Texto de Paulo Sérgio, feito a convite do Blog Ser Flamengo
Duas lembranças marcantes da minha infância — passada até os nove anos na Tijuca — são as idas à praia de Copacabana e ao Maracanã. O cheiro característico vindo com a brisa do mar e o burburinho que o acompanhava são equivalentes ao percurso de casa, na Rua do Bispo, na quadra da Haddock Lobo, até o gigante de concreto armado que se transformava em festa nos dias de jogos do Flamengo. Impagável a lembrança de entrar no estádio e percorrer o anel externo, espiando através dos túneis de acesso o sagrado tapete verde onde os craques desfilavam seu talento. E me desculpem os mais jovens: havia mesmo mais talento por ali.
A lembrança mais remota nesse cronograma da memória vem da final do Carioca de 1962. Eu tinha seis anos e, numa curiosidade estranha, tenho a certeza da rara presença de minha mãe conosco. Habitualmente, íamos eu e meu irmão sob os cuidados do meu pai, um torcedor fanático de quem herdei essa paixão pelo vermelho e preto. Ficaram guardadas na retina e na memória as cenas de Garrincha comemorando seus gols e, lá ao fundo, a festa da torcida alvinegra.
Final de 1963 — o Fla-Flu do maior público no Velho Maraca
Antes desse jogo, lembro de termos ido a vários confrontos da campanha vitoriosa. Éramos sócios do Flamengo e, naqueles tempos, os associados entravam gratuitamente nos jogos com mando do clube, ficando nas cadeiras azuis em frente às tribunas. Teve uma vitória marcante de 3 a 1 sobre o Botafogo, nosso algoz de um ano antes, e uma virada espetacular sobre o Vasco por 4 a 3, esse jogo fechando a semana em que o Santos bateu o Milan duas vezes e se sagrou campeão do mundo. Foram três jogos em menos de uma semana com mais de 100 mil pessoas no Mário Filho. O Rio era a Meca do futebol naqueles tempos, e o Velho Maraca, o grande templo.
Foram muitos e muitos jogos ali, nas cadeiras, nas arquibancadas, na geral. Um ritual repetitivo de adoração pelo manto sagrado, mas também para ver outros times. Gosto de bom futebol e, por conta disso, fui com amigos muitas vezes ver os craques de outrora. Dei sorte de estar no estádio para ver o primeiro gol do seu maior artilheiro e maior ídolo da Nação. Numa preliminar de juvenis, Zico fez, de pênalti contra o Botafogo, o gol de número 1 de uma lista de 333. Naquele mesmo ano, assisti à final do primeiro Campeonato Brasileiro, vitória do Galo sobre o Botafogo e, por obra do destino, representei a Nação com muito orgulho.
Estava lá também quando Pelé fez, de falta, o seu último gol no Maraca, na vitória do Vasco por 2 a 1, semifinal do Brasileiro de 1974. Testemunhei, em 1976, a “invasão corintiana”. Antes disso, um sábado à noite de 1972, vi ali, detrás do gol, a jogada que imortalizou Fio Maravilha, num jogo de torneio de verão contra o Benfica. Naquele espaço sagrado vivi alguns dos melhores momentos dessa vida. Reverenciei meus ídolos, me perdi anônimo na multidão vermelha e preta, chorando derrotas, comemorando vitórias e títulos.
Quando soube que iriam colocar o Velho Maraca abaixo, a pretexto de modernizá-lo para receber novamente uma Copa do Mundo, me indignei. Mesmo sendo a favor da modernização e melhoria de suas instalações, sempre achei que a intervenção não poderia ter sido tão invasiva. Foi o primeiro estádio do mundo a ter dois lances de arquibancada sobrepostos.
O Maraca murchou. Essa foi a primeira impressão ao entrar na reinauguração, para ver Brasil x Inglaterra. Ficou bonito, luxuoso até, comparando aos padrões que estávamos acostumados no Brasil. Me convenci de que, mesmo estando no mesmo lugar, era outro estádio. A história encerrava uma incrível e fantástica página de 60 anos e começava a contar uma nova. Não tenho a menor dúvida de que a aura que envolve o estádio voltará a brilhar como no passado. Afinal, a paixão do torcedor não se perde jamais.
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