresenta a alegação de outro compromisso. Falta demonstrar se ambos possuem o mesmo objeto.
Também não é possível afirmar que os R$ 15,4 milhões pertençam integralmente a Marcão. Ele próprio reconheceu que o documento está em nome de um grupo empresarial e que teria direito apenas a uma parcela decorrente de parceria privada. O jornalismo precisa resistir a duas tentações. A primeira é aceitar a documentação exibida de longe como prova definitiva de uma dívida. A segunda é ignorar a denúncia porque ela parte de um personagem envolvido em conflitos recentes com o Flamengo.
A saída responsável é cobrar a abertura do termo, a manifestação da gestão anterior e a posição jurídica da administração atual. O clube movimentou quase R$ 90 milhões na recompra de Gerson e agora se vê diante de uma cobrança adicional superior a R$ 15 milhões. A torcida e os conselheiros possuem direito de saber como esse compromisso teria sido criado.
A entrevista revelou mais do que uma reclamação financeira. Ela expôs a possibilidade de que a antiga administração tenha associado a compra de um jogador a uma remuneração futura acionada por sua venda. Caso essa estrutura exista, o Flamengo precisa explicar por que aceitou pagar na entrada, comprometer-se novamente na saída e permitir que a obrigação permanecesse desconhecida até ser apresentada em um podcast.
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