Flamengo prepara filme sobre origem do Urubu e transformação de símbolo racista em identidade da torcida

O Flamengo prepara uma produção cinematográfica sobre uma das transformações simbólicas mais importantes de sua história: o nascimento do Urubu como mascote rubro-negro. A iniciativa foi revelada por Flávia da Justa, diretora de Comunicação e Conteúdo do clube, durante participação no MengoCast, e pretende reconstruir desde a utilização racista e pejorativa da ave pelas torcidas adversárias até o episódio de 1º de junho de 1969, quando quatro flamenguistas levaram um urubu ao Maracanã antes de uma vitória sobre o Botafogo. O projeto foi concebido para cinema, terá dimensão de grande produção e deverá posteriormente buscar distribuição também por plataformas de streaming.
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A ideia faz parte da estratégia do Flamengo de transformar sua história em conteúdo capaz de atravessar gerações e alcançar públicos para além do futebol. Segundo Flávia, há projetos de maior porte já contratados e sendo apresentados ao mercado, entre eles o longa dedicado ao mascote. A intenção é contar uma história conhecida em fragmentos por grande parte da torcida, mas que nunca recebeu, segundo a dirigente, um tratamento cinematográfico capaz de reconstruir sua dimensão social, cultural e esportiva.
O filme terá participação direta de personagens que viveram aquele momento. Dos quatro torcedores responsáveis pela ação no Maracanã em 1969, três ainda estão vivos e deverão contribuir para a reconstrução dos acontecimentos, oferecendo ao projeto algo fundamental em qualquer produção histórica: o testemunho de quem participou da transformação de um insulto em símbolo de identidade.
Antes do Urubu, Flamengo teve Popeye como mascote
A história do mascote rubro-negro não começou com a ave que hoje aparece em arquibancadas, produtos, campanhas e referências culturais relacionadas ao clube. Flávia lembrou que, na década de 1940, o Flamengo utilizava Popeye, personagem criado por Elzie Crisler Segar e popularizado mundialmente pelas histórias em quadrinhos e animações.
Apesar da ligação com características como força e persistência, Popeye nunca desenvolveu com a torcida uma identificação comparável à que posteriormente seria construída em torno do Urubu. Essa mudança, porém, nasceu de uma origem muito mais delicada.
No início dos anos 1960, torcedores adversários passaram a utilizar “urubu” como forma de atacar a torcida do Flamengo. A associação possuía componente racial e social, direcionado a uma arquibancada historicamente marcada por forte presença negra, popular e diversa. O apelido não surgiu, portanto, como estratégia de marketing criada pelo clube nem como escolha deliberada de uma diretoria, mas como tentativa de inferiorizar aqueles que ocupavam as arquibancadas rubro-negras.
É justamente essa origem que torna a história maior do que a criação convencional de um mascote esportivo. O Flamengo não simplesmente adotou uma ave. Sua torcida ressignificou uma expressão usada como ofensa e a transformou em elemento de pertencimento, mecanismo encontrado muitas vezes por grupos sociais para retirar do agressor a força de determinada palavra e incorporá-la à própria identidade.
Quatro torcedores, um urubu e o Maracanã em 1969
O ponto de virada aconteceu em 1º de junho de 1969. Flamengo e Botafogo se enfrentariam no Maracanã em um período de amplo domínio alvinegro no confronto. O Rubro-Negro não derrotava o rival havia quatro anos, enquanto a geração botafoguense ainda carregava nomes importantes de uma das fases mais fortes do clube.
Quatro flamenguistas decidiram responder de maneira irreverente às provocações que ouviam nas arquibancadas. Foram até um lixão, capturaram um urubu e levaram a ave para o apartamento de um deles na véspera da partida. A própria precariedade da operação ajuda a revelar o caráter espontâneo da história: sem conhecimento sobre os hábitos do animal, chegaram a discutir o que poderiam oferecer como alimento antes de levá-lo ao estádio.
No dia seguinte, conseguiram entrar no Maracanã com o urubu escondido e envolvido em uma bandeira do Flamengo. Dentro da arquibancada, libertaram a ave. O animal voou sobre o estádio enquanto o público reagia, e aquelas imagens acabaram registradas pelas câmeras do histórico Canal 100, responsável por documentar algumas das cenas mais marcantes do futebol brasileiro durante décadas.
O Flamengo venceu o Botafogo por 2 a 1. A coincidência entre o voo do urubu e o fim de um longo jejum ajudou a transformar imediatamente aquele acontecimento em narrativa popular. A torcida começou a gritar “urubu, urubu, urubu”, apropriando-se definitivamente da palavra que até então havia sido utilizada pelos adversários como agressão.
Os jornais do dia seguinte registraram a repercussão, e o episódio entrou definitivamente na memória rubro-negra. A partir daquele momento, o Urubu deixou de funcionar apenas como apelido hostil e passou a representar o próprio Flamengo nas arquibancadas.
Filme pretende discutir preconceito e identidade
Flávia da Justa destacou que a produção não pretende tratar o personagem simplesmente como elemento folclórico. Para a dirigente, a origem do Urubu permite abordar preconceito, racismo, identidade popular e a relação entre o clube e sua torcida, transformando o longa também em uma forma de preservar memória.
Essa dimensão amplia as possibilidades do projeto. A história possui futebol, rivalidade, humor, improviso e uma partida emblemática, mas carrega principalmente uma transformação social. Uma tentativa de estigmatização acabou absorvida pelo próprio grupo atacado, que modificou seu significado até convertê-la em motivo de orgulho.
O Flamengo trabalha com a perspectiva de uma produção de cinema comandada por um diretor brasileiro de grande projeção, cujo nome ainda não foi divulgado. A participação do profissional, contudo, estava em processo de fechamento quando Flávia falou sobre o projeto, razão pela qual a identidade foi preservada.
O plano é desenvolver uma obra com padrão cinematográfico e buscar posteriormente circulação em salas de exibição e plataformas de streaming. A proposta de alcançar o mercado internacional também dialoga com uma estratégia mais ampla do clube de utilizar conteúdo para apresentar sua história a públicos que não necessariamente conhecem em profundidade a cultura rubro-negra.
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Memória passa a integrar estratégia de negócios
O filme aparece dentro da frente denominada Legado & Formação, uma das áreas estruturadas pelo Flamengo em seu novo modelo de marca e negócios. Nesse eixo estão iniciativas relacionadas à preservação histórica, ao museu, a produtos retrô e ao desenvolvimento de novos atletas e praticantes por meio das escolas esportivas.
Existe uma lógica comercial nessa organização, mas também uma preocupação institucional. Arquivos, personagens, uniformes, conquistas e episódios de arquibancada constituem ativos que podem gerar documentários, livros, exposições, produtos licenciados e experiências. Quando trabalhada com rigor histórico, essa memória permite ao clube produzir receita sem precisar inventar artificialmente histórias que sua própria trajetória já oferece.
Poucas narrativas exemplificam isso tão bem quanto a do Urubu. O personagem não nasceu em uma reunião de publicidade nem foi desenhado para melhorar o posicionamento de uma marca. Surgiu de uma tensão racial e social, passou pela criatividade de quatro torcedores, sobrevoou o Maracanã diante de milhares de pessoas e encontrou significado definitivo na arquibancada.
Transformar essa trajetória em cinema oferece ao Flamengo a oportunidade de contar algo que vai além de uma vitória por 2 a 1 sobre o Botafogo. O desafio será preservar a complexidade da origem sem transformar preconceito em simples curiosidade folclórica. Se conseguir fazer isso, o projeto poderá explicar às novas gerações por que o Urubu deixou de ser uma ofensa para se transformar em um dos símbolos mais reconhecíveis da identidade rubro-negra.
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