Bap esfria estádio do Flamengo e admite prazo de até 15 anos para viabilizar projeto

Bap esfria estádio do Flamengo e admite prazo de até 15 anos para viabilizar projeto

Luiz Eduardo Baptista, o Bap, reduziu as expectativas de construção imediata do estádio do Flamengo ao afirmar que o projeto somente avançará quando apresentar retorno superior ao Maracanã, não comprometer a competitividade esportiva e encontrar condições financeiras muito mais favoráveis. Depois de oito meses de estudos conduzidos com a Fundação Getulio Vargas, o presidente concluiu que uma arena para mais de 70 mil pessoas exigiria investimento bilionário, obras complexas no terreno do Gasômetro e um prazo que pode ultrapassar a próxima década.


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A posição não representa o abandono formal do projeto, mas altera profundamente a perspectiva apresentada ao torcedor desde a compra do terreno. O estádio próprio deixa de ser uma obra com cronograma previsível e passa a funcionar como uma opção estratégica a ser exercida apenas quando juros, demanda, logística e rentabilidade se alinharem. Na prática, o Flamengo possui o espaço, acompanha as etapas preliminares, porém não trata a construção como prioridade imediata.

Estudo encontrou um projeto subestimado

Bap afirmou que a atual gestão trabalhou durante quase oito meses com a FGV, examinando linha por linha a planilha recebida. Para ilustrar os problemas, comparou algumas projeções ao organizar um churrasco para cem pessoas comprando apenas três quilos de carne ou oferecer suco de uva em uma degustação de vinho. A crítica indica que custos e necessidades importantes teriam sido subestimados no planejamento anterior.

A conclusão foi que um estádio adequado à dimensão do Flamengo precisaria comportar entre 70 mil e 80 mil pessoas. Não bastaria, portanto, construir uma arena menor para cumprir uma promessa política: o equipamento teria de atender à demanda nacional do clube, oferecer experiência superior e produzir margem mais elevada do que a operação atual do Maracanã.

Esse ponto merece atenção porque o projeto anterior foi apresentado ao torcedor com datas, capacidade e fontes de financiamento que transmitiam uma sensação de avanço mais acelerado. Ao revisar as estimativas, a administração encontrou um cenário menos confortável e passou a tratar como inviável qualquer solução baseada apenas em entusiasmo, antecipação de receitas ou expectativas comerciais ainda não garantidas.

A correção das contas é necessária, mas também expõe a fragilidade de anúncios realizados antes da conclusão dos estudos técnicos. Um estádio não pode ser vendido como realidade próxima quando questões ambientais, financeiras, urbanísticas e operacionais permanecem sem solução.

Eficiência do Maracanã virou concorrente do Gasômetro

O principal obstáculo não está apenas no preço da obra. Bap explicou que a gestão do Maracanã se tornou eficiente a ponto de reduzir a vantagem econômica de uma arena própria. Em Flamengo e São Paulo, por exemplo, a operação teria alcançado margem de 76%, resultado difícil de superar após a inclusão do custo de capital necessário para erguer um novo equipamento.

O clube investe entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões anuais no estádio, mas esse valor é coberto pelo caixa gerado pela própria atividade. Além disso, o Maracanã continua sendo o espaço mais simbólico para a torcida rubro-negra, possui localização consolidada e permanecerá sob concessão do consórcio liderado por Flamengo e Fluminense por aproximadamente 18 anos e meio.

Essa eficiência produz uma contradição. Quanto melhor o Flamengo administra o Maracanã, menor se torna a urgência econômica para sair dele. A arena própria somente faria sentido caso entregasse receitas adicionais suficientes para pagar a construção, preservar o elenco e compensar o risco assumido.

Bap estabeleceu uma condição de demanda igualmente rigorosa. Antes de exercer a opção do Gasômetro, o clube precisaria lotar o Maracanã com 71 mil pessoas de maneira recorrente e ainda manter entre cinco e 15 mil torcedores sem ingressos. O cenário atual, com preços elevados e claros nas arquibancadas em diferentes partidas, não demonstra essa procura reprimida todos os jogos.

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Entre 14 e 20 anos para acumular os recursos

Na hipótese de um estádio custar aproximadamente R$ 3 bilhões, o presidente calculou que o Flamengo levaria 20 anos para juntar o dinheiro poupando R$ 150 milhões por temporada. Com a capitalização desses recursos, o período poderia cair para algo entre 14 e 15 anos.

A fala que mais desanimou os torcedores surgiu quando Bap mencionou a possibilidade de seus filhos presenciarem a construção, sem saber se ele próprio verá a obra concluída. A declaração não possui valor de cronograma oficial, mas traduz com clareza a distância existente entre o terreno adquirido e uma inauguração.

O dirigente condicionou uma mudança de cenário à queda expressiva do custo do dinheiro. Segundo ele, seria necessário aproximar esse indicador de 6% ao ano para alterar significativamente a decisão. Também admitiu a possibilidade de um fundo soberano ou investidor adquirir participação no empreendimento por meio de uma sociedade com o Flamengo.

A prudência é correta, especialmente porque financiar bilhões de reais em um país com juros elevados poderia transformar o estádio em ameaça ao próprio futebol. Entretanto, a solução com um parceiro exige cautela semelhante. Um investidor não colocará recursos sem exigir retorno, controle, garantias ou participação nas receitas futuras, o que pode limitar a autonomia rubro-negra durante décadas.

Naturgy e descontaminação prolongam o calendário

Mesmo que o dinheiro estivesse disponível hoje, a construção não começaria imediatamente. O terreno ainda precisa ser desobstruído, e a instalação da Naturgy atende cerca de 400 mil moradores do Rio de Janeiro, exigindo a definição de outro local antes da retirada.

Bap estimou aproximadamente quatro anos e meio para resolver essa etapa. Depois, seriam necessários entre um ano e meio e dois anos para descontaminar completamente a área, seguidos pelo período de construção. Somadas, as fases podem levar perto de dez anos, mesmo em uma situação financeira mais favorável.

Esse cronograma mostra por que a inauguração anteriormente projetada para 2029 nunca dependeu apenas da capacidade do clube de levantar recursos. A transferência da estrutura de gás, as licenças, a limpeza ambiental e a preparação do terreno constituem etapas que não podem ser aceleradas por vontade política.

O Flamengo precisa apresentar ao torcedor uma linha do tempo realista, ainda que não possua data para iniciar as obras. Informar o estágio da mudança da Naturgy, os estudos de descontaminação e as exigências da prefeitura permitiria separar aquilo que está efetivamente em andamento das hipóteses dependentes do mercado financeiro.

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Desempenho esportivo não será sacrificado

Bap declarou que não quebrará o clube nem reduzirá sua força esportiva para construir a arena. Segundo ele, o desempenho dentro de campo responde por quase 40% da receita rubro-negra e pode representar uma diferença de aproximadamente R$ 600 milhões entre um ano de grande sucesso e outro menos vencedor.

Essa compreensão impede uma escolha artificial entre time e patrimônio. Sem uma equipe competitiva, caem premiações, bilheteria, televisão, patrocínios e exposição internacional. Ao mesmo tempo, adiar indefinidamente a arena própria também possui custo, porque o terreno exige manutenção, planejamento e recursos sem produzir o retorno esperado na compra.

A declaração de Bap oferece uma dose necessária de realidade, embora represente um recuo evidente em relação à expectativa criada nos últimos anos. O estádio do Flamengo continua possível, mas depende de condições que hoje não existem: dinheiro mais barato, parceiro confiável, demanda excedente, margem superior à do Maracanã e solução para os obstáculos do terreno.

O clube tem tempo, como destacou o presidente, porém esse argumento não pode justificar ausência de planejamento. A prudência protege as finanças; a transparência protege a confiança do torcedor. Entre o entusiasmo de prometer uma inauguração próxima e o conformismo de empurrar a obra por duas décadas, existe o dever de construir um caminho verificável para que o Gasômetro não se transforme apenas no terreno onde o Flamengo guardou um sonho caro.

Flamengo trata terreno do estádio como resolvido, mas ainda falta publicação oficial

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