Bap explica possível chegada de Almada, custo de Paquetá e rebate narrativa de Flamengo quebrado

Bap explica possível chegada de Almada, custo de Paquetá e rebate narrativa de Flamengo quebrado

Luiz Eduardo Baptista voltou a tratar do mercado do Flamengo em meio a cobranças por reforços, especulações sobre Thiago Almada e críticas envolvendo pagamentos a empresários. Ao responder sobre a dificuldade de contratar jogadores de alto nível, o presidente rubro-negro colocou a negociação de Lucas Paquetá no centro da explicação, lembrou que a operação foi antecipada em relação ao planejamento inicial e apontou uma contradição no debate público: não faz sentido sustentar, ao mesmo tempo, que o clube está sem dinheiro para honrar compromissos e que negocia uma contratação bilionária para os padrões do futebol brasileiro.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


A fala atinge diretamente duas narrativas que passaram a circular em paralelo. De um lado, a tese de que o Flamengo estaria “quebrado” ou sem fôlego financeiro por causa da reprogramação de pagamentos a agentes. De outro, a expectativa de que o clube possa avançar por Almada, nome de peso internacional, campeão do mundo pela Argentina e tratado como jogador de prateleira alta. Bap tentou separar ruído de gestão. Para ele, uma coisa é administrar fluxo de caixa, renegociar prazos e controlar endividamento. Outra, bem diferente, é não ter capacidade econômica para contratar.

O presidente também retomou a discussão sobre comissões. O pano de fundo envolve a reclamação de agentes contra o Flamengo e a tentativa de transformar o episódio em prova de desorganização financeira. Bap afirmou que houve acordo em parte dos casos, que não se tratou de uma decisão generalizada e que o impacto foi menor do que o apresentado publicamente. Em seguida, citou uma situação específica: o clube teria concedido aumento espontâneo a um atleta, sem alteração contratual e sem negociação conduzida pelo empresário, mas o agente teria cobrado comissão sobre a valorização salarial. A pergunta deixada pelo dirigente é simples: qual trabalho justificaria aquela cobrança?

A contradição entre “calote” e Almada

A discussão ganha força porque o Flamengo está no centro de uma possível operação por Thiago Almada. Ainda que o negócio não tenha sido apresentado oficialmente nos detalhes finais, o próprio debate sobre o jogador já muda a escala da conversa. Não estamos falando de uma contratação barata, de oportunidade periférica ou de aposta de baixo custo. Uma chegada desse porte envolveria compra de direitos econômicos, luvas, salários, impostos, encargos e intermediações. Em outras palavras, a conta real é muito maior do que o valor estampado em manchetes.

É nesse ponto que Bap tenta desmontar a incoerência. Se o Flamengo estivesse de fato sem dinheiro para pagar comissões, como poderia se movimentar por um nome do tamanho de Almada? A pergunta não elimina a necessidade de transparência sobre acordos com agentes, mas obriga o debate a sair do slogan. Clube organizado pode ter descasamento de caixa. Pode antecipar receitas. Pode postergar compromissos negociados. Pode escolher entre uma contratação agora e uma margem de segurança maior no ano seguinte. Isso não significa insolvência.

A operação de Paquetá serve como exemplo. Segundo Bap, o Flamengo fez a maior repatriação da história do futebol brasileiro e precisou lidar com um custo total muito acima do número inicial. Ao falar de 40 milhões de euros e cerca de 18 milhões de euros em impostos, o presidente mostrou que a contratação não pode ser medida apenas pelo valor de aquisição. Há desembolso imediato, encargos, luvas e compromissos futuros. A frase mais importante da explicação está na lógica, não no número isolado: o torcedor vê a manchete, mas a diretoria precisa pagar a operação inteira.

O caso Paquetá também ajuda a entender a pressão da janela atual. A ideia inicial, segundo o dirigente, era trazer o jogador no meio do ano. A oportunidade apareceu antes, e o clube decidiu antecipar em cerca de seis meses uma movimentação que normalmente aconteceria entre agosto e setembro. Essa escolha gerou efeito no caixa, mas também entregou ao treinador um reforço de altíssimo nível antes do previsto. A cobrança por novas contratações, portanto, precisa considerar que parte do esforço que seria feito agora já foi realizado no começo do ano.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

Mercado europeu, premiações brasileiras e escolha de risco

Bap explicou outro ponto pouco discutido: o calendário financeiro do futebol brasileiro não conversa perfeitamente com o mercado europeu. As melhores oportunidades de compra e venda no exterior costumam aparecer em julho e agosto, enquanto parte relevante das premiações no Brasil entra apenas em novembro e dezembro. Isso obriga os clubes a anteciparem recursos, assumirem riscos ou recusarem oportunidades que talvez não voltem. Não é uma dificuldade exclusiva do Flamengo. É uma engrenagem estrutural que afeta qualquer instituição brasileira tentando competir por atletas de alto nível.

Nesse cenário, o presidente afirmou que cada janela envolve várias conversas simultâneas. Para uma mesma posição, podem existir duas ou três alternativas. O clube pode mirar uma prioridade, mas precisa manter planos paralelos, porque uma negociação pode travar por preço, salário, desejo do atleta, exigência do clube vendedor, comissões ou concorrência internacional. Bap usou uma metáfora simples ao dizer que pode querer “manga”, mas precisa ter “goiaba e abacaxi” como opções, porque ninguém controla completamente o mercado.

Essa explicação é relevante para o torcedor, que muitas vezes cobra contratação como se o clube escolhesse um jogador em uma prateleira e apenas passasse no caixa. No futebol real, cada movimento depende de tempo, oportunidade, risco e capacidade de pagamento. Quanto maior o nível do atleta, mais complexa fica a engenharia. O Flamengo tem dinheiro, marca e ambição, mas não vive em um universo separado das demais forças econômicas do esporte. Concorrer por jogadores importantes exige planejamento, paciência e, em alguns casos, coragem para antecipar uma decisão sem garantia de retorno esportivo imediato.

A base como solução que ainda não resolve tudo

A fala de Bap também trouxe uma autocrítica indireta sobre a formação. O presidente reconheceu que há um “gap” entre o sub-20 e o profissional, o que obriga o Flamengo a buscar jogadores mais caros. Essa é uma observação importante porque toca no centro do projeto de longo prazo. Nenhum clube brasileiro consegue gastar 60 ou 70 milhões de euros todos os anos para montar elenco. Em algum momento, a base precisa abastecer o time principal e também gerar vendas capazes de financiar novas contratações.

O problema é que vender bem exige formar bem. Se o Flamengo não acredita que determinados jovens estejam prontos para jogar no nível desejado pelo profissional, também fica mais difícil imaginar que esses mesmos atletas serão negociados por valores capazes de sustentar o orçamento. A base precisa ser ponte esportiva e ativo financeiro. Quando ela não cumpre nenhuma dessas funções em escala suficiente, a pressão se desloca para o mercado, e o mercado cobra caro.

Esse diagnóstico é incômodo, mas necessário. O Flamengo investiu muito em estrutura, tem uma das categorias de base mais observadas do país e revelou jogadores importantes nos últimos anos. Ainda assim, o salto entre promessa e titular competitivo em um elenco que disputa tudo é enorme. A gestão precisa reduzir essa distância. Do contrário, continuará obrigada a buscar soluções caras para problemas que deveriam ser parcialmente resolvidos dentro de casa.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

Dívida baixa não autoriza aventura

O trecho mais importante da fala de Bap talvez esteja na discussão sobre endividamento. O presidente afirmou que o Flamengo tem algo em torno de 24% a 25% do faturamento comprometido com dívida, proporção considerada baixa para o tamanho da arrecadação rubro-negra. O problema é que nem toda receita é recorrente. Segundo ele, cerca de 75% do faturamento tem maior previsibilidade, enquanto os outros 25% dependem de desempenho, premiações e variáveis que podem mudar de um ano para outro.

É aí que mora o dilema. Um banqueiro pode olhar para o faturamento total e dizer que o clube ainda teria espaço para se endividar mais. Mas a decisão esportiva precisa considerar o pior cenário. Se o Flamengo não ganhar títulos, se vender menos do que espera, se perder premiações relevantes ou se tiver queda em receitas variáveis, ainda conseguirá pagar salários, impostos, direitos de imagem, fornecedores, agentes e parcelas de transferências? Para Bap, esse é o limite que não pode ser ultrapassado.

A lógica é correta. O Flamengo não se reconstruiu financeiramente para voltar a tratar desejo como orçamento. A história recente do clube mostra quanto custou sair de um modelo em que a conta era empurrada para o futuro. O novo patamar permite ousadia, mas não elimina responsabilidade. Contratar Almada pode fazer sentido esportivo e financeiro se a engenharia couber no caixa, no risco e no planejamento. O erro seria transformar a vontade da torcida, legítima por natureza, em obrigação administrativa sem medir consequência.

Bap deixou a porta aberta ao dizer que há espaço para “um pouco mais de estripolia”. A frase alimenta expectativa, mas vem acompanhada de freio. A vontade será sempre maior do que os recursos, mesmo em um clube rico para o padrão brasileiro. Essa talvez seja a mensagem mais madura da entrevista: potência não é sinônimo de irresponsabilidade. O Flamengo pode sonhar alto, negociar jogadores caros e disputar nomes de mercado global, mas precisa preservar a capacidade de honrar compromissos mesmo quando a bola não entrega os títulos que o orçamento projetou.

No fim, a fala sobre Almada, Paquetá, comissões e endividamento coloca o Flamengo diante de um debate mais sofisticado do que a caricatura de redes sociais. O clube não parece quebrado, mas também não é um cofre infinito. Tem força para fazer grandes movimentos, porém precisa escolher quando acelerar e quando recuar. A diferença entre gestão ambiciosa e aventura financeira está justamente nessa fronteira. Se o Flamengo cruzar a linha com responsabilidade, pode continuar contratando no topo sem destruir o futuro. Se ignorar os alertas, repetirá erros que a própria reconstrução rubro-negra ensinou a evitar.

Milly Lacombe muda o tom com o Flamengo e transforma Almada em deboche sobre ego

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários

Descubra mais sobre Ser Flamengo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Blog Ser Flamengo

Deixe uma resposta