BAP explica como o fim das bets pode afetar receitas, contratações e planejamento financeiro do Flamengo para 2027

BAP explica como o fim das bets pode afetar receitas, contratações e planejamento financeiro do Flamengo para 2027
Imagem: Reprodução / Flamengo TV

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmou que a proibição das apostas de quota fixa no Brasil obrigará o clube a rever o planejamento financeiro para os próximos anos e poderá atingir diretamente o futebol, os esportes olímpicos, o quadro de funcionários e o mercado de contratações. Em entrevista ao MengoCast, da Flamengo TV, o dirigente citou compromissos assumidos pelo clube, incluindo pagamentos relacionados à contratação de Lucas Paquetá, para explicar por que considera a mudança regulatória um problema de receita futura.


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A declaração ocorre poucos dias depois da publicação da Medida Provisória nº 1.394, em 25 de setembro. O texto proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. Para materiais publicitários e sinais de patrocínio já existentes, a legislação estabeleceu prazo de dez dias para retirada.

O impacto sobre o planejamento

Ao falar sobre os efeitos da medida, Bap voltou a sustentar que o principal problema para o Flamengo não está apenas no dinheiro que deixa de entrar imediatamente, mas na dificuldade de projetar receitas para cumprir compromissos assumidos anteriormente.

“Como é que eu vou pagar o Paquetá em janeiro?”, questionou o presidente durante a entrevista. Na sequência, afirmou que a mudança compromete receitas futuras e interfere na folha do futebol, nas contratações já realizadas e nos pagamentos programados.

A preocupação ganha dimensão porque o Flamengo vinha estruturando compromissos financeiros de longo prazo enquanto contava com receitas contratadas. O clube já havia desembolsado mais de R$ 1 bilhão, sob a gestão de Bap, em operações para contratar e manter jogadores, segundo levantamento publicado pelo UOL em agosto. O cálculo considera direitos econômicos, luvas e intermediações registrados nos documentos financeiros do clube.

No caso de Paquetá, a referência feita pelo dirigente está relacionada justamente a uma obrigação futura. O jogador foi contratado por valores que chegam a 42 milhões de euros. Bap utiliza o pagamento previsto para janeiro como exemplo da diferença entre assumir uma despesa e contar com a receita necessária para honrá-la.

A questão, portanto, não é simplesmente saber quanto o Flamengo gastará na próxima janela. Antes disso, o clube precisa saber quais receitas estarão disponíveis para cumprir aquilo que já foi contratado.

De onde vem o impacto

O Flamengo estima uma perda anual próxima de R$ 400 milhões com o fim das bets. A maior parcela está relacionada ao contrato com a Betano, avaliado em aproximadamente R$ 268 milhões por temporada. O acordo também envolve propriedades relacionadas ao futebol feminino e aos esportes olímpicos.

Há ainda outros efeitos. A parceria com a Brax para exploração de placas publicitárias no Campeonato Brasileiro gira em torno de R$ 63 milhões para o Flamengo. No Campeonato Carioca, o clube tem uma receita estimada em R$ 27 milhões relacionada ao acordo comercial que envolve a competição e a Superbet. A soma desses valores ajuda a explicar a dimensão da projeção apresentada pelo clube, embora parte dessas receitas possa eventualmente ser substituída por novos negócios.

Em entrevista, Bap afirmou que cerca de 20% da receita do Flamengo estaria comprometida pela mudança. O presidente também apontou uma redução de aproximadamente R$ 20 milhões nos recursos destinados aos esportes olímpicos, além dos R$ 63 milhões das placas e dos R$ 27 milhões relacionados ao Campeonato Carioca.

Esses números são projeções apresentadas pelo dirigente e não significam necessariamente uma perda líquida definitiva. O Flamengo ainda poderá buscar novas fontes de receita e aguarda a evolução da própria MP, que precisa seguir o processo legislativo no Congresso.

“Vamos deixar de contratar jogadores e contratar advogados”

Foi ao tratar especificamente do mercado de transferências que Bap apresentou uma das frases mais contundentes da entrevista.

“Nós vamos deixar de contratar jogadores e contratar advogados”, afirmou.

O presidente explicou que, naquele momento, o clube não teria condições de assumir novos compromissos sem antes encontrar alternativas para recompor as receitas afetadas. Segundo Bap, o Flamengo buscará novos patrocinadores, mas os valores disponíveis no mercado tendem a ser inferiores aos contratos atuais enquanto vários clubes estiverem simultaneamente procurando substituir propriedades comerciais.

A lógica apresentada pelo dirigente é a da oferta e da procura. Com o fim dos patrocínios de empresas de apostas, dezenas de espaços relevantes do futebol brasileiro podem chegar ao mercado ao mesmo tempo. Para Bap, isso reduz o poder de negociação dos clubes e cria uma pressão sobre os valores das novas propriedades.

O cenário é particularmente importante para o Flamengo porque a Betano representa um contrato de grande dimensão. O acordo prevê cerca de R$ 268 milhões anuais e os pagamentos referentes a 2026 já foram praticamente todos realizados, incluindo a última parcela de R$ 64 milhões prevista para setembro. Flamengo e Betano decidiram manter o contrato em suspensão enquanto aguardam a definição do cenário regulatório.

Isso significa que a discussão sobre contratação não está relacionada apenas à janela seguinte. Ela envolve o planejamento de receitas para 2027 e os compromissos que atravessam várias temporadas.

ENTREVISTA COMPLETA:

O efeito nos esportes olímpicos

Outro ponto destacado por Bap foi o impacto sobre as modalidades olímpicas. O dirigente afirmou que grande parte dos recursos utilizados nessas áreas está vinculada a mecanismos de incentivo fiscal e ao financiamento de empresas do setor de apostas.

Segundo ele, o efeito sobre essas modalidades poderá ser ainda mais severo do que no futebol. A declaração acompanha a estimativa divulgada pelo clube de que haverá necessidade de revisão de programas e redução de despesas caso as receitas não sejam recompostas.

O presidente também afirmou que a revisão alcançará outras áreas do Flamengo. Entre as possibilidades citadas estão ajustes nos esportes olímpicos, no futebol masculino e feminino, no clube social, além de uma renegociação da estrutura de dívidas.

A perspectiva apresentada é de uma revisão ampla do orçamento, e não apenas de uma redução na verba destinada a contratações.

O que acontece com o futebol brasileiro

Bap também ampliou a discussão para além do Flamengo. Na avaliação do dirigente, a saída das empresas de apostas do mercado publicitário reduzirá o volume de dinheiro disponível para clubes, campeonatos e propriedades comerciais. Um dos exemplos citados envolve os campeonatos estaduais. O presidente afirmou que as competições regionais perderão receitas provenientes de patrocínios e premiações que passaram a depender, nos últimos anos, da presença das bets.

O diagnóstico encontra respaldo em parte dos números já levantados sobre o mercado. Em 2025, os clubes da Série A receberam cerca de R$ 1,03 bilhão em patrocínios de empresas de apostas, segundo levantamento publicado pela Folha. O valor correspondia a 7,2% das receitas totais dos clubes da primeira divisão naquele ano.

No caso do Flamengo, a dependência é maior. Levantamento da mesma reportagem aponta que 13,6% da receita do clube em 2025 vinha da Betano. O impacto, portanto, não se limita à camisa. Placas de estádio, propriedades de campeonatos, esportes olímpicos e outros espaços comerciais também foram construídos nos últimos anos com participação financeira das casas de apostas.

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O próximo passo

O Flamengo terá de trabalhar em duas frentes simultâneas: preservar a capacidade de cumprir os compromissos já assumidos e encontrar alternativas para as receitas que ficaram ameaçadas pela nova legislação. A situação ainda não está definitivamente encerrada, porque a Medida Provisória precisa avançar no Congresso e existe uma discussão jurídica em torno de seus efeitos.

Enquanto isso, Bap sinaliza que o planejamento para 2027 será revisto. O clube não pretende, neste momento, procurar outro patrocinador para substituir imediatamente a Betano, segundo declaração dada pelo presidente. A estratégia é aguardar a evolução do cenário antes de tomar uma decisão definitiva sobre a propriedade.

É nesse ponto que as contratações passam a ser consequência, e não necessariamente a causa do problema. O Flamengo terá de definir quanto dinheiro estará disponível depois de reorganizar contratos, despesas e receitas. Só então será possível estabelecer o espaço que haverá para novas aquisições.

A fala de Bap coloca, portanto, uma questão objetiva para o planejamento rubro-negro: antes de pensar em quem contratar, o clube precisará recalcular quanto poderá gastar. A perda projetada de receitas, a incerteza sobre os contratos de patrocínio e a necessidade de cumprir compromissos já assumidos fazem de 2027 um exercício de revisão financeira que poderá mudar o ritmo de investimentos do Flamengo no futebol.

Onde a Betano vai impactar o Flamengo em 2027: FlamengoTV, feminino e categorias de base

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