Ódio ou clubismo? Futeboteco pede desculpas e expõe o erro de Danilo Lavieri no caso Flamengo x Libra

Ódio ou clubismo? Futeboteco pede desculpas e expõe o erro de Danilo Lavieri no caso Flamengo x Libra
Imagens: Reprodução / Youtube

Seis meses depois da repercussão da chamada “assinatura de Rodolfo Landim” no caso Libra, um dos episódios mais barulhentos da cobertura esportiva recente voltou ao centro do debate. O canal Futeboteco, de Rodolfo Gomes e Felipe Oliveira, que à época tratou a matéria de Danilo Lavieri como prova definitiva contra o discurso institucional do Flamengo e usou o episódio para atacar jornalistas, comunicadores e a própria torcida rubro-negra, reconheceu publicamente o exagero e pediu desculpas.


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A retratação não apaga o que foi dito, mas expõe algo ainda mais relevante: como uma informação incompleta, publicada com forte carga política e repercutida sem o devido contraditório, foi utilizada para transformar o Flamengo em alvo preferencial de um julgamento moral e midiático.

Na ocasião original, o tom foi agressivo. Houve acusações diretas contra o que chamaram de “Flamídia”, ironias com a torcida e até frases como “Danilo Lavieri fez jornalismo e enfiou a assinatura no nariz dessa gente”, além de provocações como “o time do cheirinho” e “cheira a tinta da caneta do Landim”. Agora, a própria bancada reconhece: “a gente exagerou”, “a gente foi mal” e “a gente se passou no clubismo” .

A questão, porém, vai além do pedido de desculpas. Ela escancara um método recorrente no futebol brasileiro: quando o assunto envolve o Flamengo, a pressa em condenar costuma vir antes da obrigação de apurar.

A origem da polêmica

O caso remonta ao debate sobre a divisão dos 30% de audiência dentro da Libra e a disputa sobre a suposta assinatura de Rodolfo Landim em um documento que serviria como chancela definitiva para determinado critério de distribuição.

Naquele momento, parte da cobertura defendia que o Flamengo havia concordado com o modelo e depois recuado estrategicamente. A matéria publicada por Danilo Lavieri no UOL foi tratada como a prova final dessa tese.

O problema é que a própria narrativa se mostrou frágil.

A documentação apresentada foi questionada, pois estava pela metade, o contexto era mais complexo do que a simplificação inicial sugeria e, rapidamente, surgiram contestações que enfraqueciam a ideia vendida como definitiva.

Ainda assim, muitos preferiram a manchete pronta à análise cuidadosa.

O espetáculo da condenação

No Futeboteco, a repercussão ganhou contornos ainda mais agressivos. O discurso não se limitou a discutir a informação. Transformou-se em um ataque direto a jornalistas que questionavam a matéria, à instituição Flamengo e à sua torcida.

A expressão “Flamídia” foi usada como forma de desqualificação automática, numa tentativa de transformar qualquer contraponto em militância disfarçada.

A fala foi clara: “essa apuração desmascara a Flamídia e assessoristas de imprensa disfarçados de jornalistas”. Em seguida, vieram frases ainda mais debochadas e desrespeitosas com a torcida rubro-negra, usando o velho bordão do “cheirinho” para reforçar a provocação .

Não era análise. Era tribunal. E com sentença pronta.

Seis meses depois, o recuo

A mudança veio quando um espectador questionou diretamente a postura adotada naquela ocasião. A resposta foi objetiva.

Ali a gente exagerou.

Peço desculpas inclusive à torcida do Flamengo.

A gente se passou no clubismo.

Foi uma admissão importante porque rompe com algo raro no ambiente esportivo digital: o reconhecimento público do erro.

Mas a própria retratação revelou uma contradição. Ao mesmo tempo em que admitiam o excesso, tentavam dividir a responsabilidade dizendo que foram “induzidos ao erro” pela matéria de Danilo Lavieri e que talvez o jornalista tivesse sido precipitado ao publicar o conteúdo.

A tentativa de suavizar a culpa escancarou justamente o ponto principal: faltou o básico do jornalismo, o contraditório.

O problema não era errar, era não checar

A crítica mais forte não está no erro em si. Todo jornalista pode errar. O problema está em transformar uma apuração frágil em arma de humilhação pública sem sequer consultar outras fontes.

Como foi lembrado depois, quando o programa foi ao ar, a matéria já havia sido bastante contestada por veículos e comunicadores que acompanhavam diariamente o caso da Libra. Bastava olhar para fora da própria bolha.

Mas não houve interesse nisso.

Havia uma tese conveniente e ela servia perfeitamente ao desejo de desmoralizar o Flamengo naquele momento.

O contraditório foi ignorado porque atrapalhava a narrativa.

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O jornalismo Lavieri

A expressão “jornalismo Lavieri”, utilizada ironicamente por críticos do episódio, resume bem a discussão. Não se trata de atacar um profissional específico como indivíduo, mas de questionar um modelo de cobertura em que a conclusão parece anteceder a investigação.

Primeiro se escolhe o vilão. Depois se busca a prova. Quando essa lógica se instala, o jornalismo deixa de investigar e passa a funcionar como assessoramento informal de interesses já definidos. Foi exatamente isso que muitos viram no episódio da Libra. A assinatura não era apenas um documento. Era a oportunidade perfeita para sustentar uma narrativa de bastidor obscuro envolvendo o Flamengo.

E, quando a história começou a ruir, a correção nunca teve a mesma força da acusação inicial.

O padrão se repete

Esse não foi um caso isolado.

O mesmo ambiente já havia tratado a situação de Bruno Henrique com extrapolações semelhantes, incluindo acusações desproporcionais envolvendo sua família e insinuações graves sem o devido cuidado.

A sensação que permanece é simples: quando o alvo é o Flamengo, a régua muda. O cuidado diminui. A suspeita cresce. E o julgamento vem antes da apuração.

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O pedido de desculpas basta?

A resposta depende do ponto de vista. Do ponto de vista humano, reconhecer o erro é sempre melhor do que insistir nele. Do ponto de vista jornalístico, porém, fica a pergunta inevitável: por que a retratação nunca alcança a mesma audiência da acusação?

O corte agressivo viralizou. A humilhação performática circulou. A narrativa se consolidou. Meses depois, a desculpa chega quase como nota de rodapé. É o velho problema do jornalismo moderno: a correção não compete com o escândalo.

A lição que fica

O caso Futeboteco não é apenas sobre um canal, nem apenas sobre Danilo Lavieri. É sobre o ambiente que normalizou o clubismo travestido de análise, a arrogância travestida de apuração e a seletividade travestida de isenção.

Criticar a diretoria do Flamengo é legítimo. Aliás, necessário. O problema está em tratar o clube como culpado por definição. Quando isso acontece, não se discute mais futebol. Discute-se preconceito editorial.

E talvez a principal frase da história tenha vindo justamente da retratação: “A gente se passou no clubismo.

Sim.

E esse reconhecimento vale não apenas para aquele programa, mas para uma parte inteira da cobertura esportiva nacional.

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