A história de Mário Jorge Lobo Zagallo ganhou um capítulo especial no Museu Flamengo com a exposição temporária dedicada à sua trajetória rubro-negra. Encerrada em 31 de julho, a mostra reuniu fotografias históricas, uniformes, faixas, troféus, documentos e objetos pessoais para percorrer diferentes momentos de uma relação iniciada ainda como jogador, atravessada pela função de treinador e retomada décadas depois no comando da equipe campeã em 2001. A visita ao espaço também mostrou como o número 13, as conquistas pelo clube e a ligação com Zico ajudaram a construir uma memória que vai muito além dos quatro títulos mundiais conquistados por Zagallo com a Seleção Brasileira.
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Batizada a partir de uma das frases mais associadas ao Velho Lobo: “Zagallo é Mengo tem treze letras”, a exposição ocupou parte do Museu Flamengo com peças de diferentes períodos. O roteiro permitia acompanhar desde os anos 1950, quando ele vestia a camisa rubro-negra, até sua última passagem como treinador, encerrada em 2001.
Entre os primeiros objetos estavam registros do Flamengo de 1956, fotografias, documentos e um casaco utilizado por Zagallo na década de 1950. O material ajuda a devolver dimensão rubro-negra a um personagem frequentemente lembrado, sobretudo, por sua história com a Seleção Brasileira.
Do segundo tricampeonato carioca ao título de 1972
A passagem como jogador apareceu representada por peças relacionadas ao segundo tricampeonato carioca do Flamengo, conquistado em 1953, 1954 e 1955. Uma flâmula referente à campanha, além de objetos promocionais e caixas de fósforos com personagens daquele elenco, recuperava um período em que Zagallo dividia o clube com nomes importantes de sua geração.
Outro item exposto era uma camisa rubro-negra referente ao Campeonato Carioca de 1956, permitindo observar também as mudanças de desenho dos uniformes ao longo das décadas. Fotografias do acervo mostravam o jogador em campo e ao lado de antigos companheiros, compondo uma narrativa menos concentrada apenas nos troféus e mais voltada para o cotidiano de sua formação como personagem do Flamengo.
A exposição avançava para 1972, quando Zagallo já havia trocado os gramados pela área técnica. Entre os objetos estava o troféu do Segundo Torneio Internacional de Verão daquele ano, além de imagens do treinador comandando a equipe. Também havia registros associados ao chamado Supercampeonato Carioca de 1972, temporada em que voltou a deixar sua marca pelo clube em outra função.
Uma fotografia chamou atenção pelo número estampado na camisa: 13. O algarismo se transformaria em uma das marcas pessoais de Zagallo, cercado por referências e superstições que ele próprio cultivou durante a vida. Na mostra, um Santo Antônio de seu acervo ajudava a contextualizar essa relação, já que o dia do santo é celebrado justamente em 13 de junho.
O reencontro em 2001 e o gol de Petkovic
Outro núcleo importante era dedicado a 2001, temporada que devolveu Zagallo ao Flamengo em um dos momentos mais lembrados do clube no início do século. Imagens da decisão estadual resgatavam o gol de falta de Petkovic contra o Vasco e a narração que atravessou gerações de rubro-negros.
O acervo reunia uma faixa de campeão da Taça Guanabara daquele ano, outra relativa ao tricampeonato estadual de 1999, 2000 e 2001, além de uniformes utilizados pela comissão técnica. Também apareciam a medalha e a faixa referentes à Copa dos Campeões de 2001, competição conquistada pelo Flamengo sob seu comando.
Uma camisa branca da equipe e peças relacionadas à comissão técnica ajudavam a reconstruir visualmente aquela temporada. A exposição ainda apresentava uma bola relacionada a Alagoas, estado natal de Zagallo e palco de sua última partida como treinador rubro-negro, estabelecendo uma conexão simbólica entre origem e despedida.
O número 13 reaparecia permanentemente nessa parte do percurso. Não como recurso artificial criado posteriormente, mas como elemento incorporado à personalidade de Zagallo e à maneira como passou a contar a própria história.
O jovem Zico
Talvez uma das imagens mais simbólicas da exposição fosse o encontro entre um jovem Zico e Zagallo em 1972. Naquele momento, o futuro maior ídolo da história rubro-negra ainda buscava espaço definitivo na equipe profissional, enquanto o Velho Lobo já comandava o Flamengo.
Zico ainda era um garoto em processo de afirmação, diante de alguém que já havia construído carreira como jogador, conquistado títulos pelo Flamengo e alcançado projeção internacional.
A cena permite compreender a dimensão geracional da mostra. Não se tratava apenas de expor objetos pertencentes a Zagallo, mas de mostrar como sua trajetória cruzou diferentes épocas do clube. Ele conviveu com o Flamengo dos anos 1950, comandou uma geração que começava a projetar Zico na década de 1970 e voltou quase 30 anos depois para participar de outra conquista marcante.
Quatro Copas do Mundo dentro de uma história rubro-negra
A dimensão internacional também estava presente. A exposição mostrava referências às conquistas mundiais que transformaram Zagallo em personagem singular da história do futebol: duas Copas como jogador (1958 e 1968), uma como treinador (1970) e outra como coordenador técnico (1994).
Entre os itens exibidos estavam representações de troféus associados aos títulos mundiais, colocadas ao lado de objetos vinculados ao Flamengo. A montagem criava um contraste interessante: a carreira que atravessou alguns dos maiores momentos da Seleção Brasileira era apresentada a partir da perspectiva do clube que também ajudou a formar sua identidade.
Fotos ao lado de personagens como Paulo César Caju, registros com antigos jogadores e imagens das diferentes passagens completavam a narrativa visual. O visitante encontrava ainda vídeos, entrevistas, gols e materiais audiovisuais que ampliavam a experiência para além das vitrines.
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Museu combina memória e experiência
A exposição de Zagallo já havia terminado quando a visita foi apresentada, mas o passeio também permitiu mostrar outras características do Museu Flamengo. Além das áreas históricas e das taças, o espaço possui atividades interativas que aproximam o público de diferentes situações relacionadas ao futebol e à trajetória do clube.
A importância de mostras temporárias como essa está justamente na possibilidade de aprofundar histórias que, dentro de uma exposição permanente, precisariam dividir espaço com mais de um século de acontecimentos. Camisas, documentos ou fotografias ganham outro significado quando organizados em uma narrativa dedicada a um único personagem.
No caso de Zagallo, o percurso revela algo que muitas vezes fica secundário diante da dimensão de sua carreira pela Seleção. Antes e depois das Copas do Mundo existiu uma história profundamente conectada ao Flamengo, construída como jogador, treinador e personagem afetivo de diferentes gerações.
A exposição terminou em 31 de julho, mas deixou registrado um modelo que pode ser repetido com outros protagonistas da história rubro-negra. Preservar memória não significa apenas guardar taças ou arquivar fotografias; também exige contextualizar personagens, explicar suas relações com o clube e apresentar às novas gerações por que determinadas histórias sobreviveram ao tempo. No caso do Velho Lobo, até o título da mostra serviu para lembrar que, entre tantas conquistas e tantas camisas, havia uma ligação que ele fazia questão de contar à sua maneira: “Zagallo é Mengo tem treze letras.”
BATE-PAPO COM JOÃO TOUMA E MARCELO FERNANDES – AS NOVIDADES DO MUSEU FLAMENGO
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