O Flamengo está novamente no centro de um debate que ultrapassa o campo esportivo e alcança a forma como parte da imprensa brasileira escolhe enquadrar determinados movimentos. Desta vez, o pano de fundo é a tentativa de repatriar Lucas Paquetá, hoje no West Ham, negociação complexa, marcada para ganhar um capítulo decisivo em reunião prevista para o dia 16, com representantes do clube inglês. O episódio expõe não apenas os desafios de mercado, mas também um padrão recorrente de leitura enviesada quando o assunto envolve O Mais Querido.
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A negociação acontece em um momento específico da temporada, quando o noticiário ainda é escasso e o mercado começa a se aquecer. O Flamengo sinalizou interesse, apresentou valores compatíveis com sua realidade financeira e abriu conversas sem comprometer receitas futuras, cotas de televisão ou contratos de patrocínio. Do outro lado, o West Ham vive situação delicada na Premier League, flertando com o rebaixamento, o que naturalmente torna a liberação de um de seus principais jogadores mais difícil. Esse é o ponto factual, objetivo, que explica o ritmo lento das tratativas.
O que chama atenção é a forma como parte do debate público tenta reduzir o impacto esportivo e simbólico de uma eventual volta de Paquetá ao Brasil. Comentários e análises se multiplicam destacando apenas obstáculos, riscos e supostos sinais de declínio do atleta, muitas vezes ignorando o contexto completo. Paquetá segue sendo convocado para a seleção brasileira, tem mercado na Europa e já esteve muito próximo de um acerto com o Manchester City, negociação que só não avançou por conta da investigação relacionada a apostas, e não por falta de interesse técnico ou financeiro.
Há uma tentativa recorrente de normalizar o que, na prática, ainda é raro. Um clube brasileiro negociar diretamente com uma equipe da Premier League por um jogador titular, em idade competitiva e com status internacional, não é algo corriqueiro. Comparações surgem rapidamente, quase sempre forçadas. Cita-se o caso de Luiz Henrique, contratado pelo Botafogo quando atuava no Betis, da Espanha, em contexto esportivo e mercadológico completamente distinto. Lembra-se de Vitor Roque, que não se firmou no Barcelona e chegou ao Palmeiras em baixa. Ou ainda do episódio envolvendo Tevez, em 2011, quando o Corinthians tentou repatriá-lo recorrendo a engenharia financeira e antecipação de receitas futuras, cenário distante da realidade atual do Flamengo.
Essas comparações ignoram nuances fundamentais. Paquetá não é um jogador em fim de carreira, tampouco alguém tentando se recolocar no mercado. A diferença de patamar é clara, mas frequentemente diluída em análises que parecem mais preocupadas em relativizar o movimento rubro-negro do que em explicar seus contornos reais. Em programas esportivos recentes, a narrativa se repete: dificuldades do West Ham, suposta queda de rendimento individual, riscos à seleção brasileira. Tudo isso apresentado como entrave quase intransponível quando o destino possível é o Flamengo.
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O contraste aparece quando outros clubes entram em pauta. Em análise recente sobre a contratação de Gerson pelo Cruzeiro, por exemplo, o discurso muda. O jogador vinha de um período irregular no Zenit, com dificuldades de adaptação e queda de desempenho, mas o foco recaiu sobre sua capacidade técnica, potencial de qualificar o elenco e impacto positivo no projeto esportivo. Pouco se falou sobre o momento negativo vivido anteriormente. No caso de Paquetá, o recorte é inverso: enfatizam-se os problemas, minimizam-se as virtudes.
Esse duplo padrão não passa despercebido. A discussão sobre seleção brasileira ilustra bem essa contradição. Argumenta-se que voltar ao Brasil poderia prejudicar o ciclo rumo à Copa do Mundo, como se convocações dependessem exclusivamente do endereço do clube. A história recente desmente essa tese. Jogadores atuando no futebol brasileiro seguem sendo chamados, desde que apresentem rendimento. O próprio Gerson citou a seleção como motivação para retornar. No entanto, quando o nome é Paquetá e o clube interessado é o Flamengo, a lógica se inverte.
Há também a disseminação de informações distorcidas. Circulou a ideia de que o West Ham teria feito jogo duro com Manchester City e Tottenham por vontade própria, quando, no caso do City, a negociação estava bem encaminhada e foi interrompida pela investigação extracampo. Já no caso do Tottenham, houve proposta concreta na casa de 50 milhões de libras, aceita pelo clube inglês, mas recusada pelo jogador, que manifesta desejo claro de retornar ao Brasil. Esses fatos são públicos, mas frequentemente ignorados para sustentar narrativas mais convenientes.
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No fundo, o episódio revela menos sobre Lucas Paquetá e mais sobre o ambiente em que o Flamengo se move. Existe uma predisposição em parte da mídia a tratar qualquer movimento rubro-negro com desconfiança adicional, como se o clube estivesse sempre exagerando sua força ou distorcendo a realidade. Quando o Rubro-Negro age com responsabilidade financeira, isso vira “sobra de dinheiro”. Quando busca reforço de peso, vira “novela inflada”. Quando enfrenta obstáculos reais de mercado, eles são usados para minimizar o próprio mérito da tentativa.
A negociação segue aberta, complexa, longe de ser simples. O próprio Flamengo reconhece isso internamente. Não há promessa, nem ilusão vendida. O que existe é um processo legítimo, amparado em números, contexto esportivo e vontade do jogador. O resto é ruído. Um ruído que, mais uma vez, diz muito sobre como o clube é observado, analisado e julgado, quase sempre por lentes mais carregadas do que o necessário.
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