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Assista o filme “O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg”

Assista o filme "O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg"

O Cinefoot transformou a noite desta segunda-feira (10), no Estação Claro Rio, em Botafogo, num encontro entre cinema, memória e rubro-negrismo ao exibir, na mesma sessão, “Onde Estiver, Estarei – Uma Paixão Rubro-Negra” e o curta “O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg”, produzido por Pedro Asbeg como homenagem ao cronista, escritor e publicitário morto em abril deste ano. Mais do que reunir duas obras relacionadas ao Flamengo, a programação conectou a história de torcedores que atravessaram quase quatro décadas acompanhando o clube à trajetória de um homem que encontrou nas palavras uma maneira própria de explicar aquilo que a arquibancada sentia.


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A sessão começou às 19h e colocou lado a lado dois trabalhos unidos pela presença de Arthur. No documentário dirigido por Pedro Asbeg, ele participa do roteiro da história de Francisco Moraes e Claudio Cruz, torcedores que estiveram nas conquistas da Libertadores de 1981 e 2019. No curta produzido especialmente em sua memória, é o próprio pensamento de Muhlenberg que ocupa o centro da narrativa. A programação oficial do Cinefoot registra aproximadamente oito minutos para a homenagem e 70 minutos para a versão atual de “Onde Estiver, Estarei”.

Da arquibancada de 1981 a Lima em 2019

“Onde Estiver, Estarei” nasceu originalmente como um curta de 21 minutos, exibido no próprio Cinefoot em 2020. A narrativa acompanhava Francisco Moraes e Claudio Cruz, testemunhas da conquista continental de 1981 que se reencontraram em Lima, em 23 de novembro de 2019, para assistir à final contra o River Plate. A história posteriormente ganhou uma versão ampliada, dirigida por Pedro Asbeg, com roteiro de Arthur Muhlenberg, e chegou ao circuito de TV e streaming em 2026.

A escolha dos personagens altera o ponto de observação normalmente adotado pelo documentário esportivo. Zico, Júnior, Gabigol, Bruno Henrique e outros protagonistas das duas campanhas fazem parte inevitavelmente do contexto, mas o filme coloca a câmera sobre quem comprou passagem, percorreu continentes, sofreu eliminações durante décadas e continuou seguindo o Flamengo mesmo quando não existia nenhuma garantia de recompensa esportiva.

Francisco e Claudio funcionam, assim, como ponte entre duas Libertadores separadas por 38 anos. Em 1981, acompanhar o Flamengo pela América exigia uma logística muito diferente daquela encontrada em 2019. O futebol se profissionalizou, a circulação de informação mudou, viagens se tornaram mais acessíveis e a própria competição assumiu outra dimensão econômica. O comportamento essencial daqueles torcedores, entretanto, permaneceu reconhecível: onde o Flamengo estivesse, eles tentariam estar.

A presença de Arthur no roteiro combina naturalmente com essa proposta porque sua produção nunca tratou o torcedor apenas como consumidor de resultados. O Flamengo de Muhlenberg existia na tabela, mas também no comportamento, no vocabulário, na superstição, na rivalidade, nas derrotas inesperadas, nas conquistas superdimensionadas e na convicção assumidamente parcial de que o mundo poderia ser interpretado a partir do rubro-negro.

ASSISTA AO FILME “O RUBRO-NEGRISMO RACIONAL DE ARTHUR MUHLENBERG”:

Pedro Asbeg transforma a ausência em filme

Foi justamente essa visão que Pedro Asbeg procurou preservar em “O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg”. Amigo próximo, parceiro profissional e compadre de Arthur, o cineasta construiu uma homenagem curta, mas carregada de referências à maneira como o cronista enxergava o Flamengo.

O título recupera uma expressão profundamente ligada à produção de Muhlenberg. “Racional”, nesse universo, sempre carregou uma dose evidente de ironia. A tentativa de estabelecer uma lógica para o flamenguismo encontrava rapidamente uma conclusão: dentro daquele sistema de pensamento, o Flamengo era maior, extraordinário e naturalmente colocado no centro do universo pelo próprio torcedor.

Um trecho utilizado no curta sintetiza bem essa lógica ao colocar o Flamengo sempre no superlativo. Ataques, rivalidades e incômodos externos são reinterpretados a partir da grandeza que o rubro-negro atribui ao próprio clube. Não se trata de uma investigação acadêmica sobre comportamento de torcida, mas da recuperação do personagem literário e cultural construído por Arthur durante décadas.

A homenagem ganhou peso adicional por causa da proximidade de sua morte. Muhlenberg morreu em abril de 2026, aos 62 anos, depois de um período de internação causado por uma doença pulmonar após ter se recuperado de uma leucemia com transplante de medula óssea. Colaborador do Grupo Globo desde 2007, tornou-se conhecido nacionalmente pelo Urublog e posteriormente ampliou sua presença em vídeos, podcasts e livros dedicados ao Flamengo.

Entre suas obras estão “Manual do rubro-negrismo racional”, “Hexagerado”, “Da lama ao tri”, “Heptacular”, “Libertador” e “Já Virou Octanagem”. A bibliografia ajuda a dimensionar uma produção que acompanhou diferentes fases do clube e registrou não apenas resultados, mas a maneira como o torcedor processava cada momento.

Uma referência da primeira geração de blogs rubro-negros

A influência de Arthur também precisa ser compreendida dentro da transformação da comunicação sobre futebol na internet. Antes da multiplicação de canais no YouTube, perfis especializados, podcasts e transmissões independentes, os blogs criaram uma das primeiras possibilidades reais de torcedores produzirem conteúdo fora da estrutura convencional dos grandes veículos.

Muhlenberg foi um dos personagens mais importantes daquele período. Seu texto misturava repertório, provocação, memória, ironia e uma parcialidade assumida que não procurava fingir neutralidade. A linguagem abriu caminhos para uma geração de páginas e produtores rubro-negros que percebeu ser possível falar sobre o Flamengo sem repetir o formato tradicional da imprensa esportiva.

Essa influência ajuda a explicar por que a homenagem ultrapassa a relação pessoal entre Pedro Asbeg e Arthur. Quem acompanhou aquela fase da internet reconhece no curta também o registro de uma época na qual comunidades de torcedores começaram a construir seus próprios espaços, vocabulários e referências.

O próprio conceito de “rubro-negrismo racional” já circulava publicamente pelo menos desde a década de 2000 e acabou convertido em livro em 2009. Era a forma bem-humorada de organizar uma visão de mundo na qual a razão existia, desde que não atrapalhasse uma conclusão previamente estabelecida: o Flamengo ocupava sempre o lugar principal.

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Cinefoot transforma cinema em preservação da memória rubro-negra

A escolha de apresentar os dois filmes na mesma noite criou uma continuidade difícil de reproduzir em outro ambiente. “Onde Estiver, Estarei” mostra torcedores que transformaram deslocamento e permanência em testemunho histórico; “O rubro-negrismo racional” recupera quem transformou essa mesma experiência coletiva em linguagem.

O primeiro filme responde, por meio de Francisco e Claudio, ao que significa continuar seguindo o Flamengo durante décadas. O segundo mostra como Arthur encontrou palavras para essa relação e ajudou outras pessoas a entenderem, ou pelo menos aceitarem, a dimensão irracional que existe na tentativa de racionalizar uma paixão.

O Cinefoot, festival dedicado à cultura do futebol, funciona nesse contexto como espaço de preservação. O esporte aparece menos como sucessão de jogos e mais como produção de memória, cinema, literatura e identidade, perspectiva particularmente adequada para homenagear um cronista cuja contribuição não pode ser medida por gols ou títulos.

A ausência de Arthur é recente demais para que a sessão tivesse apenas caráter histórico. Rever sua voz, seus conceitos e sua maneira de transformar o Flamengo em narrativa significa também enfrentar uma perda ocorrida há poucos meses. Pedro Asbeg encontrou no cinema uma forma de registrar parte desse legado sem tentar encerrá-lo, porque escritores continuam circulando através dos textos, expressões e ideias que deixam incorporados ao vocabulário de seus leitores.

Por isso, os poucos minutos de “O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg” funcionam como algo maior do que um tributo entre amigos. O curta preserva uma forma de pensar, escrever e viver o Flamengo que influenciou uma geração inteira de torcedores e produtores de conteúdo. Ao lado de “Onde Estiver, Estarei”, a homenagem também reafirma uma ideia presente nas duas obras: a história rubro-negra não pertence somente aos jogadores que entram em campo, mas a quem viaja, escreve, registra, conta e transforma a experiência de torcer em memória coletiva.

Bate-papo com Pedro Asbeg, diretor do documentário “Onde estiver, estarei – Uma paixão Rubro-negra”

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