Bap diz que fim das bets pode impactar Flamengo em R$ 400 milhões e admite não ter plano B

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, afirmou nesta quinta-feira (25), que a interrupção do mercado legal de apostas pode provocar um impacto de aproximadamente R$ 400 milhões nas receitas do clube em 2027. Em entrevista ao Metrópoles, o dirigente explicou que a estimativa não corresponde apenas ao valor do contrato com a Betano, atualmente de R$ 268,5 milhões por ano, mas inclui efeitos indiretos sobre outras receitas e atividades do Flamengo. Bap também reconheceu que o clube ainda não possui uma alternativa estruturada para substituir imediatamente esse dinheiro.
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A declaração ocorre no mesmo dia em que o governo federal anunciou uma Medida Provisória para interromper a operação das apostas e jogos virtuais online no país. A mudança atinge um mercado que havia sido regulamentado pelo Congresso e pelo próprio governo em 2023 e que, desde então, passou a integrar de maneira significativa a estrutura comercial do futebol brasileiro. A Lei 14.790 estabeleceu autorização prévia do Ministério da Fazenda, regras de fiscalização, mecanismos de jogo responsável e integridade esportiva, além de prever autorizações com prazo de até cinco anos.
R$ 400 milhões não são apenas o contrato com a Betano
Ao explicar o cálculo, Bap fez questão de diferenciar o patrocínio master do impacto global que a saída desse recurso pode provocar no orçamento rubro-negro. O contrato com a Betano representa R$ 268,5 milhões anuais, mas, segundo o presidente, o dinheiro também permite investimentos em outras áreas que podem gerar novas receitas e resultados esportivos.
“Para além do patrocínio, vai ser da ordem de R$ 400 milhões nas receitas do clube, porque você tem alguns impactos indiretos”, afirmou Bap. Na avaliação apresentada pelo dirigente, uma redução desse tamanho poderia comprometer compromissos assumidos para a temporada seguinte, já que parte do planejamento financeiro foi construída considerando a manutenção daquele fluxo de recursos.
O exemplo utilizado por Bap envolve os esportes olímpicos. O raciocínio é que uma parcela dos recursos disponíveis pode ser destinada a modalidades como basquete e ginástica, permitindo investimentos em atletas e estruturas. Esses gastos, por sua vez, podem contribuir para conquistas esportivas, premiações e novas receitas. Com menos dinheiro disponível, o clube teria de rever investimentos e poderia perder parte desse efeito indireto.
A diferença é importante para compreender o número apresentado pelo presidente. Os R$ 400 milhões não representam uma cobrança adicional ou uma multa decorrente do fim do contrato, tampouco significam que o Flamengo perderia esse valor diretamente para uma casa de apostas. Trata-se de uma estimativa de impacto sobre receitas, considerando o patrocínio e os efeitos que Bap afirma decorrerem dele.
O Flamengo não tem plano B
Questionado sobre a possibilidade de antecipar alternativas diante da mudança no ambiente regulatório, Bap foi direto ao afirmar que o Flamengo ainda não possui um plano alternativo.
“Eu estaria mentindo se dissesse aqui que a gente tem um plano B para isso. Não temos um plano B para isso”, declarou.
A justificativa apresentada pelo dirigente está relacionada ao cenário em que o contrato foi firmado. Segundo Bap, o clube assumiu compromissos de longo prazo acreditando na continuidade de um modelo aprovado pelo Congresso e regulamentado pelo governo. A possibilidade de uma interrupção em prazo tão curto, segundo ele, não fazia parte das premissas utilizadas no planejamento.
“Nós nunca consideramos a possibilidade de que contratos existentes em cima de um modelo absolutamente legal, aprovado pelo Congresso Nacional, com concessões emitidas oficialmente, legalmente, pudessem ser eliminados num curto espaço de tempo”, afirmou.
A posição ajuda a dimensionar o tamanho do problema para o clube. Não se trata apenas de encontrar uma nova marca para ocupar um espaço na camisa. Uma substituição dessa natureza envolve valores, prazo contratual, propriedades comerciais disponíveis, capacidade do mercado e, sobretudo, a necessidade de encontrar uma fonte de receita capaz de preencher uma lacuna que Bap estima em R$ 400 milhões.
ENTREVISTA COMPLETA:
Uma mudança no meio de um planejamento
O Flamengo havia estruturado seu planejamento financeiro e esportivo dentro do ambiente regulatório criado a partir de 2023. A legislação estabeleceu um mercado autorizado, com pagamento de outorga e obrigações específicas para as empresas, além de mecanismos destinados à proteção dos apostadores e à prevenção de transtornos relacionados ao jogo.
A autorização poderia ter duração de até cinco anos, enquanto o valor da outorga poderia chegar a R$ 30 milhões para até três marcas comerciais. O modelo também estabeleceu regras para publicidade, prevenção à lavagem de dinheiro e integridade das apostas esportivas.
É nesse contexto que aparece a principal preocupação manifestada pelo Flamengo: contratos foram assinados dentro de uma estrutura legal que agora pode ser profundamente modificada. O clube já havia divulgado posição pública defendendo a segurança jurídica e afirmando que alterações nas regras podem afetar não apenas os grandes times, mas toda uma cadeia ligada ao esporte.
A discussão não se limita ao futebol masculino. O argumento apresentado pelo Flamengo alcança categorias de base, futebol feminino, modalidades olímpicas, comunicação, marketing, tecnologia, fornecedores, arenas e prestadores de serviços. O tamanho do impacto em cada área, entretanto, ainda depende das consequências efetivas da mudança regulatória e das decisões que serão tomadas durante a tramitação da medida.
O problema vai além da camisa
O patrocínio master é a parte mais visível dessa equação, mas não é necessariamente a única. A presença das bets se espalhou por diferentes propriedades comerciais do futebol brasileiro nos últimos anos. Além dos uniformes, as marcas passaram a ocupar placas de estádio, espaços digitais, transmissões e nomenclaturas de competições.
Por isso, a retirada das empresas do mercado legal cria uma necessidade de reorganização que ultrapassa a simples troca de patrocinador. Clubes, empresas de mídia, competições e fornecedores precisam avaliar contratos que foram construídos em torno de um setor que, até agora, possuía autorização para funcionar.
A própria mudança regulatória anunciada pelo governo prevê prazos para a retirada de publicidade e marcas associadas aos contratos. Isso reduz o espaço disponível para uma substituição planejada e aumenta a necessidade de renegociação dos acordos existentes.
No caso do Flamengo, o desafio se torna ainda mais sensível porque a Betano ocupa uma das principais propriedades comerciais do clube. Encontrar outro parceiro não significa apenas preencher um espaço publicitário: é necessário considerar o valor da propriedade, o momento do mercado e a capacidade de gerar uma receita compatível com o planejamento elaborado para 2027.
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Saúde pública e segurança jurídica
Bap também procurou separar duas discussões que frequentemente aparecem juntas no debate sobre as apostas. De um lado, reconheceu a existência de problemas relacionados ao jogo e classificou a questão como um tema de saúde pública. De outro, questionou a mudança abrupta das regras depois que empresas e instituições assumiram compromissos baseados na legislação existente.
Essa distinção é relevante porque a própria Lei 14.790 já estabelecia mecanismos de prevenção ao transtorno do jogo patológico, atendimento aos apostadores, integridade das apostas e combate à lavagem de dinheiro.
O governo, por sua vez, passou a defender uma restrição muito mais ampla às apostas. A medida anunciada nesta sexta-feira representa uma mudança de direção em relação ao modelo de regulamentação implantado em 2023, enquanto o projeto encaminhado ao Congresso trata das consequências penais relacionadas à exploração e divulgação das atividades.
Para o Flamengo, a questão central neste momento é o intervalo entre a mudança das regras e a capacidade de adaptação de quem assumiu compromissos dentro do modelo anterior. Bap não apresentou uma solução alternativa imediata e deixou claro que o clube precisará lidar com uma situação que não estava contemplada no planejamento original.
O cenário de 2027, portanto, ainda não está fechado. A MP terá de passar pelo Congresso, e a forma definitiva da legislação poderá sofrer alterações durante a tramitação. Também será necessário definir como contratos existentes serão tratados e quais serão os efeitos econômicos concretos para clubes e demais integrantes da cadeia esportiva.
Até que essas etapas sejam concluídas, os R$ 400 milhões citados por Bap devem ser entendidos como uma estimativa de impacto apresentada pelo presidente do Flamengo, e não como uma perda já materializada. O número revela, sobretudo, a dimensão que o clube atribui ao dinheiro associado ao atual modelo de apostas e explica por que a mudança regulatória passou a ocupar espaço relevante no planejamento financeiro rubro-negro.
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