BATE-PAPO COM JOÃO TOUMA E MARCELO FERNANDES – AS NOVIDADES DO MUSEU FLAMENGO

BATE-PAPO COM JOÃO TOUMA E MARCELO FERNANDES – AS NOVIDADES DO MUSEU FLAMENGO

João Touma e Marcelo Fernandes, gestores do Museu Flamengo pela Mude, participaram do podcast Terraflamistas, comandado por Rodrigo Costa Cruz e Tulio Rodrigues, para apresentar novidades que ampliam o papel do museu na vida rubro-negra. Às vésperas de completar três anos, em 5 de agosto, o espaço deixa de ser apenas uma atração fixa na Gávea e começa a se consolidar como plataforma de experiências, encontros, produtos históricos, ações itinerantes, preservação de acervo e convivência entre torcida, ídolos e memória. A conversa mostrou que o Flamengo não está apenas contando sua história. Está tentando transformar essa história em algo que o torcedor possa viver, revisitar, tocar simbolicamente e carregar para fora do estádio.


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O Museu Flamengo nasceu de um desejo antigo do clube. A ideia de ter um museu na Gávea remonta, segundo Marcelo, pelo menos à década de 1970, com várias tentativas, datas projetadas e frustrações acumuladas. O projeto atual começou a ganhar corpo em 2017, ainda na gestão Eduardo Bandeira de Mello, foi aprovado em 2018 e inaugurado em 2023, depois de cinco anos atravessados por pandemia, mudanças de rota, novas conquistas e ajustes de concepção. O Flamengo venceu tanto nesse período que a própria narrativa precisou ser atualizada no caminho, especialmente com os títulos continentais e nacionais que transformaram a geração recente em parte incontornável do acervo.

A grande novidade, porém, não está apenas na origem do museu, mas no movimento que ele começa a fazer agora. João e Marcelo deixaram claro que a próxima etapa passa por três ideias centrais: ampliar a experiência dentro da Gávea, levar parte desse universo para outros lugares e criar novos produtos que aproximem ainda mais o torcedor da história do Flamengo. É o conceito de “museu vivo”, repetido ao longo da conversa: um espaço que não se limita a pendurar camisas, exibir taças ou editar vídeos, mas que recebe pessoas, renova conteúdos, promove encontros, cria rituais e transforma a visita em uma experiência emocional.

Café com ídolo, perguntas e história contada por quem viveu

Uma das principais novidades será o “cafezinho com ídolo”, previsto para ter a primeira edição até o fim de agosto. A ideia nasce da evolução do Encontros da Nação, ação em que ex-jogadores recebem torcedores, tiram fotos, dão autógrafos e conversam rapidamente com o público. O novo formato será mais exclusivo, com mediação, perguntas e respostas, criando um ambiente em que o torcedor poderá ouvir histórias diretamente de quem esteve em campo.

A diferença é importante. O encontro tradicional tem força afetiva, mas lida com grande volume de público. João citou ocasiões com 200, 300, 400 visitantes e até 1.700 pessoas no mesmo dia, o que torna impossível oferecer tempo de qualidade para cada conversa. No novo modelo, a proposta é abrir espaço para relatos mais longos, bastidores, lembranças de jogos, detalhes de gols, decisões, vestiários e momentos que não aparecem nas súmulas. O torcedor deixa de ser apenas visitante e passa a ocupar o lugar de interlocutor.

Essa mudança reforça o papel do museu como ponte entre gerações. Quando um ídolo conta como viveu uma final, o que aconteceu depois de um gol, como era enfrentar determinado adversário ou dividir elenco com personagens históricos, a memória deixa de ser objeto estático. Vira fala, presença e transmissão oral. Em um clube com tanta mitologia acumulada, esse tipo de experiência tem valor esportivo, cultural e comercial.

Loja do museu vai sair da Gávea

Outro anúncio relevante envolve a loja do Museu Flamengo. Hoje, ela é especializada em memorabilia, com itens colecionáveis, camisas autografadas, produtos históricos, tiragens limitadas, fotos, ingressos antigos e parcerias com marcas e acervos. João citou exemplos como capas comemorativas da Placar com Zico e reproduções ligadas ao Globo com Andrade, produtos que esgotaram rapidamente e mostraram a força desse mercado.

A novidade é que itens colecionáveis da loja do museu deverão chegar a todas as lojas do Flamengo. Isso muda a escala do projeto, porque tira parte da experiência de consumo da limitação física da Gávea. O torcedor que mora longe, não consegue visitar o museu com frequência ou passa por uma loja oficial em outro ponto da cidade poderá ter acesso a produtos de memória sem depender exclusivamente da sede. A loja da Gávea continuará existindo e pode ser acessada mesmo por quem não entra no museu, mas a ampliação da distribuição aproxima o acervo simbólico do cotidiano rubro-negro.

Esse movimento mostra que o Flamengo começa a tratar sua história como ativo de mercado. Não no sentido menor da exploração vazia, mas como produto cultural legítimo. Uma camisa autografada, uma peça com certificado de origem ou uma reprodução limitada não é apenas mercadoria. É fragmento de pertencimento. Em um clube de massa, essa dimensão tem valor enorme, especialmente quando há controle de autenticidade, curadoria e ligação direta com o patrimônio histórico.

Ritmos da Nação e a arquibancada dentro do museu

A proposta mais ousada apresentada foi a criação de oficinas de percussão ligadas aos cantos da torcida. O projeto, construído em diálogo com representantes de torcidas, pretende levar para dentro do museu uma experiência que poucos rubro-negros vivem de fato: estar no coração da arquibancada, entender a música, aprender o ritmo, tocar instrumentos e compreender a história por trás dos cantos.

A ideia terá três frentes. A primeira será uma oficina dentro do próprio museu, pensada também para turistas e visitantes de fora do Rio. A segunda será um produto recorrente para cariocas, permitindo retorno, prática e aprimoramento. A terceira, mais ampla, prevê a possibilidade de levar o participante ao estádio, no meio da torcida, com instrumento, segurança e estrutura para viver a experiência em dia de jogo.

Esse projeto talvez seja o que melhor sintetize a noção de museu vivo. O Flamengo não quer apenas mostrar a torcida em vídeos. Quer permitir que o visitante experimente parte da linguagem da arquibancada. Canto, percussão, gesto, coordenação, tradição e pertencimento viram conteúdo histórico. É uma forma inteligente de reconhecer que a torcida também produz cultura, memória e identidade, não apenas ruído de fundo para transmissão esportiva.

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Museu itinerante: da Gávea para o Brasil

A experiência imersiva no Via Parque, criada durante o período em que o museu precisou ficar fechado, abriu outra frente. A exposição “2025: a hegemonia rubro-negra” reuniu sete taças no mesmo local e mostrou que o Museu Flamengo pode existir também fora da sede. Segundo os gestores, o que nasceu como solução para manter a conexão com o torcedor durante uma interrupção virou novo projeto de expansão.

A ideia agora é iniciar uma itinerância nacional até o fim do ano, com foco especial em Norte e Nordeste, regiões onde a torcida do Flamengo tem presença gigantesca. O plano envolve parceiros locais, diálogo com embaixadas e consulados rubro-negros e a possibilidade de replicar parte das experiências da Gávea, inclusive com ídolos e ações ligadas à torcida. Também foi citado potencial fora do Brasil, com menções a Portugal e Estados Unidos como possibilidades futuras, ainda dentro de uma lógica de estudo e construção.

Esse ponto é estratégico. O Flamengo se define como clube nacional, mas muitas vezes suas experiências presenciais ficam concentradas no Rio de Janeiro. Levar o museu a outras praças é reconhecer que a Nação não mora apenas na cidade-sede. É também uma forma de transformar torcida distante em público ativo, criando encontro, consumo, memória e pertencimento fora do Maracanã.

Expansão na Gávea e novas áreas temáticas

João e Marcelo também falaram sobre a expansão física do museu. A conversa com a atual administração do Flamengo está em andamento e foi descrita como “quente”. A ampliação, se viabilizada, deve ocorrer no próprio andar e não necessariamente ocupar os 1.000 m² antes imaginados em outra área. Ainda assim, seria considerada relevante, com possibilidade de novas áreas temáticas e mais espaço de convivência.

O ponto defendido pelos gestores é que expandir não pode significar apenas ocupar metragem. O museu precisa crescer com sentido, interatividade e benefício real para o visitante. A comparação com museus europeus apareceu justamente para marcar esse cuidado: grandes espaços cheios de troféus e fotos podem impressionar, mas nem sempre entregam experiência imersiva. O diferencial do Flamengo está na combinação entre curadoria, emoção, tecnologia e participação do público.

As exposições temporárias também entram nessa lógica. A mostra dedicada a Zagallo, com imagens raras, falas em telão e troféus cedidos pela CBF, como os ligados ao Tri e ao Penta da Seleção Brasileira, aponta para um formato híbrido: um museu permanente, mas em atualização constante. Essa dinâmica permite corrigir lacunas, aprofundar personagens, valorizar modalidades, resgatar histórias específicas e renovar o motivo para o torcedor voltar.

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Preservação, pesquisa e canal oficial para acervos

Outro tema importante foi o trabalho de preservação. O Flamengo possui um centro de preservação da memória com mais de 35 mil itens catalogados, tratados com cuidado técnico, inclusive em relação a deterioração química e conservação de materiais sensíveis. A atuação do patrimônio histórico aparece como garantia de que o museu não é apenas uma operação comercial da Mude, mas um projeto conectado à instituição e à pesquisa.

A partir dessa demanda, surgiu a proposta de criação de um canal oficial para quem deseja doar acervo, lançar livro, apresentar projeto ou fazer pesquisa. A ideia ainda parece em construção, mas responde a um movimento natural: o museu virou referência e passou a ser procurado por colecionadores, autores, pesquisadores e torcedores com peças raras. O Flamengo precisa organizar essa chegada, tanto para preservar corretamente quanto para dar destino institucional a materiais que muitas famílias, no futuro, talvez não saibam como guardar.

Essa frente pode ser decisiva para transformar o museu também em centro de conhecimento. A linha do tempo digital, o tour virtual, o acervo online e a possibilidade de consulta histórica ampliam o papel do projeto. O Flamengo tem uma história riquíssima, mas também cheia de imprecisões repetidas por décadas. Quanto mais o clube organizar fontes, documentos, músicas, camisas, troféus, jornais e depoimentos, mais forte será sua memória pública.

No fim, a participação de João Touma e Marcelo Fernandes revelou um Museu Flamengo em movimento. Há aniversário de três anos, novos produtos, expansão em discussão, loja ganhando capilaridade, oficinas de torcida, degustação de vinho com contexto histórico, encontros mais qualificados com ídolos, itinerância nacional, atenção à acessibilidade e preocupação com pesquisa. O museu já não é apenas uma atração para quem visita a Gávea uma vez. Ele começa a se comportar como organismo cultural do clube, um ponto de encontro entre passado, presente, torcida e futuro. Para um Flamengo que se acostumou a disputar grandeza em campo, talvez esse seja um dos passos mais importantes fora dele: entender que sua história também precisa jogar.

TOUR PELO NOVO MUSEU DO FLAMENGO

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