Pesquisador mostra como a torcida do Flamengo virou fenômeno cultural brasileiro

Pesquisador mostra como a torcida do Flamengo virou fenômeno cultural brasileiro

A participação de Paulo Tinoco no podcast da BraboTV, apresentado por Tulio Rodrigues e Rafa Penido, abriu uma janela rara para entender o Flamengo por um caminho que vai além da bola, da arquibancada e dos títulos. Pesquisador da memória rubro-negra, Tinoco apresentou um trabalho de investigação que cruza o cotidiano do clube com música, teatro, cinema, rádio, comportamento, política e cultura popular até os anos 1960, mostrando que a grandeza do clube não nasceu apenas de vitórias em campo, mas de uma capacidade quase orgânica de ocupar a cidade, a mídia, as ruas, os discos, os livros e o imaginário do torcedor brasileiro.


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O ponto mais forte da conversa está na constatação de que o Flamengo ajuda a explicar a história do Rio e do Brasil, mas a própria história encontra dificuldade para explicar completamente o Flamengo. Essa frase, dita na entrevista em reação ao volume de detalhes trazidos por Tinoco, resume bem o problema. O clube não se tornou popular por um único fato fundador, uma campanha específica ou uma ação isolada de dirigentes. Ele foi se formando como fenômeno por uma soma de elementos: rádio, música, imprensa, carnaval, literatura, personagens, bairros, deslocamentos urbanos, clássicos, mitologias e uma torcida que, desde cedo, demonstrava uma necessidade incomum de se mostrar Flamengo em qualquer circunstância.

O Flamengo como investigação cultural

Tinoco explicou que seu trabalho no livro “Flamengo, o Fenômeno Nacional” não segue apenas uma ordem cronológica. Além dos capítulos temporais, há recortes temáticos, como “Fla-Flu, história e música”, em que ele reconstrói a relação inicial entre Flamengo e Fluminense, lembra os quatro rubro-negros que ajudaram a fundar o clube tricolor, cita as primeiras reuniões do Flu na sede do Fla e recupera músicas que mencionam o clássico no título ou na letra. O pesquisador também encontrou referência a um disco lançado na Inglaterra por um maestro que viveu no Rio nos anos 1950 e gravou uma música instrumental chamada “Fla-Flu”, detalhe que mostra como o clássico atravessou fronteiras antes mesmo da era globalizada do futebol.

O método de Tinoco chama atenção porque foge do colecionismo superficial. Ele fala em “investigação”, em dúvidas que ficavam meses em uma pasta de pendências, em cruzamento de documentos, discos, jornais, memórias orais e acervos pessoais. Esse tipo de pesquisa é o oposto da pressa que domina parte do conteúdo esportivo atual. Não se trata apenas de encontrar uma curiosidade para rede social, mas de reconstruir contexto, autoria, data, circulação e impacto cultural.

Um dos exemplos mais ricos envolve Roberto Paiva e a música “Meu Flamengo, meu Brasil”, lançada após o tricampeonato carioca de 1953, 1954 e 1955. Tinoco lembra que o título de 1955 foi decidido em 4 de abril de 1956, em uma final marcada por drama: o Flamengo venceu o primeiro jogo contra o América por 1 a 0, perdeu o segundo por 5 a 1 e ganhou o terceiro por 4 a 1, com quatro gols de Dida. Roberto Paiva já havia gravado o disco, mas temia que a música virasse fracasso caso o Flamengo perdesse o campeonato. O título veio, a canção foi lançada em 78 rotações e se tornou, para o pesquisador, uma das mais bonitas da história rubro-negra.

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Quando a música guarda a narração da história

A conversa ganha ainda mais força quando Tinoco mostra como uma canção pode carregar documentos sonoros dentro de si. Em “Meu Flamengo, meu Brasil”, a abertura traz o gol de Valido em 1944 na voz de Oduvaldo Cozzi, enquanto o encerramento registra o gol de Dida no tri de 1955 com a narração de Waldir Amaral. A identificação dessa primeira voz, porém, não foi simples. Havia versão atribuída a Antônio Cordeiro, outro narrador importante da época, e a dúvida exigiu consulta a pesquisadores, radialistas antigos e, por fim, a um laboratório de fonética, que confirmou a voz de Cozzi.

Esse detalhe parece pequeno, mas revela o tamanho da responsabilidade de quem trabalha com memória. Uma narração errada, repetida durante anos, altera a assinatura de um momento histórico. Tinoco mostra que preservar o Flamengo não é apenas guardar camisa, foto e taça. É também saber quem narrou um gol, quem compôs uma música, qual disco saiu primeiro, que jornal registrou determinado episódio e como uma obra circulou entre torcedores.

Outro caso impressionante envolve Jackson do Pandeiro. Tinoco contou que uma música inédita chamada “Fla-Flu” foi resgatada a partir de um documento encontrado no setor de censura do Arquivo Nacional. A canção teria sido ensaiada para um disco gravado em 1981, no qual Jackson registrou “Bola de pé em pé”, homenagem ao Flamengo, mas acabou preterida. O documento trazia nome, letra e autores, informações que permitiram cruzar dados com o biógrafo do artista. Depois, o pesquisador recebeu um áudio em que o sobrinho de Jackson cantava a melodia, abrindo caminho para que a música fosse enfim gravada pelo sobrinho-neto do artista.

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A torcida que se anunciava pela cidade

A parte mais bonita da entrevista aparece quando a pesquisa cultural encontra a formação da torcida. Tinoco lembra uma conversa com Reginaldo Bessa, cantor rubro-negro dos anos 1960, que explicou por que virou Rubro-Negro. Morador da Voluntários da Pátria, em Botafogo, ele via nos anos 1940 e 1950 o bonde da torcida indo para o campo da Gávea, uniformizada e cantando, algo que, segundo seu relato, nenhuma outra torcida fazia daquela maneira. A cena foi tão forte que produziu conversão afetiva. Ele não virou flamenguista apenas por causa de um jogador ou de um título, mas porque viu uma massa se comportando como Flamengo antes mesmo de chegar ao estádio.

Esse exemplo ajuda a entender por que a torcida rubro-negra sempre pareceu diferente. Não diferente no sentido arrogante ou abstrato, mas na capacidade de espalhar pertencimento. O Flamengo sempre teve mania de grandeza, mas essa grandeza não nasceu vazia. Ela foi alimentada por músicas tocadas no rádio, por crianças imitando Dida com esparadrapo e número 10 na camisa depois do tri de 1955, por cantores que transformavam vitórias em disco, por torcedores que ocupavam bondes, ruas e arquibancadas como se estivessem anunciando ao mundo uma identidade coletiva.

Tinoco também passa por livros, edições raras e restauração de acervos, como no caso do livro “Histórias do Flamengo”, de Mário Filho, cuja primeira edição saiu nos anos 1940, foi relançada em 1963 e teve novas versões posteriores. O pesquisador contou que mandou restaurar um exemplar antigo, com desmontagem, higienização e tratamento contra acidificação, pagando mais pelo restauro do que pelo próprio livro, porque a preservação garantiria vida longa ao material. O gesto explica muito sobre o trabalho: memória não se protege com discurso, mas com tempo, dinheiro, método e paciência.

No fim, a participação de Paulo Tinoco na BraboTV confirma que o Flamengo não pode ser estudado apenas como clube de futebol. Ele precisa ser lido como fenômeno cultural. A torcida que cantava no bonde, o disco de Roberto Paiva, a narração investigada em laboratório, a música esquecida de Jackson do Pandeiro, o Fla-Flu gravado na Inglaterra e o livro restaurado para durar séculos contam uma mesma história por caminhos diferentes. O Fla venceu muito, mas também foi cantado, narrado, impresso, restaurado, ouvido e repetido. Talvez seja por isso que sua grandeza pareça difícil de explicar. Ela não está em um único lugar. Está espalhada em todas as formas pelas quais o Brasil aprendeu a falar, cantar e imaginar futebol.

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