O absurdo do “sub-raça”: a reação tardia da Placar e o preconceito com o torcedor do Flamengo

O absurdo do “sub-raça”: a reação tardia da Placar e o preconceito com o torcedor do Flamengo
Imagem: Reprodução/X

Esse é o ponto de partida para entender mais um episódio lamentável que marcou a cobertura da final entre Flamengo e Palmeiras em Lima, quando um torcedor palmeirense, durante uma transmissão ao vivo da Revista Placar, chamou a torcida rubro-negra de “sub-raça”. A fala ocorreu diante da repórter Isabela Labate e nenhuma reprimenda imediata veio do estúdio. O caso, registrado em vídeo e replicado nas redes sociais, reacendeu um debate antigo sobre preconceito, responsabilidade jornalística e a repetição de discursos com raízes racistas no futebol brasileiro.


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A cena aconteceu durante uma interação corriqueira. A repórter chamou um torcedor para comentar a expectativa da decisão. Ele se apresentou, citou o aniversário de quatro anos do título de 2021 e, de forma abrupta, disparou o termo. No estúdio, estavam Daniel Peixoto, o Alfinete, Felipe Oliveira, Guilherme Azevedo e Fábio Sormani. Nenhum deles interrompeu a transmissão para condenar a fala. O corte viralizou no mesmo dia e gerou uma onda de críticas que se espalhou por perfis rubro-negros e por comentaristas de diferentes linhas editoriais.

O termo usado pelo torcedor tem origem em teorias pseudocientíficas do fim do século XIX e início do século XX, quando autores europeus e norte-americanos tentaram justificar desigualdades sociais por meio de classificações raciais hierarquizadas. Essas ideias alimentaram políticas de eugenia, segregação, escravidão tardia, colonialismo e extermínio. No Brasil, serviram de base para projetos de embranquecimento e para a marginalização de populações negras e indígenas. Mesmo sem sustentação científica, o conceito sobrevive culturalmente como instrumento de desumanização. Usá-lo para se referir à torcida do Flamengo reforça estigmas sociais que atravessam décadas.

A repercussão do episódio ganhou outra dimensão quando perfis começaram a replicar comentários de usuários que, na esteira da fala, passaram a repetir o termo com naturalidade, como se fosse parte da rivalidade esportiva. Comentários chamando flamenguistas de “sub-raça” se multiplicaram, muitos deles associados a perfis radicais de clubes rivais. Publicações de influenciadores, jornalistas e torcedores passaram a cobrar um posicionamento da Placar e das pessoas que estavam na mesa.

Entre as reações mais contundentes, a do jornalista André Rocha sintetizou bem a gravidade da situação. Ele lembrou que o AeroFla, que reuniu milhares de torcedores populares e historicamente excluídos do Maracanã, foi alvo de críticas carregadas de preconceito, não apenas de palmeirenses, mas também de setores da imprensa que tratam o torcedor rubro-negro como algo folclórico e inferiorizado. Rocha destacou também a contradição de torcedores que se autoproclamam representantes do “clube do povo”, mas reproduzem estereótipos racistas contra a massa rubro-negra.

LIVE COMPLETA:

No dia seguinte, pressionados pelo público, os integrantes da live começaram a se manifestar. O primeiro foi Felipe, do canal Futeboteco, que afirmou quase não ter ouvido a fala, que estava olhando o celular no momento e que jamais compactuaria com um comentário racista. Disse ainda que o responsável pela fala deveria responder criminalmente. Ele afirmou que seus canais e conteúdos sempre foram contrários a discursos extremistas e que não endossa nenhum tipo de discriminação.

Alfinete também se posicionou. Entrou ao vivo no Placar do Rio para explicar que não registrou claramente a fala e que só percebeu a gravidade do episódio ao rever as imagens. Mostrou arrependimento por não ter reagido de imediato e disse que o futebol não pode servir de desculpa para esse tipo de comportamento. Explicou ainda que, como apresentador da live, assume a responsabilidade editorial. Mesmo assim, parte da audiência seguiu criticando a falta de reprimenda na hora e a reação inicial da repórter, interpretada por muitos como um riso.

Isabela Labate comentou o caso no programa seguinte. Afirmou que não ouviu o termo por causa das condições técnicas da transmissão. Relatou dificuldades com retorno de áudio, vento forte e microfone improvisado. Disse lamentar o ocorrido e reforçou que não compactua com qualquer tipo de discurso de cunho racista. A explicação, porém, não anulou o incômodo de parte da torcida, que esperava um posicionamento mais enfático, sobretudo porque as imagens mostram uma reação perceptível logo após o torcedor pronunciar o termo.

A discussão tomou força porque não é um caso isolado. Somou-se a comentários recentes de jornalistas que atribuíram ao carioca a pecha de preguiçoso, associando o AeroFla a um suposto comportamento preguiçoso da população do Rio. São falas que, mesmo “fantasiadas” de análises culturais, carregam estereótipos históricos e reforçam desigualdades. Quando apresentadores, comentaristas e comunicadores de veículos de grande alcance deixam de repreender esse tipo de discurso, passam a transmitir uma mensagem permissiva. E, num país marcado por desigualdade racial, essa permissividade é combustível para extremistas.

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O episódio também reacendeu discussões sobre a responsabilidade dos veículos em transmissões ao vivo. Quando a censura não é possível, resta a postura imediata de reprovação, que limita a força da fala e afasta a chancela simbólica. Nesse caso específico, a ausência de reação ao vivo abriu espaço para interpretações variadas, desde cumplicidade até omissão. Depois da repercussão, veio a tentativa de esclarecimento. Houve reconhecimento do erro, mas a demora pesou.

A reação do público foi intensa também porque o Flamengo é alvo frequente de preconceitos que atravessam décadas. A construção do termo “mulambo“, que associava torcedores pobres e negros à sujeira, à informalidade e à violência urbana. O “urubu”, hoje abraçado como símbolo, nasceu igualmente de insultos destinados a torcedores de origem popular. Episódios assim confirmam que antigos estigmas ainda são usados para reduzir a grandeza da torcida e criar barreiras simbólicas.

Quando a rivalidade ultrapassa qualquer limite ético, ela deixa de ser rivalidade. É um alerta para o que se naturaliza quando ninguém reage. E, no fim, ajuda a explicar por que esse episódio tomou tanta força: porque expõe preconceitos ainda vivos, que insistem em se esconder atrás da camisa de futebol.

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Por Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)

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Tulio Rodrigues

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