A repercussão de uma frase atribuída a Pedro Lourenço, dono da SAF do Cruzeiro, ganhou novos capítulos nos últimos dias e colocou no centro do debate não apenas o dirigente mineiro, mas também a atuação de parte da imprensa esportiva. O episódio, que começou nas redes sociais no fim de dezembro, atravessou desmentidos oficiais, colunas publicadas em grandes portais e, agora, um contato direto de Paulo Vinícius Coelho, o PVC, para apresentar sua versão dos fatos e sustentar a informação que divulgou.
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A declaração em questão passou a circular no dia 29 de dezembro. Segundo o conteúdo replicado em perfis e grupos de WhatsApp, Pedrinho BH teria dito que compraria o Flamengo apenas com o gado que possui em sua fazenda. A frase, apresentada como literal, rapidamente ganhou alcance e provocou reações, especialmente entre torcedores rubro-negros. No dia seguinte, 30 de dezembro, começaram a surgir os primeiros desmentidos. O Cruzeiro, por meio de pessoas próximas ao empresário, negou que a fala tivesse ocorrido daquela forma. Veículos como o jornal O Tempo publicaram textos afirmando que a declaração era falsa e que Pedro Lourenço jamais se expressaria publicamente nesses termos.
No mesmo dia 30, porém, havia um elemento que tornava o cenário mais complexo. Mais cedo, em um programa da ESPN, André Hernan havia mencionado a frase em tom de brincadeira, contextualizando-a como uma bravata informal relacionada à disputa de mercado no futebol brasileiro. Horas depois, o próprio Hernan trouxe o desmentido, citando a posição oficial do Cruzeiro. A contradição expôs uma fragilidade na apuração e abriu espaço para interpretações divergentes.
O caso avançou para o dia 31 de dezembro com a publicação de uma coluna de PVC no UOL. Logo no primeiro parágrafo, o jornalista escreveu que Pedro Lourenço teria dito que, se vendesse seu gado, poderia comprar o Flamengo, caso o clube estivesse à venda. A informação apareceu sem contextualização adicional e num momento em que a frase já havia sido formalmente desmentida por outros veículos. A coluna não indicava conversa direta com o empresário nem explicava o tom da declaração.
Horas depois, em participação na rádio CBN, PVC apresentou um dado novo. Segundo ele, a frase existiu, foi dita em tom de brincadeira e, posteriormente, houve uma conversa mais séria com Pedro Lourenço. Na fala ao vivo, o jornalista afirmou ter tratado diretamente com o dirigente, que não teria negado a autoria da declaração, ressaltando apenas que o Flamengo não está à venda. Essa contextualização, no entanto, não foi incorporada à coluna publicada no UOL, que permaneceu inalterada.
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Foi a partir dessa lacuna que o episódio ganhou outro contorno. Após críticas públicas sobre a condução do caso, PVC entrou em contato direto conosco para se defender. Argumentou que manteve a informação porque falou com o próprio Pedrinho e sustentou que a frase existiu, ainda que em tom jocoso. Também demonstrou incômodo com a classificação do episódio como fake news, entendendo que esse tipo de acusação extrapola o campo profissional.
O ponto central do debate, no entanto, não está na existência ou não de uma bravata, algo comum no ambiente do futebol brasileiro. Está na fragmentação da informação. Uma versão publicada em um portal de grande alcance, outra explicada em um programa de rádio, sem atualização posterior no texto original. Para o leitor do UOL, que não acompanha a CBN nem outros espaços onde PVC atua, a informação seguiu incompleta, mesmo após desmentidos e esclarecimentos públicos.
Esse desencontro alimentou notas de comunidade no X (antigo Twitter), questionando a veracidade da coluna e colocando em xeque a credibilidade do conteúdo. Em um ambiente em que jornalistas e veículos disputam confiança, a ausência de atualização tornou-se parte do problema. Não se trata de exigir revelação de fonte, mas de transparência mínima quando há fato novo relevante.
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O episódio expõe um dilema recorrente no jornalismo esportivo contemporâneo: a circulação rápida de declarações, a pressão por opinião imediata e a dificuldade de corrigir rotas com a mesma visibilidade do erro inicial. Também revela um traço cultural da profissão, em que críticas entre pares ainda encontram resistência e são frequentemente confundidas com ataques pessoais.
Ao final, permanece o registro. PVC sustenta que falou com Pedro Lourenço e que a frase foi dita em tom de humor. Outros veículos afirmam que a declaração, tal como circulou, não ocorreu. Entre uma versão e outra, o leitor ficou com fragmentos espalhados em plataformas diferentes. É nesse intervalo, entre o fato, a apuração e a atualização, que o jornalismo precisa se reencontrar.
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