Um levantamento sobre as mudanças de decisões provocadas pelo VAR no Campeonato Brasileiro entre 2019 e a 12ª rodada de 2026 confronta uma das narrativas mais repetidas no futebol nacional: a de que o Flamengo seria o principal beneficiado pela tecnologia. No recorte formado por sete clubes, o Palmeiras aparece com 68 alterações favoráveis e 55 contrárias, saldo positivo de 13, enquanto o Rubro-Negro soma 52 a favor, 59 contra e diferença negativa de sete.
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A distância de 20 decisões entre os dois saldos é relevante para o debate público, mas precisa ser interpretada com responsabilidade. Os números demonstram que, dentro da amostra utilizada, não existe sustentação estatística para apresentar o Flamengo como o time que mais recebeu mudanças favoráveis do árbitro de vídeo. Ao mesmo tempo, não permitem afirmar que o Palmeiras foi favorecido deliberadamente, porque o estudo não julga se cada intervenção foi correta, errada ou decisiva para o resultado das partidas.
O dado desmonta uma acusação recorrente, mas não comprova outra. Essa distinção é fundamental para impedir que um levantamento criado para qualificar a discussão termine apropriado pelo mesmo tipo de discurso que pretende combater.
O que o ranking realmente mede
A base utilizada considera as alterações da decisão tomada inicialmente no campo depois da participação do VAR. Entram nessa contagem situações como gols confirmados ou anulados, pênaltis marcados ou cancelados e cartões vermelhos aplicados após a revisão. Uma mudança favorável significa apenas que a intervenção terminou beneficiando esportivamente determinado clube naquele lance; a classificação não informa se a decisão corrigiu um erro evidente ou produziu uma nova injustiça.
A própria metodologia empregada nos rankings anuais do Brasileirão ressalta que os dados não avaliam acertos e equívocos, razão pela qual evita os termos “beneficiado” e “prejudicado”. Também ficam fora da lista as checagens que não modificaram a marcação original, mesmo quando a cabine analisou as imagens por vários segundos.
Essa limitação altera profundamente o significado do resultado. Um time com muitas decisões favoráveis pode ter sido prejudicado com frequência pelos árbitros antes da correção. Da mesma forma, uma equipe que acumula mudanças contrárias talvez tenha recebido inicialmente marcações equivocadas a seu favor. O VAR existe justamente para atuar em casos de erro claro e manifesto ou incidente grave não percebido, dentro das categorias previstas pelo protocolo.
O ranking também atribui o mesmo peso a acontecimentos de importância distinta. Um pênalti marcado nos acréscimos de uma partida empatada vale uma unidade, assim como a anulação de um gol quando o placar já está definido. Não existe cálculo sobre pontos conquistados ou perdidos, minuto da ocorrência, gravidade do erro, consequência disciplinar ou influência na tabela.
Por isso, dizer que o Palmeiras possui o melhor saldo não equivale a afirmar que recebeu 13 pontos, gols ou vitórias da arbitragem. Significa somente que, no conjunto das intervenções contabilizadas, houve 13 mudanças favoráveis a mais do que contrárias.
O recorte não inclui todos os clubes
Outro cuidado indispensável está na composição da amostra. O acumulado reúne Flamengo, Fluminense, Internacional, Atlético-MG, Corinthians, Palmeiras e São Paulo para preservar a comparação ao longo das temporadas. Trata-se, portanto, de um estudo sobre sete equipes que permaneceram na Série A durante todo o período, e não de uma classificação completa de todos os participantes do Campeonato Brasileiro.
A observação impede que o Palmeiras seja chamado de líder absoluto do futebol nacional sem a indicação do recorte. Em temporadas específicas, outros clubes terminaram nas primeiras posições do levantamento geral. Mirassol e Vasco fecharam 2025 com os maiores saldos, enquanto o ranking de 2026, atualizado continuamente, apresenta outras equipes na liderança da competição completa.
A amostra, contudo, permanece útil para comparar dois protagonistas recentes do país. Flamengo e Palmeiras disputaram campeonatos, títulos e espaço político nos últimos anos, ao mesmo tempo que passaram a trocar críticas sobre arbitragem, bastidores e influência institucional. Quando o debate se concentra nesses clubes, o resultado acumulado enfraquece de maneira objetiva a afirmação de que o Rubro-Negro seria o grande destinatário das correções favoráveis.
Palmeiras cresce a partir de 2021
A sequência histórica mostra mudanças importantes. Em 2019, primeiro ano do VAR durante todo o Brasileirão, o Palmeiras teve seis alterações a favor e 11 contra, saldo negativo de cinco. O Flamengo terminou com sete favoráveis, oito contrárias e diferença de menos um. Naquele momento, nenhum dos dois ocupava posição privilegiada dentro da amostra.
O Rubro-Negro apresentou seu melhor desempenho em 2020, quando registrou 12 decisões a favor, nove contra e saldo positivo de três. A partir de 2021, porém, o Palmeiras passou a acumular resultados mais favoráveis: liderou em número absoluto de mudanças positivas naquela edição, alcançou saldo de sete em 2022, terminou 2023 com mais três e obteve diferença de cinco em 2024.
A temporada de 2025 interrompeu essa sequência, com sete alterações favoráveis e dez contrárias para o clube paulista. O Flamengo, por sua vez, fechou aquele campeonato com saldo positivo de dois. No recorte parcial de 2026, a direção voltou a se inverter: o Palmeiras aparecia com três decisões a favor e nenhuma contra, enquanto o time carioca contabilizava duas positivas e três desfavoráveis.
Somadas as temporadas de 2019 a 2025, o Palmeiras chegou a 65 mudanças favoráveis, 55 contrárias e saldo de dez. O Flamengo acumulou 50 a favor, 56 contra e diferença negativa de seis. Com a inclusão das primeiras 12 rodadas de 2026, os números passaram para 68 a 55 no caso palmeirense e 52 a 59 no rubro-negro.
Entre os demais integrantes da amostra atualizada, o Internacional aparece com saldo positivo de quatro, seguido pelo Fluminense, com um. Atlético-MG, São Paulo e Corinthians apresentam diferenças negativas de seis, dez e 15, respectivamente. O clube paulista do Parque São Jorge ocupa a última posição do grupo, apesar de isso também não significar que tenha sido necessariamente perseguido pela arbitragem.
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A coincidência com Abel e Leila
A curva favorável do Palmeiras começa a crescer no período posterior à chegada de Abel Ferreira, anunciado em 30 de outubro de 2020, e ganha força nos primeiros anos da presidência de Leila Pereira, empossada em 15 de dezembro de 2021. A coincidência temporal existe e pode ser apresentada, mas qualquer tentativa de transformá-la em relação de causa e efeito exigiria evidências que o ranking não oferece.
O treinador e a presidente adotaram uma postura pública contundente em discussões sobre arbitragem, calendário e organização das competições. Essa atuação pode influenciar o ambiente político, aumentar a pressão sobre as entidades e mobilizar torcedores, assim como ocorre com dirigentes e técnicos de outros clubes. Não há, entretanto, uma ponte documental entre esse comportamento e as decisões tomadas dentro da cabine.
Os dados permitem formular perguntas sobre a mudança do padrão, mas não respondem por que ela ocorreu. Para avançar além da coincidência, seria necessário rever cada lance, identificar acertos e erros, analisar os árbitros envolvidos, comparar situações semelhantes e medir possíveis diferenças de critério. Sem esse trabalho, insinuar um mecanismo de favorecimento representa apenas a substituição de uma narrativa sem prova por outra.
O mito do Flamengo beneficiado não resiste aos dados
A cautela metodológica não obriga a tratar todas as conclusões como equivalentes. Embora o levantamento não prove favorecimento ao Palmeiras, ele oferece uma resposta clara à afirmação de que o Flamengo seria o clube com mais decisões alteradas positivamente pelo VAR. Dentro dos sete times comparados, acontece justamente o contrário: o Rubro-Negro possui saldo negativo e está 20 intervenções abaixo do rival paulista.
Essa constatação não significa que o Flamengo nunca tenha sido beneficiado por uma decisão errada. Existem lances em que a equipe recebeu marcações favoráveis, inclusive depois da participação da cabine. Também houve temporadas com diferença positiva, como 2020 e 2025. A crítica está na transformação de episódios isolados em uma certeza histórica que os números acumulados não sustentam.
O mesmo raciocínio deve ser aplicado ao Palmeiras. Ter o melhor saldo não comprova que as 68 mudanças favoráveis estavam equivocadas. Em muitos casos, a tecnologia pode simplesmente ter corrigido erros cometidos contra o clube. O julgamento só é possível quando a jogada é analisada individualmente, com as imagens, o protocolo e a regra vigente naquele momento.
Há ainda uma parte invisível nesse tipo de estudo: os lances nos quais o VAR não interveio. Uma cotovelada ignorada, um pênalti não recomendado ou uma expulsão mantida incorretamente não entra no ranking quando a decisão de campo permanece. Portanto, o saldo mede as alterações realizadas, não a totalidade dos acertos e equívocos da arbitragem.
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Dados precisam substituir acusações, não alimentar novas suspeitas
O futebol brasileiro acostumou-se a discutir a arbitragem por meio de recortes convenientes. Quando um número favorece a tese de determinado grupo, ele é apresentado como prova definitiva; quando aponta em outra direção, surgem justificativas para descartá-lo. O resultado é um debate em que a conclusão costuma ser escolhida antes da investigação.
O levantamento possui valor porque introduz uma base objetiva onde predominam impressões, vídeos isolados e discursos inflamados. Ele mostra que o Flamengo não lidera as mudanças favoráveis do VAR entre os sete clubes analisados e que o Palmeiras acumulou o maior saldo. Qualquer afirmação que ultrapasse esses limites depende de uma pesquisa qualitativa ainda mais profunda.
Combater a falsa imagem de um Flamengo permanentemente protegido não exige acusar o rival de operar um sistema clandestino. Basta demonstrar que a narrativa não corresponde ao histórico das intervenções. A crítica se fortalece quando reconhece as limitações do próprio argumento, evita insinuações e cobra transparência com a mesma intensidade para todas as camisas.
O saldo de 13 do Palmeiras e o resultado negativo de sete do Flamengo não encerram a discussão sobre arbitragem, mas mudam o ponto de partida. A partir desses dados, quem insistir que o clube carioca é o principal beneficiado pelo VAR precisará apresentar algo além de memória seletiva, indignação de ocasião e lances escolhidos conforme a conveniência.
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