Bap admite responsabilidade por conflito com Leila e defende diálogo entre Flamengo e Palmeiras

Luiz Eduardo Baptista reconheceu que a relação pessoal com Leila Pereira acumula divergências, provocações e responsabilidades dos dois lados, mas afirmou estar disposto a conversar com a presidente do Palmeiras sempre que os interesses do Flamengo exigirem. Ao abordar a rivalidade entre os dirigentes, Bap separou o cidadão que possui opiniões particulares do mandatário obrigado a representar uma das instituições mais poderosas do futebol brasileiro, especialmente em negociações que envolvam direitos comerciais e a formação de uma liga nacional.
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A declaração apresenta uma postura mais equilibrada do que a adotada em momentos anteriores do conflito. Bap não tentou construir a imagem de vítima exclusiva, tampouco transferiu toda a responsabilidade pelo desgaste para Leila. “Eu não sou santo, ela também não é”, resumiu, antes de reconhecer que ambos sabem o que fizeram durante os episódios que deterioraram o relacionamento.
A autocrítica merece registro, sobretudo em um ambiente no qual dirigentes costumam assumir os méritos individualmente e distribuir as culpas entre rivais, antecessores e instituições. Ao mesmo tempo, admitir erros não apaga as consequências da disputa pública nem transforma a disposição para o diálogo em gesto extraordinário. Conversar com outros clubes não constitui favor ou concessão pessoal, mas parte básica das obrigações de quem ocupa a presidência do Flamengo.
O CPF não pode comandar o CNPJ
Bap afirmou manter boa relação com dirigentes de 17 clubes da Série A e de diferentes equipes da segunda divisão. Também destacou o respeito pela instituição Palmeiras, elogiou a reconstrução conduzida por Paulo Nobre e mencionou relações profissionais positivas dentro do departamento de futebol alviverde.
O contraste deixa claro que o conflito não é entre Flamengo e Palmeiras como entidades permanentes, mas entre personagens que ocupam temporariamente suas presidências. Bap passará pela Gávea, assim como Leila deixará o comando do clube paulista. As decisões tomadas durante esses mandatos, entretanto, podem produzir efeitos durante décadas.
“Não precisam ser grandes amigos, não precisam ser irmãos, mas precisam sentar na mesa e discutir negócios”, afirmou o presidente rubro-negro. Ele acrescentou que não possui “absolutamente nada” contra a instituição palmeirense e disse que estaria disponível para negociar com qualquer pessoa quando o interesse do Flamengo estivesse em jogo.
A separação entre CPF e CNPJ é correta, mas precisa aparecer também na prática. Flamengo e Palmeiras protagonizaram nos últimos anos uma disputa que ultrapassou o campo, avançou por comunicados oficiais e frequentemente transformou divergências administrativas em ataques personalizados. Quando presidentes utilizam a estrutura dos clubes para responder a mágoas particulares, milhões de torcedores acabam mobilizados por conflitos que deveriam ser resolvidos em reuniões institucionais.
O problema não está na existência de posições distintas. Clubes com interesses comerciais, políticos e esportivos concorrentes inevitavelmente entrarão em choque. A questão aparece quando a discordância abandona o mérito e passa a depender da antipatia entre os representantes.
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Reconhecer responsabilidade é um avanço, não uma absolvição
Ao dizer que Leila não é culpada por tudo de ruim ocorrido entre eles, Bap recusou uma narrativa confortável. Relações desgastadas raramente possuem apenas um responsável, especialmente quando as partes acumulam poder, personalidade forte e disposição para o confronto público.
O presidente do Flamengo mencionou “cotoveladas”, ofensas e acontecimentos conhecidos pelos dois. Não detalhou cada episódio, mas admitiu sua parcela no conflito. Essa postura difere da tentativa recorrente de apresentar qualquer crítica como perseguição, método utilizado com frequência no futebol para proteger dirigentes de cobranças.
A fala, porém, não deve ser convertida em certificado automático de maturidade. O verdadeiro teste surgirá quando Flamengo e Palmeiras precisarem negociar temas nos quais seus interesses não estejam alinhados. É relativamente simples defender a união em uma entrevista; mais difícil será ceder, construir consenso e aceitar mecanismos coletivos quando a solução não representar vitória integral de um lado.
Bap também afirmou que as duas administrações possuem mais pontos em comum do que diferenças. Segundo ele, a polarização esportiva dos últimos anos pode ter aproximado justamente os aspectos mais negativos de cada perfil, em vez de reunir as melhores capacidades de gestão.
A observação é importante porque Flamengo e Palmeiras carregam semelhanças evidentes. Ambos possuem receitas elevadas, protagonismo esportivo, grande poder político e capacidade de influenciar decisões do mercado nacional. Essa proximidade explica a concorrência, mas também torna o diálogo indispensável.
Uma liga não pode depender da amizade dos presidentes
O ponto mais relevante da manifestação aparece quando Bap trata da possibilidade de uma liga única. Em um modelo semelhante ao da Premier League, os clubes participantes seriam acionistas de uma empresa responsável pela organização e exploração comercial do campeonato. Nesse cenário, Flamengo e Palmeiras seriam sócios, gostassem ou não de seus respectivos presidentes.
Nenhuma estrutura séria pode depender da harmonia pessoal entre os mandatários. Presidentes mudam, grupos políticos se alternam e rivalidades se intensificam conforme resultados, receitas e disputas internas. Uma liga precisa sobreviver a essas oscilações por meio de estatuto, governança, critérios de votação, regras de distribuição financeira, fiscalização e mecanismos para solucionar impasses.
Bap utilizou a comparação com um casamento e alertou que negócios excelentes podem fracassar quando os sócios brigam ou não planejam a sucessão. Por isso, defendeu a criação de proteções capazes de impedir que conflitos pessoais destruam o projeto coletivo.
Esse raciocínio deveria orientar todo o debate sobre a reorganização do futebol brasileiro. Não basta reunir os clubes em uma sala, anunciar um novo nome e assinar contratos de longo prazo. É necessário construir uma instituição que não possa ser paralisada pela vaidade de seus dirigentes.
A fragmentação atual entre grupos concorrentes mostra justamente o contrário. As equipes reconhecem a necessidade de negociar em conjunto, mas continuam divididas por modelos de distribuição, contratos e ressentimentos políticos. Flamengo e Palmeiras possuem força para conduzir uma aproximação, embora também possam aprofundar a separação caso utilizem seu peso apenas para defender vantagens individuais.
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A instituição deve vir primeiro
Bap foi preciso ao afirmar que o presidente do Flamengo precisa colocar o clube acima de suas preferências pessoais. A obrigação vale para ele, para Leila e para qualquer dirigente que represente uma agremiação. O cargo não elimina sentimentos, mas exige que eles não determinem decisões estratégicas.
A disposição declarada para conversar não reconstrói sozinha a relação entre Flamengo e Palmeiras. Ela abre uma possibilidade que deverá ser confirmada por atitudes, especialmente quando surgirem discussões sobre liga, direitos de transmissão, calendário, arbitragem e divisão de receitas.
O reconhecimento de responsabilidade representa um passo positivo porque rompe com a postura infantil de atribuir todos os problemas ao adversário. Ainda assim, a avaliação definitiva não será feita pelas palavras utilizadas em uma entrevista, mas pela capacidade de preservar o Flamengo quando o interesse institucional exigir negociação com alguém de quem BAP pessoalmente discorda.
Flamengo e Palmeiras não precisam estabelecer uma amizade artificial, muito menos esconder suas divergências. Precisam compreender que o futebol brasileiro não pode permanecer submetido aos afetos e desafetos de dirigentes temporários. Quando o CPF controla o CNPJ, a rivalidade deixa de fortalecer a competição e passa a comprometer o futuro das próprias instituições.
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